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Rititi

Rititi

INÍCIO

  • Uma das minhas crónicas favoritas

    DOIDA DE AMOR

    Foi infanta de Castela e Aragão, arquiduquesa de Áustria, duquesa de Borgonha e Brabante, condessa de Flandres, rainha proprietária de Castela e Leão, Navarra, Granada, Valência, Galiza, Murcia, Sevilha, Jaen, Toledo, Algeziras, os Algarves e Jerusalém, Gibraltar, ilhas Canárias e Índias Ocidentais e de Nápoles e Sicília, condessa de Barcelona e senhora de Biscaia, Molina e Álava e duquesa de Atenas e Neopátria. Herdeira por sangue e legitimidade, irmã da que foi a razão do cisma luterano, mãe de quatro rainhas e dois Sacro-Imperadores, fluente em latim, francês, português, catalão e castelhano, dotada para a música, dança e poesia, princesa educada sem mais pretensão ou sexo que a de ser, um dia, líder, consorte ou rainha. E, no entanto, ficou conhecida para a história, as artes e a lenda popular simplesmente como Joana, a Louca.

    Em pleno século XVI, numa Europa de Estados embrionários e coroas com ânsias de expansão, a política internacional exigia o sacrifício da prole e os Reis Católicos, Isabel e Fernando, foram os mais hábeis estrategas do seu tempo. Portugal, Inglaterra e a casa de Habsburgo foram os destinos escolhidos pelos grandes engenheiros do que hoje conhecemos como Espanha como os alvos de uma conquista que só o sangue e o tempo lhes daria razão. E Joana, a terceira de cinco filhos com destinos desiguais, foi encarregue de garantir, com 17 anos, os laços dinásticos e económicos de Castela e Aragão cansando-se com Filipe, o Belo, filho de Maximiliano I de Áustria, o Sacro-Imperador romano-germânico. E lá foi ela, de barco e inocência, a caminho da rica e pecaminosa Flandres.

    Mas a História não se escreve só com pactos e casamentos. Não imaginavam os Reis Católicos, tão devotos e entregues à contemplação mística, que a sua promissora e culta menina ficasse subitamente rendida aos encantos físicos do prometido. Tal foram os calores uterinos provocados pela beldade flamenga que Joana – a poliglota, a leitora de filosofia, a grande esperança da diplomacia castelhana – exigiu um casamento instantâneo, sem mais cerimónias que a formalização do que sentiu assim que olhou para Filipe: um amor desmedido. Sim, Joana enlouqueceu, mas de amor, como todas as mulheres que amam porque sim, que têm a certeza que este é o sentimento pelo que vale a pena viver. E morrer. Filipe, uma vez saciada a curiosidade naquela carne espanhola, prosseguiu as suas conquistas viris noutras camas, noutras peles, fazendo de Joana a heroína de uma história de ciúmes e perseguições, pois esta mulher não entendia que um marido que a tomava de um modo tão ardente, tão real, que a desejava e amava debaixo dos lençóis com toda a potência do físico, não se bastasse unicamente com a sua paixão. E assim começou a lenda e o fim de Joana. Desnorteada, vagava pela corte, demandando do consorte entrega e fidelidade, mostrando aos súbditos os desassossegos de um corpo carente de amor e sexo. A morte repentina de Filipe deixou um cadáver recente e uma viúva desesperada, uma rainha sem cabeça para a coroa e o caminho demasiado fácil às guerras palacianas.  E a solução foi o cativeiro de Joana, como uma princesa dos contos da carochinha, num castelo frio e triste. Mas nenhum príncipe apareceu montado num corcel branco para a salvar da sua torre de melancolia e tristeza e ela foi-se deixando morrer nas névoas da saudade, agarrada à memória de um fantasma belo e traidor, durante 46 anos. Morreu rainha e só.

    Estava assim tão doida a Joana? Talvez fosse esquizofrénica, talvez o amor lhe tenha podido com o sentido das coisas ou talvez se estive borrifando bem de alto para a dinastia Trastâmara, a fatalidade da Ibéria ou o que de ela se sussurrava nos corredores de palácio. Talvez só não gostou de ver como o marido se acamava com a sua aia de confiança e montou-lhe umas cenas valentes, dramáticas e talvez patéticas. Certo é que não foi mais maluca que Calígula, Rasputine, Filipe V de Espanha ou Henrique VIII de Inglaterra. Só que a eles, paranóicos, suicidas ou dementes, não lhes arrebatou esse poder incontrolável que suprime a vontade e a calma e que não se compra nem com a promessa da eterna juventude. Eles foram violentos, assassinos, cruéis, injustos e medonhos por vezes, mas nunca depostos do poder, mesmo sendo doidos de atar e um perigo para os seus semelhantes. Mas a Joana de Castela o que a perdeu foi a sinceridade das vísceras, esquecendo que esta naturalidade no sentir serviria como argumento perfeito de ataque aos seus inimigos políticos (começando por Felipe, o Belo): a feminidade no seu esplendor, reflectida na suposta incapacidade de toda mulher para dominar o útero, as hormonas e as emoções mais básicas. Hoje trataríamos a loucura de Joana com pastilhinhas às cores e um par de visitas ao terapeuta, mas não deixa de ser curioso ver como passados quinhentos anos as mulheres continuam a ser questionadas pela falta de controlo ou serenidade, como se nos faltasse o parafuso do sentido comum por oposição aos cabais homens. Deixamos cair uma lágrima e estamos péssimas dos nervos, prontinhas para o internamento, dizemos palavrões e somos umas rameiras e amigas pouco recomendáveis, apaixonamo-nos e já nem sabemos o que fazemos. Histéricas, já o disse Freud. E pouco mudou deste então.



    Por Rititi @ 2010/09/14 | 6 comentários »

  • P says:

    Adorei ler :)

  • Joana Azevedo says:

    Será que tenho uma veia da Joana, a louca? Ou uma vírgula? É bem provável.

  • Zade says:

    Concordo consigo, Rititi. Basta assistir aos “Tudors”: um homem desequilibrado como Henrique VII, que separou a filha da mãe, para obrigar Catarina a aceitar o divórcio, que cortou a cabeça de mulheres quer por surtos de paranóia, quer porque se queria livrar delas, quer porque, tal como ele, tinham aventuras extra conjugais, é mostrado de forma charmosa, representado por um actor atraente.

    Mesmo quando os episódios se referem à altura da sua vida em que sofria de obesidade mórbida e a sua úlcera cheirava pessimamente, vê-mo-lo representado como um esbelto cavalheiro.

    Quando uma mulher diz não querer um homem por não ser atraente, é fútil, mas esse é um motivo aceite para se lixar a vida de uma mulher, segundo mostra esta série histórica.

  • Juanna says:

    Desde pequenina que me chamam Juanna, a louca :(
    E juro que n enlouqueci de amor, porque eu cá gosto buéréré do meu homem mas sei viver sem ele, xixa. Sem pastilhas.

  • Ana Rita says:

    Fabulástico, mais uma vez! A prenhez aguça-te o sentido crítico, continua! :)

  • Ika says:

    Adorei, Rititi, antes morrer louca de amor do que perecer pela vulgaridade prostrada :) )) adoro o seu sentido de humor e de justiça :) este país ainda está na matriz da racionalidade asséptica como dogma…verbalizar, exteriorizar emoções é tão saudável como distanciar-nos delas pelas palavras :) como dizia a personagem do Jack Nicholson no Terapia de Choque :) ) acautelem-se é com os implosivos não com os explosivos :) ) Abraço, sempre com muita admiração

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