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Rititi

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INÍCIO

  • Sempre alerta

    Começar o 2014 em Madrid sentindo-me em 1984. Ou até antes, como nos tempos a preto e branco quando as mulheres precisavam de autorização para comprar um carro, assinar um contrato de trabalho ou até casar. Estar quase a fazer 39 anos, mas sabendo que para o Governo espanhol não tenho a maioria de idade legal nem a maturidade intelectual para tomar decisões que afectam não só o meu corpo, como também a minha vida e a da minha família. Assim estou eu graças ao miserável ante-projecto da Lei do Aborto (pomposamente chamada “Ley de Protección de la Vida del Concebido y de los Derechos de la Mujer Embarazada”) ideado por um ser ultra-católico com pele de bacano chamado Alberto Ruiz Gallardón, empenhado em liderar uma cruzada contra a generalidade da mulheres a quem logicamente considera inferiores e incapazes. Se esta lei for aprovada (que será, pois o PP tem a maioria absoluta no Parlamento) regressa o aborto por supostos. Volta a excepção ao destino natural do gajedo, o parto. O aborto só será permitido em dois únicos supostos: em caso de violação ou de grave perigo para a vida ou a saúde física ou psíquica da mulher. A malformação fetal não será motivo de aborto. Uma mulher não poderá controlar a sua maternidade, a sua vida. E estará dependente do informe de dois médicos, da assistência moral de um trabalhador social, do papel carimbado da polícia que comprove que não só foi violada como que também o denunciou oportunamente às autoridades competentes e de um labirinto burocrático, doloroso e injusto para poder pôr fim, se assim for autorizada, a uma gravidez que não pode ou não quer levar a termo. Se esta lei for aprovada, as mulheres que vivemos em Espanha deixaremos de ser consideradas adultas perante a lei, deixaremos de ser as donas do nosso corpo, deixaremos de ser cidadãs de primeira. Quando esta lei for aprovada em Espanha toda a mulher que ficar grávida será obrigada a parir um feto que não ama fruto de uma má noite de sexo, ou um feto com sindroma de down, ou que não pode manter porque o cabrão do marido que lhe batia finalmente foi preso ou porque foi despedida. Sim, eu sei que estou a escrever feto. E não bebé. Ou filho. Ou lindo espelhismo de vida que se vê na ecografia das 12 semanas. Eu que sou mãe escrevo feto. Tenho autoridade moral para o fazer. Eu pari dois filhos. Mas graças a esta liga de tarados que nos governa que é incapaz de entender que há mais realidade para além das suas teses religiosas particulares o feto agora vale mais que uma mulher adulta. Um feto vale mais que a Vida cá fora. A Vida que inclui contas que não encaixam, despistes, uma pílula que falha, decisões profissionais, crises no casal, malformações terríveis que condenarão milhares de crianças prostradas em camas a morrer todos os dias até que os órgãos deixem de funcionar; a Vida de adolescentes mal-informadas, de mulheres que se arrependem, de seres humanos de verdade. No dia 20 de Dezembro, com toda Espanha com o carro carregado para passar o Natal em casa dos pais ou dos sogros, este cobarde Ministro de Justiça chamado Alberto Ruiz Gallardón anunciou o seu asqueroso ante-projecto de Lei. Ao final desse dia pintei o olho, armei-me com meus saltos altos e fui até à porta do Ministério. Éramos poucos, menos de mil, nessa manifestação convocada via twitter. Mas fui. Com frio. Rodeada de polícias e sobrevoada por helicópteros. Fui porque não consinto que nenhuma ideologia, seita ou grupo religioso controle a minha  vida. E com quase 39 anos, 2 filhos e às portas de 2014 gritei “Nosotras parimos, nosotras decidimos”. As mulheres nunca nos poderemos relaxar. Enquanto houver uma cambada de gajos que não suportem que decidamos sozinhas as mulheres nunca poderemos dormir sossegadas. Sempre alerta. Defendendo os nossos direitos.

     



    Por Rititi @ 2014/01/10 | 17 comentários »

  • Francisco BT says:

    Divirto-me a vir a esta página. No entanto hoje fiquei desolado. Há uma narrativa que se repete, ou melhor que se grita, procurando desse modo validar as suas opções.
    Em Portugal, em 2013, abortaram mais de 20 mil mulheres e desses abortos mais de 80% eram crianças saudáveis e absolutamente viáveis. Ou seja, e de acordo com uma redução bizarra, más consequências de uma noite de mau sexo. (Isto é todo um conceito de vida que me encanta, quase me delicia.)

    Quando se fala com o soutiã na mão, a conversa fica sempre foleira.

    • Rititi says:

      Francisco, vá ali dar uma volta ao bilhar grande se faz o favor.

    • Juanna says:

      A cada foda que um homem dá, devia sair-lhe um filho. E deviam obrigá-lo a cuidar do filho e sustentá-lo e amá-lo e tudo o mais. Porque a cada foda que um homem dá pode mesmo sair um filho mas quem se fode é a mulher. Mas vá lá alguém tocar no sacrossanto homem e seus direitos… ele pode dar de frosques, ele pode fingir que não é nada com ele, ele pode ir pagando uma pensãozeca e não pôr os olhos na criatura não abortada porque quem se fode é sempre a mãe. E não me venham com a merda do argumento de “ah que o dê para adopção” porque o dano psicológico (e muitas vezes físico) que acarreta a gravidez não desejada já fodeu a mulher para a vida inteira. Fode-te e desfaz-te em diarreia Gallardón, PP’s e histéricos.

    • Maria says:

      Francisco, não acha que essas mulheres que fizeram abortos o teriam feito de qualquer maneira, sendo legal ou ilegal?

    • Maria Inês says:

      Já agora, pode dar-me os dados anuais do número de abortos antes da Lei ter sido aprovada em Portugal? Para fazer essas afirmações deve tê-los, de certeza. Embora me cause estranhesa, já que era algo clandestino, feito por vezes em condições precárias ou dando muito dinheiro a ganhar àqueles que se dedicavam ao negócio.
      Ah! Espere! Já percebi, acha que o aborto é algo que só é feito desde que a lei foi aprovada.

      Tá certo.

  • Vera says:

    É um retrocesso lamentável. Fiquei muito triste quando ouvi essa notícia na rádio. Antes, iam as mulheres daqui para Espanha para abortar, agora vai ser ao contrário.

  • Polo Norte says:

    Gosto tanto de ti. Tanti, pá!

  • Pedro says:

    Aí, ao leme, eras mais do que tu

  • Filipa says:

    Mas era só o que faltava ser um Francisquinho qualquer de merda a decidir o que eu deixo crescer ou não no meu corpo.

    Excelente post, Rititi.

  • Rititi, apenas “clap, clap, clap”.
    Francisco BT, considera muito melhor, então, que dessas 20 mil mulheres que fala, cerca de metade tivesse morrido de complicações resultantes de abortos clandestinos feitos à mão de curiosos? É que lá por não ser legal, não quer dizer que deixe de ser feito… a diferença está mesmo nas condições em que é feito.
    E não se iluda: não é uma lei que mudará o real número de interrupções de gravidez… apenas o escamoteará!

  • Lá estamos a andar para trás novamente…nem acredito naquilo em Espanha

  • Maria says:

    Eu fui uma das que foi abortar a Espanha em 2001, quando cá ainda era ilegal fazê-lo. Eramos mais portuguesas do que espanholas.
    Não sabia desta notícia…
    É triste, muito triste verificar que estamos a retroceder em tanta coisa. E não me admirava nada que Portugal seguisse o mesmo rumo de Espanha, numa decisão que apenas deveria caber à própria mulher.

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