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Rititi

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INÍCIO

  • Pobres e ricos

    Cinco semanas depois, cá estou eu sentada ao lado da minha janela. As sardinheiras, deve ser do frio, ficaram sem flores e o único toque de cor é dado pela malagueta que comprei há duas semanas na florista que está ao lado do mercado. Esse dia de excursão infantil para comprar flores, os meus filhos descobriram que há meninos da escola deles que “fazem compras” na igreja do bairro. Os mesmos meninos que quando vêm cá a casa brincar depois da escola lhes dizem que nós somos ricos, sem que os meus filhos possam entender o significado de esta classe de afirmações. Os meus filhos não sabem das angustias dos pais deles e muito menos dos outros, vivem num mundo de dinossauros e princesas, de jogos no parque e lanches quentinhos em casa. Não sabem o que é ser rico e mesmo que ouçam à hora do jantar que há meninos que não têm para comer, isto só lhes soa a uma frase com um grave erro semântico. “Come a sopa, porque há meninos pobres” faz menos sentido para eles que dizer-lhes “não há água porque a Peppa Pig fez xixi na cama”.  Os meninos pobres não existem no mundo deles. Eu sei que o que impera na educação infantil é justamente o contrario: falar às crianças sobre as desigualdades sociais, relembrar-lhes o afortunados que são porque têm brinquedos e educação e um mês de férias e não descansar até os putos terem bem claro que há gente mais desgraçada que eles. Pois. Por agora não tem sido preciso. Eles já sabem que há crianças que não têm férias, aliás, muitas delas são coleguinhas de turma. Eles têm amiguinhos que nunca vão a restaurantes, nem ao cinema, que nunca andaram de comboio, que nunca viram o mar. Eles já sabem que os Reis Magos não trazem o mesmo número de prendas a todos e isto não tem nada a ver como os meninos se portem durante o ano. Um dia saberão que aquela amiga que nunca festejava os anos não o podia fazer porque a mãe solteira não tinha dinheiro. Um dia saberão que o colega não fazia compras na igreja, mas que ia pedir comida. Apontar o amigo como “o pobre” situaria automaticamente os meus filhos no lugar dos “ricos” que não são. Porque eles também têm colegas que passam férias nos Estados Unidos, que cada fim de semana recebem brinquedos novos, que têm uma casa na serra com piscina e três carros na garagem. E eles não. Então os meus filhos seriam o quê? Pobres? Pois, depende. Educar as crianças no “coitadismo”, tão típico deste mundo de valores de reallity show, serve justamente para o contrario, para que os putos comecem a diferenciar-se e sempre segundo os parâmetros dos adultos que precisam desesperadamente de etiquetas para se sentirem bem. Os meus filhos, por enquanto, não sabem o que significa ser rico ou pobre. Mas brincam sem rótulos. E para mim, agora que são pequenos, chega.



    Por Rititi @ 2013/11/19 | 11 comentários »

  • Titá Negrão says:

    E chega muito bem!

  • Margarida says:

    E deve ser assim, sem separações, sem complicações. São todos meninos e meninas, e é isso que importa para eles, as crianças não ligam a essa do dinheiro, que tanto aflige os adultos :)

  • Blue says:

    Chega, sem dúvida. E devia chegar sempre.

  • D says:

    Crianças deveriam ser crianças, sem diferenças de cor , ou classe social. Isso sim seria bom, mas enquanto os pequenos não descobrirem que afinal não é bem assim e não chegarem os porquês, deixemo-los viver no seu mundo de faz de conta onde afinal, cada um à sua maneira, até são felizes.

  • Concordo em absoluto com o que escreveu. E acho que muito mais do que lhes explicamos, ou deixamos de explicar, os nossos exemplos, as conversas que temos ( entre adultos e eles a escutar), as compras que fazemos, a ênfase que damos as coisas materias, tudo isso é que molda a forma de ver o que é pouco, o que é muito, o que pobre, o que é rico, o que vale e o que não vale a pena… Simples assim, não acha?

  • Juanna says:

    Bonito, Rititi, mesmo bonito. E sim, concordo contigo. Aos olhos da A, a minha MJ é rica porque janta fora 1 vez por semana e tem roupas não herdadas de 10 primos. Aos olhos da MJ, a L é rica porque só usa Levis, UGG e tem uma Blackberry. Aos olhos da neta dos meus vizinhos, as minhas filhas são felizes porque nós, pais, não lhes batemos com maldade. Não escondo às minhas filhas que há gente muito infeliz no mundo mas também não insisto muito para que o saibam. Aprenderão in due time.

  • Juanna says:

    Bom, reli o que escrevi e parece que há quem bata nos filhos com bondade e outros com maldade. Era para reforçar que essa neta dos meus vizinhos leva com palmadas e insultos do pai e considerando que tem 1 ano e meio, não estou a ver o quão mal se pode portar para enfurecer o pai dessa maneira.

  • monica says:

    este texto está lindo e diz tudo. adorei!

  • hey says:

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