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Rititi

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INÍCIO

  • Verão Azul

    Escrevo esta crónica, queridos e fiéis leitores, desde um capítulo da saudosa série oitenteira Verano Azul, rodeada que estou nesta praia do sul de Espanha de guarda-sóis, lancheiras repletas de sandes e garrafas de água, velhas enfiadas em fatos de banho pretos, adolescentes peludos à procura do primeiro amor e cadeiras de lona. Isto é o Verão no Grande Reino de Espanha, a prolongação do quotidiano – do bar de tapas, do jardim infantil, da reunião de vizinhos – na imensidade da areia com o ronroneio preguiçoso do mar ao fundo. Na série de referência para qualquer trintinhas ibérico que se preze, os inefáveis Piraña, Tito, Bea, Desi, Quique, Javi e Pancho descobriam os desencantos da vida enquanto mergulhavam nesse mar tranquilo e azul que é o Mediterrâneo, como se esperassem que nas profundezas marítimas estivessem as respostas às crises hormonais e a aparição da primeira menstruação da sonsa da Bea (reconheço que esse episódio em concreto me marcou para a vida toda, que posso eu fazer). Depois de trinta e tal verões passados à beira-mar acredito piamente que a única razão para que milhões de contribuintes planifiquem as férias em destinos de praia – com todas as chatices inerentes a passar quinze dias com todos os membros da família em apartamentos de terceira categoria a dois mil euros a semana, sentados horas a fio com o rabo na areia a levar com o sol nas trombas, fazendo bicha à porta de uma tasca infecta para comer sardinhas semi-cruas – é o desejo de cada um deles de encontrar no rebentar das ondas a explicação à subida do euribor, o 21% de IVA, o desamor aos quarenta anos e uma barriga flácida e mais que evidente. E, se me apuram, a mais profunda esperança de que as próprias ondas levem com elas essas preocupações que tão pouco favorecem a convivência familiar e os poucos dias de sossego em que estão longe do chefe de secção e da patética necessidade de acordar às sete da manhã para pagar a prestação da casa. Todos querem que o mar faça esquecer.

    Até eu, sentada na minha cadeira de lona debaixo do guarda-sol às riscas, me sinto anestesiada com o cheiro a maresia e creme solar factor 530 e reconheço que as tribulações da vida me resvalam bastante a estas alturas do campeonato. Mesmo fazendo o esforço de comprar o El País todos os dias quando vou caminho da praia reconheço que a actualidade mundana me entedia enormemente (…). Porque no Verão o meu cérebro fica em sleep mode e a função memória desactiva-se até ficar como a da peixinha Doris, a amiga do pai do Nemo, curta e deliciosamente fútil. Assim sendo, eu, (…) prefiro lançar-me em cheio na ¡Hola! onde me encontro com as famílias reais escandinavas com cara de Inverno em plena tarde de Julho. Se o norte da Europa é tão próspero e pudente, penso enquanto me bezunto com litros de creme anti-buraco do ozono, é porque nunca é verão na Escadinávia, nem há clima que autorize o ócio porque sim, a sangria e os jogos de raquetes. Até os bifes nórdicos que assam na toalha do lado sabem disto e às cinco e meia da tarde recolhem as tralhas e vão caminho do hotel para jantar a horas, dançar na disco ao som da banda Sensaciones e meter-se na cama à meia noite porque no dia seguinte é obrigatório estar na praia antes das dez da manhã. Seremos pobres, mal-geridos e corruptos no Sul, mas ninguém nos supera na capacidade de reivindicar algo que deveria estar recolhido em qualquer Declaração de Direitos Humanos: o desperdício sem complexos do tempo.

    E quando vejo, ao fim do dia, as famílias a dobrarem as cadeiras de lona, a fecharem os guarda-sóis, a lavarem as lancheiras já vazias com água do mar, quando as velhas de fato de banho preto vestem a bata e levam os netos adolescentes acabadinhos de se apaixonarem para casa, então eu percebo que Verano Azul só poderia ter saído da cabeça de alguém que se sente no verão mais descontaído que nunca, com mais capacidade de amar e jogar ao dominó, de conversar sem tensões com desconhecidos em esplanadas com vistas para o mar e dormir de perna aberta. Porque Verano Azul, como todos os verões da nossa infância, levam-nos de novo a esse tempo quando brincar na areia era a actividade mais importante do dia e no frigorífico sempre nos esperava uma jarra de Tang de laranja bem fresquinha. No fundo isto é o verão, um lugar bonito onde amanhã não escola.

    (Crónica muito antiguinha publicada em 2007 na Revista Atlântico, mas que agora vem mesmo ao calhar)



    Por Rititi @ 2010/08/13 | 7 comentários »

  • Cuca says:

    Brilhante Rititi. O desperdício descomplexado do tempo entre os povos do Sul, merecia várias teses de doutoramento.

  • Kássia Kiss says:

    Dou-lhe os parabéns pela referência à “série oitenteira”, sem a obrigatória muleta irritante, porque desnecessária, “do século passado”.

  • Isabel says:

    desconheço a dita série, mas adorei a crónica ;)

  • Cláudia Gil says:

    Minha cara, trintinhas e quarentinhas…porque eu adorava o Verano Azul!

  • acita says:

    O que eu agora me deliciei com esse post. Espectacular é a única palavra que me ocorre.

  • Hi, this weekend is fastidious in support of me, because this occasion i am reading this wonderful educational paragraph
    here at my home.

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