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Rititi

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INÍCIO

  • Afinal Portugal ainda é o meu país

    Estou longe, eu sei, de Portugal e dos seus problemas com a Troika. Eu sei que não me afecta a sua necessidade de recortes, de ajustes de déficite, não tenho quase nada a ver com as mais que previsíveis greves gerais que se adivinham. Este ano ainda não fui a Lisboa, acho que só visitei remotamente o Alentejo uma vez, não comi sardinhas, não celebrei o Santo António. Nem sequer votei. Mas não deixo de olhar para Portugal todos os dias. Leio os blogues e os jornais, sigo no twitter jornalistas lusitanos, a maioria dos meus “amigos” do facebook são portugueses. Acho-me relativamente informada, apesar de não ser afectada pelo quotidiano nacional. Fernando Nobre não me diz nada, muito menos Assunção Cristas, por não falar de Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Mas isso não quer dizer que não me comova quando ouço falar deste novo governo, ou pior, que não me inquiete saber que o meu país está a entregue a gestores (altamente qualificados, sobrados de MBAs, doutoramentos, mestrados, artigos publicados em revistas de renome internacional) treinados nos meandros da empresa privada e nas suas intrigas, promoções, despedimentos, curvas de resultados, objectivos semestrais, prémios chorudos. Portugal, toda a gente sabe, precisa de uma volta, do que se chama uma restruturação fundamental, de uma limpeza no sistema, e estes super-gestores que foram chamados a liderar esta derradeira baixada de calcinhas, ou como quem diz dar literalmente o cuzinho, para pôr as contas em dia e satisfazer as necessidades da nossa infinidade de credores, não terão a mínima consideração com o “país real” quando olharem para os números, que afinal é o que Portugal é: números vermelhos, números arrasados por décadas de ineficiência, números derrapados, números afinal. Quando estes gestores (brilhantes, com certeza) arregaçarem as mangas não terão em consideração nada mais que números, porque para isso foram contratados em base à sua comprovadíssima e aplaudida experiência como técnicos em gestão ou economia privada. E olharão para Portugal como essa empresa que precisa urgentemente de ser limpa de todos os vícios milenares, da sua ineficácia congénita herdada dos séculos em que vivemos dos réditos brasileiros, do Estado Novo, dos subsídios europeus, da boa vida, sem ter em conta nada mais que a urgência de aparecer bem na foto para o FMI, o Banco Central Europeu, os mercados, os investidores. Acontece que nesta empresa que é Portugal não só há chupistas e sugadores, funcionários incapazes, uma classe política que se vem mutando desde a ditadura sem vergonha ou consideração pelos que lhes votam, sindicatos dedicados ao enriquecimento das suas elites, assessores, chefes e subchefes de secção, gabinete ou comissão, uma cambada, aliás, obviamente mais que preparada para se adaptar a tudo o que é corte e recorte graças ao conhecimento das minúsculas letrinhas que compõem as leis e os seus decretos e que os fazem absolutamente imunes a qualquer tipo de limpeza, por muito que esta seja encabeçada pela troika, o FMI ou o mesmíssimo Deus. Portugal, essa empresa, está composto de reformados que cobram cento e cinquenta euros ao mês, mães solteiras que trabalham em centros comerciais pelo ordenado mínimo até às dez da noite, desempregados, agricultores com pedaços minúsculos de terra da que comem eles e o seu triste gado, gente sem recursos nem um futuro e que desgraçadamente dependem do Estado Social, dos centros de saúde, das receitas que lhes passam os médicos, das creches públicas, do abono de família. E esta gente não será tida em conta quando os números precisarem de ser limpos e expostos numa comissão qualquer em Bruxelas. Desgraçadamente, quando se tiver que cortar no Sistema Nacional de Saúde se não cortará nos gestorzecos que andam há décadas a ganhar quarenta mil euros para emitir informes sobre o estado da coisa, mas sim no centro de saúde lá de Pedrogão Grande que não cumpre com os objectivos de produtividade marcados numa reunião num comité qualquer em Lisboa. Como sempre, quem se fode é o desgraçado do mexilhão. E o mexilhão não é de certeza essa classe de merda que está há décadas sentadinha nos meandros do poder a ver como vão passando os governos, o FMI, as troikas, os passos coelhos do momento. Eu estou longe, eu sei, mas não estou cega. E ainda tenho a família e demasiados amigos desse lado como para me deixar de preocupar com o que afinal de contas ainda é o meu país.



    Por Rititi @ 2011/06/21 | 8 comentários »

  • Inês says:

    Este governo é o mais capitalista dos últimos tempos. A maioria dos portugueses votou nele mesmo sabendo que a ideia era aumentar o IVA, fazer mudanças (aka privatizar) o SNS, privatizar as Águas de Portugal, e privatizar tudo o resto que lhe apareça à frente. A somar a isso dão 11% dos votos a um partido liderado por um senhor chamado Paulo Portas que comprou dois submarinos por 620 milhões de euros. Os portugueses têm, afinal, a classe política que merecem. Porque não se informam, porque votam sem pensar, porque nunca perceberam que o voto importa sim e que interfere com todas as pequeninas coisas do dia a dia.

  • Juanna says:

    Oh porra, tiraste-me as palavras da boca (outra vez).

  • Estamos bem lixados por aqui. Sim, deixamos de ser pessoas e passamos a meros números. Pouco lhes importa se passamos fome, desde que consigamos pagar a dívida pública…

  • Catarina Antunes Costa says:

    E a soberania do voto? E a abstenção? E preferir ir para a praia ou passar horas na fila para votar num qualquer presidente de grupo de futebol em vez de ir votar (porque afinal são todos iguais)?
    Como alguém dizia… Infelizmente para os outros, a maioria dos Portugueses terá o governo e as políticas que merece… Tenho pena… dos outros!

  • Por cá só temos um problema. Não há dinheiro que chegue para tanto roubo. Desde o gajo de colarinho branco até à velhota de bigode que, ao saber que deixava de ter medicamentos à borla, encheu a despensa e a dos vizinhos com remédios que lhe dão para os próximos dez anos.

  • Patty says:

    Pois eu penso o contrário. Estes novos governantes/gestores terão seguramente uma atitude mais isenta que os ladrões do PS que lá estiveram nos ultimos 6 anos, e que usaram os estado social apenas para comprar os votos de quem não quer trabalhar. Basta ver o que aconteceu na Nova Zelândia há uns anitos, quando o dinheiro usado nos rendimentos sociais foi desviado pelo governo para criar empregos (muitos destes modestos, limpeza de matas, de ruas, pinturas de prédios). E quem quisesse dinheirinho, que fosse trabalhar. Numa década inverteram a situação dos mais pobres, o alcolismo diminuiu drásticamente e a sociedade tornou-se mais digna. Nem quero imaginar o que aconteceria em Portugal se se tentasse implementar uma medida destas…

  • Carochinha says:

    Não há como o tempo para ver e para crer! Daqui a 4 anos cá estaremos… infelizmente também sou da opinião que estaremos pior, mais resumidos a uma competitividade cega, ao olhar por cima do ombro em todo e qualquer emprego, caladinhos e ordeiros para não perder o emprego, por muito mísero que ele seja… Cá estaremos daqui a 4 anos para ver onde nos levaram os gestores e os seus brilhantes curriculos…

    Obrigada Rititi por esta visão vinda de fora, mesmo assim com tanta clareza!

  • hey says:

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