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Rititi

Rititi

INÍCIO

  • Ser feliz a esticar o tempo

    Era uma vez uma miúda com a mania que era gira, culta e eterna e que até cagava umas sentenças inteligentes e bem esgalhadas quando estava rodeada de gente, normalmente também com mania que era gira e culta para não destoar. E dizia que era feliz de imperial em gin tonic, sentada em esplanadas, nos copos e de risadas até que começava um novo o dia, sem necessidade de dormir, ou a dormir quando calhava, sempre cheia de pressa para fazer coisas novas, para conhecer outra gente, sempre a saltitar de bar em restaurante, de museu a sala de concertos, atarefadíssima e ansiosa, como se o universo estivesse condenado ao extermínio iminente e não houvesse mais remédio que viver todos os dias como se fossem os últimos. Amanhã era uma hipótese demasiado improvável para desperdiçar o hoje. E era feliz, pois era. Até que teve um filho. E o universo deixou de parecer-lhe perigosamente finito. E amanhã começava a entrar nos planos juntamente com outra gente, divertida e sem manias e seguramente bem mais gira que aquela que antes a rodeava de cigarro e copo na mão. A pressa deu lugar ao aproveitamento de dias que duravam o que antes uma semana e com esse tempo que de repente lhe sobrava conheceu um amor novo, um amor único e inexplicável, seguro, sem pressa, sem complexos, sem ter necessidade de demonstrar nada a ninguém. E era feliz. Até que teve outro filho. E então tudo se multiplicou e se dividiu mil vezes como se o tal universo tivesse dado em doido, apoderado de uma elasticidade demente. A pressa deu lugar ao silêncio e o silêncio às correrias e as correrias ao choro e o choro ao caos e o caos ao silêncio outra vez, mil vezes num minuto, com a casa feliz, cheia de esse amor duplicado, ou triplicado, sei lá, porque só quem tem filhos sabe que disto não se fala gratuitamente. Uma mãe não explica, só sente os filhos; a uma mãe doem-lhe os filhos, sente-os como uma parte do corpo, dos intestinos, do pâncreas, uma mãe não declara amores como um cantor pimba, deixa isso a poetas de terceira.
    A miúda claro que continúa gira, entre outras coisas porque nunca mais comeu ou dormiu decentemente, e até é capaz de cagar sentenças bem mais inteligentes que antes, não porque seja mais culta ou mais lida, mas porque se viu enfiada em momentos de extremo patetismo e toda a gente sabe que rir-se de si mesma é a melhor maneira de alcançar a sabedoria. E claro que não se importava de agarrar no gajo dela e ir fechar os bares de todos de Lisboa, começando na Bicaense, passando pelo Lounge e acabando no inefável Lux para se deitar perdida de bêbeda algures entre as seis e as dez da manhã, pois não, que ser mãe não lhe retirou o jeito para ser a rainha da festa e uma irresponsável de categoria. Só que se calhar agora prefere feliz a ser esticar os dias sem temer que o universo esteja ou não condenado ao extermínio iminente.



    Por Rititi @ 2010/12/21 | 11 comentários »

  • Juanna says:

    You shine, girl.

  • ana says:

    Não sabia que o teu amor tinha vindo depois do1º filho… há sempre surpresas boas que a vida nos trás!

  • Ana Martins says:

    Para além de ser gira, muito lida e botar dos discursos mais giros que eu tenho lido nos ultimos tempos, lê pensamentos de milhares de outras mulheres mães…ou tem uma bola de cristal, ou escreve com a alma e o coração.
    Tenho dito.
    Feliz Natal!

  • Ana Rita says:

    Um grande bem haja a esta divertissima crónica de amor de mãe!

  • Um novo, um outro amor. Eu já tinha (e tenho) outro bem bom Ana.

  • Um texto lindo e inspirador, de tão genuíno e autêntico que é… Fui mãe pela 1ª vez há 22 dias e (ainda) não encontro palavras para descrever este novo amor! Mas sinto-o em todo o meu ser de uma forma avassaladora… Ainda bem que há alguém que consegue verbalizá-lo e comunicá-lo tão bem quanto tu…

  • jm says:

    Rititi!!

    Gira, mais ou menos, sobretudo boa, as sentenças inteligentes confirmam-se mas intransigentes.
    Agradável reencontro após alguns anos, continua o espirito critico apurado.
    Um bom natal para a familia da rititi

  • Catarina says:

    Amor de mãe! :) Adorei, Rititi.

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