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Rititi

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INÍCIO

  • E porque já é verão, tomem lá um texto do meu último livro

    QUEM ROUBOU AS MINHAS MAMAS?

    31 de Julho. Cinco da tarde. Amanhã começam as férias. Tenho exactamente seis horas para ir à depilação, ao supermercado (com o objectivo de encher o frigorífico do apartamento no Algarve), atropelar cinco velhas, chegar a casa, fazer as malas, descobrir onde guardei as toalhas, as sombrinhas e as putas das cadeiras de praia; seis horas ainda para arrumar a casa, desejar a morte do meu marido e lamentar não ter dado para adopção os meus filhos quando eram pequenos, deixar notas à empregada (“não se esqueça de regar as desgraçadas da plantas”), dar a chave à vizinha para salvar as poucas jóias que tenho em caso de cataclismo nuclear e tentar­me suicidar com a corda de estender a roupa. Mas antes, porque a minha vida é este absurdo de pressas e lamentos, tenho que comprar o biquíni. Merda. Quando dou por mim estou dentro num cubíclo minúsculo no Corte Inglês, praticamente nua e cheia de pêlos, branca e com a pele por hidratar, com um foco de luz que me potencia as estrias, as dobras da barriga, a celulite das pernas e as minhas tristes e miseráveis mamas. Oficialmente, declaro este dia como o mais deprimente do ano. Considero, até, apanhar um avião para a Arábia Saudita e comprar um burkaquini, que me tape, me esconda. Ou então mudar o destino de férias para a Lapónia. Ou até cancelar as férias e deixar­-me estar escondidinha em casa, como uma freira de clausura até à chegada do inverno polar. Qualquer coisa que não me obrigue a enfrentar (a mim e ao mundo) com um corpo que não me pertence, que alguém trocou algures nos meus trinta e poucos e que só hoje, na secção de lingerie feminina de uma grande superfície comercial, me dei conta. Desculpem, mas este não é o meu corpo, não pode ser. Estou enfiada num biquíni que deixa bem sublinhado que não tenho 20 anos. Como é possível? Quando é que isso aconteceu? Quando é que cresci (em todos os sentidos)? Ainda ontem estava fabulosa, magra, rabo duro e mamas alvo de inveja e desejos a partes iguais e agora… sou uma lontra! Cabrão de biquíni este, que me esmurra com cada uma das minhas imperfeições e que, por muito que a funcionária competente da loja teime em mostrar­-me dezenas de modelos, insiste que as minhas mamas, antes vigorosas e potentes, se transformaram nuns sacos vazios, fofos e tristes, incapazes de se aguentarem dentro de um sutiã fabricado para fazer brilhar peitos juvenis e felizes. Merda, merda e mais merda. Compro um fato de banho de gola alta e desejo que chova todos os dias de Agosto.
    A vida pode ser miserável quando as nossas mamas não nos acompanham, quando o nosso corpo decide fazer anos e nós não, quando a imagem ao espelho não corresponde às nossas melhores previsões. Devia ser proibido. Temos quase 40 anos e o reflexo no espelho diz-­nos que o nosso corpo é o de uma senhora de 50 anos. Normal. Ninguém sabe como é o corpo de uma mulher com mais de 35 anos. Eu, pelo menos, não faço a mais pequena ideia, sobretudo quando toda a publicidade para as mulheres da minha idade é protagonizada por miúdas de 20. Marcas de cosméticos que usam modelos acabadas de sair da adolescência para vender cremes fortalecedores para os peitos são, no mínimo, um insulto à minha inteligência. Mas caio sempre na mentira. Todas caímos.
    Queremos acreditar que o brio das mamas da criatura do anúncio é fruto do trabalho de brilhantes engenheiros químicos após anos de árdua pesquisa – e não a natural consequência de ter 20 anos. Estúpida de mim, estúpidas de nós que nos deixamos sentir tristes, velhas, acabadas e a correr para comprar o creme de cento e tal euros que, obviamente, nem nos fortalece as mamas, nem nos tira a idade e muito menos os efeitos da amamentação, da gravidade e da vida em geral. Somos tão inocentes, tão crédulas, que ficamos arrasadas quando as revistas femininas publicam uma fotografia da Heidi Klum na praia com a maléfica legenda “fabulosa aos 40 após ter dado à luz 4 filhos”. E nós, deprimidíssimas, porque depois de um único filho pareceríamos uma baleia se nos fotografassem ao lado dela (estejam descansadas, jamais estaremos ao lado da Heidi Klum). Como é que a Heidi consegue e nós não? Como é possível ter a pele tersa, os abdominais duros, as mamas no sítio? Fácil: porque a Heidi tem estilistas, porque fez uma operação às mamas, porque se injectou de botox, porque faz mais ginástica num dia do que nós num mês inteiro, porque Deus nosso senhor lhe deu uma genética à prova de anos e PORQUE ELA É MODELO, porra! O trabalho dela é esse, estar magra, fabulosa. Caso contrário, não arranja trabalho! Se uma médica depois de parir se esquecesse de tudo o que estudou na Faculdade de Medicina também era capaz de perder o emprego, não acham? Mas em vez de nos insurgirmos contra esta falácia, de fazermos boicotes a este discurso que nos ofende chamando­-nos gordas, flácidas ou velhas, decidimos embarcar e achamos que normal é ter o corpo da Luísa Beirão e não o nosso, e ficamos tristes com as nossas mamas, o nosso rabo, a nossa horrível existência.
    Basta! A sério, chega. Por sanidade mental, há anos que não compro uma revista feminina. Em cada página sinto­-me tratada como uma profunda imbecil: dietas rápidas, cremes de última geração, terapias de choque, ginástica enquanto se sobem as escadas, as últimas colecções (a preços desorbitantes) – tudo para parecermos muito mais novas, como se a idade fosse uma ofensa, ou pior, uma doença. Não nos basta ser gordas (sempre), pobres (obviamente), enfadonhas (claro), ainda por cima somos velhas! As revistas, a publicidade, a exaltação das figuras públicas… Parece que o mundo ficou doido e, de repente, estamos à beira do degredo físico! Como se não bastasse já o nosso quotidiano, a gestão das nossas expectativas, o salário que não chega, os putos que ficam doentes a meio da semana e não temos a quem os deixar, um marido que só vemos ao final do dia, um emprego que nos obriga a cair da cama ainda de noite, ainda temos que levar com a conversa que somos uma merda? Vão­-se foder. Reparem nas capas das publicações, no discurso paternalista, na insistência em nos definir pelo que parecemos e não pelo que somos, pelo que construímos, pelo que amámos. Não dá, esqueçam. Comigo não gozam mais.
    E de volta às minhas férias no Algarve, visto o fato de banho de gola alta que me aperta nas virilhas recém­ depiladas e ainda em carne viva. O meu gajo, quando me vê nesse preparo, pensa: “Quem és tu e porque razão sequestraste a minha mulher?” Afinal, parece que o burkaquíni me fica mal como um corno. Pior: além de feio, de me fazer mais gorda e de me esmagar as mamas, dá­-me imenso calor. Estou tão desconfortável, tão apertada, tão pouco ágil que ao terceiro dia troco­-o pelo meu velho biquíni onde as minhas mamas balanceiam felizes e a minha barriga habita relaxada depois de ter emborcado três imperiais no restaurante “O Manel”. Olha, caguei. À minha volta, na praia, mulheres da minha idade passeiam as suas banhas nas ancas, passeiam sem complexos os seus rabos que tiveram dias melhores e as suas carnes até há pouco apertadas, todas elas maduramente satisfeitas (ou conformadas, vá), a correr atrás dos filhos à beira mar, a fazer castelos na areia, a ler a Caras nas suas cadeiras de lona. Estas são as mulheres perto dos 40 anos, mulheres cujos corpos são o reflexo de uma vida, não de um conceito de beleza irreal que não inclui partos, horas com o rabo pegado à cadeira no escritório, noites a acordar cada duas horas por culpa de uma virose infantil, assaltos clandestinos ao frigorífico a meio da tarde, sapatos que magoam os pés, amantes esquecidos, maquilhagem que não se limpa por excesso de cansaço, enfim, de uma vida que nos faz sentir seguras e sexys quando estamos vestidas.
    As nossas mamas estão desinchadas, o nosso rabo caiu, a nossa pele tem celulite? Sim, e depois? O que esperávamos? Se isso vos preocupa, martiriza, têm bom remédio: operem­-se sem complexos, sem medos e com todas as consequências; submetam­-se a tratamentos com choques eléctricos, injectem­-se de botox, matem-­se no ginásio, façam transfusões de sangue. Outra opção, mais barata e menos dramática, é ir aprendendo a aceitar no corpo o passo dos anos, conhecendo os pontos fortes e potenciando­-os, relativizar (cada dia mais) as imperfeições e, sobretudo, gozar a vida sem histerias, mais próprias de adolescentes complexadas do que de mulheres maduras. Eu opto pela segunda opção. Prefiro ganhar calorias a perder um belo prato de caracóis. Acho que já tenho idade para ter juízo.
    (In “Manual de Instruções para Sobreviver aos 40, continuar sexy, com alguma vida sexual e não parecer uma lontra”. Edições Cego Surdo e Mudo)



    Por Rititi @ 2014/06/29 | 6 comentários »

  • Sofia says:

    Envelhecer é normal. Mudar é normal. Ficamos diferentes é normal.
    O que não é normal é esta pressão sobre as mulheres para serem bonitas, sexys, sempre em forma, sempre perfeitas. Pode ser devastador… Ou, no mínimo, muito irritante.

    (E sim, para onde foram aquelas curvas que nos faziam brilhar? ;) )

  • catarina pereira says:

    Olá! :)

    Qual é o preço do livro? está disponível em livrarias?

    Obrigada

  • rosaamarela says:

    OBRIGADO !
    o que eu me riiii

  • Teresa says:

    Pela quantidade de asneiras e pela escrita, mais parece um dos livros deprimentes da Margarida Rebelo Pinto …

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