Este site foi concebido para ser visto num browser dentro dos limites da caducidade: infelizmente não é o caso do seu. Assim, a sua experiência de navegação será seriamente afectada. Sugerimos a instalação de um browser mais séc. XXI, se lhe for possível: http://www.mozilla.com/firefox . Mas qualquer outro serve.

Rititi

Rititi

INÍCIO

  • neste longo inverno madrileno de neve

    Neste longo inverno madrileno de neve, chuva, frio e vento os pais amantes do Rititi-Boy procuram um lugar quentinho onde passar algumas horas de diversão com o bichinho. E como somos geneticamente alérgicos ao conceito de centro comercial nos subúrbios e porque também acreditamos que há mais vida fora de bares e restaurantes, um belo dia pesquisamos nessas revistas de tempos livres que todo urbano-depressivo deve ler e reter no cérebro para ser considerado interessante “alternativas de ócio” (horror) para crianças. Oh, e que mundo se nos abriu, que universo de possibilidades, senhores! Workshops de pintura impressionista, visitas guiadas ao planetário, cursos de cozinha, festivais de teatro, tudo muito estruturado e perfeito se não fosse porque o nosso criaturo tem 19 meses e o único proveito que poderia tirar da aproximação ao impressionismo seria uma bela de uma intoxicação por lamber as pinturas. Por sorte em Madrid também há teatro para bebés a cinco aurélios a criança e nove os adultos. Meia hora de exploração da linguagem infantil, segundo nos explica o site da companhia, cuja “expressão teatral” indaga nos “limites do ser humano”. Te cagas, que mal terá feito o Walt Disney a estes criadores da modernidade pedagógica pergunto-me eu. Mas um dia é um dia e não vou ser eu a careta reaccionária armada em rústica que impede o filho de ampliar os seus horizontes e aprofundar os limites da meta-linguagem, coño. O meu filho também tem direito à Arte! O meu filho também tem direito à estimulação intelectual! O meu filho também tem direito a apanhar um cagaço de primeira quando vê, a meio metro de distância, naquela sala de teatro minúscula e às escuras, duas senhoras gordas mascaradas de deusas gregas a balbuciar mamamamama-uuuuuuuuuuu-aaaaaaaa-tri-tri.uuuuuuuuuuuuf-uuuuuuuuuuuf ao ritmo de tambores africanos que simulam a experiência auditiva uterina. Caralho, penso eu, e o meu filho quando dou por ele já está outra ponta da sala, a berrar que NOOOOOO. Pelos vistos esta é a linguagem ulterior, pré-histórica, pre-verbal, que se estabelece no útero entre a mãe (eu) e o filho (o Rititi-Boy), uma linguagem esquecida pela mãe (eu) e que estes iluminados da intelectualidade pretendem restituir à base de gemidos (ignoro se pré ou pós parto), luzes que parecem incendiar a sala, gritinhos histéricos e balbuceios. Não sei se os bebés presentes se reconheceram nesse orgasmo gutural ou se as outras mães reconstruíram os laços umbilicais mas a sinfonia de berros, choros e lágrimas chegou a roçar os pretendidos limites, sim, mas do absurdo. O que a minha obtusa falta de sensibilidade emocional me diz é que as crianças demonstram felicidade, alegria e diversão com risos, palmas, gargalhadas, não com berros e lágrimas. Só chegou a calma quando uma das senhoras gordas cantou algumas árias clássicas. E não, caros amigos encenadores da pedagogia infantil, não se tratou de um momento de apogeu musical derivado da união metafísica da linguagem uterina e a Arte, deixem-se de disparates. Qualquer pai sabe que os putos adoram música, seja ela clássica, Quim Barreiros ou a cançãozinha irritante do cabrão do Ruca.
    Acho que só fui ao teatro no liceu. Ao cinema, a minha mãe levou-nos a mim e à minha irmã para ver o ET num agora defunto cine-teatro em Elvas, pelo que eu deveria ter no mínimo sete ou oito anos. Na minha realidade infantil, perdidos que estávamos na orfandade física e metafórica do Alentejo, as crianças não éramos perseguidas por planos pedagógicos, nem sabíamos o que era a educação sensorial ou musical, ninguém parecia minimamente interessado em estimular-nos a sensibilidade poética ou a inteligência emocional. Éramos putos e a maioria de nós aprendia na escola. A curiosidade fazia parte da nossa essência infantil, ninguém pretendia potencia-la. Se tivesse existido um teatro infantil lá na pasmaceira não tenho a menor dúvida que a minha mãe nos teria levado, para que nos divertíssemos. Sim, divertir-nos, que deveria ser a razão desses “programas” infantis onde parece que a estimulação é tão fundamental para a criação de espíritos inquietos para um futuro incerto que vale tudo, até por os putos a chorar de medo. Eu, para a próxima, deixo-me ficar pelo Retiro onde há uns senhores muito simpáticos que sempre nos regalam as manhãs com teatros de marionetas. E sem pretensões de pedagogia, só as gargalhadas honestas do meu filho.


    Por Rititi @ 2010/02/05 | 7 comentários »

  • Bébé Xabinho says:

    Ahahaha! Boa, boa!

    Uma pessoa a querer ser moderna e depois sai o tiro pela culatra. Também já me meti em algumas maluquices dessas. O meu filhote tem 18 meses e o k o diverte é gritar na escada para ouvir o eco. São as coisas mais simples que os fascinam.

    Um bom sítio e à borlix é ir a uma loja de animais. Adoram.

    Bjinhos e coragem :)

  • SMS says:

    genial. ge-ni-al. Essas putas intelectuais aos uivos também sempre me puseram fora de mim. Os meus também se cagavam de pavor. Deixei-me disso. :)

  • Tânia says:

    Há de tudo, como na farmácia. Mas realmente há essas experiências ultra-tera-transcendentes que não passam de uma belíssima merda, a gozar com a ingenuidade e tolice dos pais, que querem dar o melhor aos putos. Há coisas muito muito boas, mas há coisas que deviam ser proibidas de tão imbecis. E, sim, eles são os melhores barómetros, como é óbvio ;)

  • tata says:

    Divinal, para não variar…

  • leo says:

    Parabén RITITI!!!! Não vinha dar uma volta ao blog há algum tempo, continuas em grande, eu diria que até melhor :)
    Besos e ve se vês um filme com o Clive Owen rápido, tipo Closer, um belo regalo
    have fun
    leonor

  • Maria do Consultório says:

    O magnífico Cine São Mateus!

  • Little Miss Sunshine says:

    Sim, fica-te pelo Retiro, é muito bonito. Sempre que vamos a Madrid, depois de arrastar as crias pelo Prado, vamos ao Retiro. Da última vez até nos aventuramos a andar de barco a remos, o que nos rimos!

  • Leave a Reply

    Your email address will not be published. Required fields are marked *

    *

    You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>