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Rititi

Rititi

INÍCIO

  • Não morri, tenho andado ocupada.

    Com a vida, com o banco onde trabalho há 14 anos e que se fodeu com a vénia dos que tinham a competência e o dever de evitar o seu colapso e a nossa vergonha, com filhos que desenvolvem com a idade uma surdez selectiva (ou então devo ter um problema na boca), com a mudança de empregada (e vão três num ano), com a puta da vida de gente grande. Mas eu ando por aqui, companheiros. Atenta às vossas letras. Às vossas inquietações e ao infindável número de grandes dilemas que cada dia ocupa os vossos blogues, estados de facebook e tuits apaixonados. Tenho lido pouco, ou pelo menos nada de jeito, fui ao concerto dos Extremoduro e vi de enfiada a série Fargo. Orange is New Black vale pelas gajas e por sorte começou a 5ª temporada do Walking Dead. De Homeland nem falamos. Também descobri o Observador, que não se esquece de me citar quando é preciso comentar assuntos sisudos que atormentam o nosso país (caso Jessica Athayde, é óbvio). Leio o Observador e gosto. Tem boas análises, crónicas bem escritas e até textos “must do” que tanto êxito têm entre os leitores apressados. O problema é quando me encontro com um texto sobre “Os 5 livros que tem de ler aos seus filhos” (que EU tenho de ler, atenção). Sinceramente  amigos do Observador, chateia-me o imperativo. Porque, segundo o texto, não basta ler-lhes: tem de ser antes de dormir. Para já, a primeira conclusão a que chego é que os meus filhos estão condenados à estupidez. Não conhecem nenhum dos livros recomendados, os desgraçados. A segunda conclusão, menos prosaica, é que a livreira recomendadora não deve ter filhos. Ou vá lá, deve ter uns filhos que são uns anjinhos, um conjunto de perfeições, umas santas alminhas que à hora de ir dormir estão em estado zen gravitacional e com os chakras todos alinhados. Ou então estão drogados.

    Eu sei que vocês que estão desse lado do iPhone a ler-me no autocarro são uns pais extraordinários e focados no desenvolvimento psico-emocional e intelectual dos vossos filhos; até estou convencida que os que ainda não são pais já sabem que para ser um bom educador é fundamental dedicação, literatura e amor, a ser possível depois do jantar e antes do beijo amoroso de boas noites, mas queridos pais, amadas mães, precisamente a essas horas a última coisa que o meu corpo me pede é sentar-me ao pé do beliche e ler-lhes Onde Vivem os Monstros com voz serena. A partir das sete da tarde há de tudo na minha casa menos momentos “afectivos, tranquilos e únicos”, que eu nem sei como somos capazes de sobreviver sete dias por semana a esse suposto “tempo de qualidade”. A única qualidade real que conheço é a a dos meus berros quando os chamo para a banheira. Sim, amigos, o fim do dia é aproveitado para algo tão pouco gerador de boa onda como “banho-jantar-lavar os dentes-cama”, a um ritmo quase militar e com ordens que se repetem em média dez vezes: toma banho, não entornes a água que isto não é uma piscina, não metas o dedo no nariz do teu irmão, sai da banheira, tu também, seca-te, o rabo também conta, veste o pijama, está ao contrario, senta-te bem à mesa, fecha a boca, come a sopa, tira a mão da cabeça, põe a mão na mesa, o guardanapo não é um chapeu, não grites ao teu irmão, bebe o leite, não cuspas o leite, lava os dentes, os de lá atrás também, faz xixi, dentro da sanita já agora, beijo ao pai, beijo à mãe, deita-te, apaga a luz, o que queres, já bebeste água, mais um beijo, deixa de cantar, dorme, o que queres que eu faça se o teu irmão ressona, porra dorme, não tens  nada medo. VEZES DOIS. Imaginam por tanto a minha especial falta de vontadinha (e de corpo, repito) para todos os dias lhes estar a alimentar “a curiosidade”. Como se fossem ficar com a capacidade intelectual dum concorrente da Casa dos Segredos, incapazes de lerem as instrucções de um champô ou com medo dos livros. Poupem-me.

    Porque não há dia em que um jornal, revista ou blogue publique uma lista de tarefas sobre a educação dos meus filhos: alimentação biológica, música clássica, desportos alternativos, filmes que fomentam a tolerância, roupa ecológica, brinquedos sustentáveis, um sem fim de instrucções, porque eu lógicamente sozinha não atino. O mais certo é que acabem qual bestas, analfabetas, perdidas num mundo idílico onde todas as crianças devem falar várias linguas, nadar como campeões olímpicos ou conhecer um vasto leque de autores da literatura nórdica. No mínimo. Sem esquecer as actividades conjuntas, imprescindíveis para criar os tais laços íntimos e profundos com os meus rebentos, como reclicar caixas de sapatos que só me ocupam espaço e criam pó ou a confecção de bolinhos de arroz em bucólicas tardes de domingo. Não sei como é que ainda não me tiraram a custódia. Porque as crianças não podem apanhar secas sozinhas no quarto não vão sentir um tremendo vazio existencial.  Porque os pais temos de ser estupidamente pro-activos, divertidos, tenhamos resaca, sono ou uma hemorroide assassina. Porque isto cada vez mais parece uma puta de uma competição a ver quem é mãe mais original e o filho mais criativo. Depois a malta admira-se que os putos andam stressados. Estão é fartos de nós.

    (Já agora, o meu filho de 6 anos sabe ler perfeitamente. Em português e em espanhol.  Sozinho.)



    Por Rititi @ 2014/10/21 | 22 comentários »

  • Sara says:

    Gosto. Gosto. Gosto. Tchi… ena pá, as saudades que eu tinha de a ler aqui.

  • vera says:

    ja tinha saudades!

  • Juanna says:

    Até chorei, Rita. Sabes quantas vezes me sinto a pior mãe do mundo porque a partir das 20 da noite NÃO suporto o som da voz das minhas filhas? E que ler para elas é coisa que só faço de vez em quando? E que raramente me sento a brincar porque detesto brincar e nunca tive com quem brincar em casa e não fiquei maluca? E que tenho a sensação que estou a criar imbecis porque quando vamos a museus só querem é rir-se dos rabos das senhoras ou das perucas dos senhores? Eu bem tento seguir os preceitos da educação psico-existencial-vais-ser-o-maior-se-fores-ao-museu-todos-os-dias, mas não consigo. E farto-me delas…e berro às vezes… há dias que fico tão triste e me sinto uma falhada… mas não sou, não sou mesmo.

  • Ana Silva says:

    Cara Rita,
    encontrei o seu Blog por acaso nas minhas incursões pela net no meu período de descanso desta vida profissional que tanto me atormenta. As suas palavras me acalmaram o coração… mais do que os comprimidos que tomo devido a uma depressão!! tenho 3 filhos: 2 rapazes gémeos e uma menina e como eu me revi nos seus comentários sobre o horário das sete da tarde até à hora que se deitam – o segundo trabalho como eu lhe chamo! E às vezes penso que sou a pior mãe do mundo e qualquer dia tenho a segurança social à porta de tanto grito que dou!!! mas não estou sozinha e espero que tudo acalme! Obrigada!

  • Welcome back!! E muito obrigada por seres uma mãe real, que berra como eu, que lhe falta a paciência como eu, que por vezes quero é que eles fiquem MESMO no quarto sem me chamarem ou dirigirem sequer a palavra na minha direção, que entra em modo automático entre as 19 e as 21.30h como eu… e que, como eu, respira fundo quando ouve o ‘ressonar’ que anuncia o sono profundo e o inicio do nosso tempo!!! Cá beijinho, que devíamos era fazer um clube!!!!

  • Para teu consolo, Rititi: e eu que achava que estava a fazer tudo bem, levei a criança aos concertos para bébés desde os primeiros meses, li sempre, cantei todas as canções de embalar, passeámos pelo Pinhal das Artes ao lado daquelas famílias zen e alternativas e cheias de psico-social a todas as refeições e em todos os gestos, e a garota chega aos seis anos e quer ouvir Quim Barreiros e Augusto Canário, quer aprender a tocar acordeão como uma tal de Claudia Martins, e até estranhou não haver mochilas e cadernos desses artistas de renome. E que não percebe porque é que eu a mando calar no meio do supermercado quando ela quer cantar um refrão manhoso? Shame on me.

  • Ana Sousa says:

    Já tinha saudades dos seus posts. Ainda bem que voltou. Faz-me rir, e fico bem disposta com os seus posts. Identifico-me imenso! As minhas filhas já são crescidas, mas lembro-me perfeitamente dos finais de dia…dos banhos, dos gritos (que ainda dou, porque elas crescem mas a estupidez também aumenta)e nunca, mas nunca tive pachorra para ler histórias antes de dormir…com a mais velha, ainda tentei…mas lia de duas em duas páginas para ser rápido…e a partir das 20h30 até ficava com tremeliques só de olhar para elas!acho que nós é que somos as mães normais…aquelas que, tal como a mãe do Ruca, vêem os filhos riscar paredes e trepar moveis sem os repreender e dizem com um ar calmissimo: oh! menino…isso não se faz…precisam, definitivamente de muito apoio psicológico/psiquiátrico!
    Um abraço,
    Ana Sousa

  • eva lima says:

    Obrigada, obrigada, obrigada!

  • Isabel says:

    Gostei, adorei , amei.
    Fazes falta.
    Somos mães reais.

  • Alexandra says:

    É tão isso! clap clap :)

  • [...] do resto… Quando leio crónicas de pais que se queixam do caos que os filhos causam (li este este excelente testemunho da Rititi com que me identifico pois o deitar da minha filha é assim, lar… o que sinto é que temos stress por outros motivos. Exigem-nos que tenhamos empregos exigentes, [...]

  • sk says:

    acordem, vistam-se, estamos atrasados, despacha-te, come, mais depressa… lava os dentes, a cara… vamos embora, levas tudo? (quero ir fazer xixi, não consigo desapertar o botão), trazes a mochila? (falta o caderno de ingLês), trazes o bibe? o lanche da manhã? (não gosto de iogurte de morango) a muda de roupa? todos para a porta, desce as escadas, entrem no carro, vamos, apertem os cintos… tenham um bom dia, até logo, beijinhos mil, adoro-vos, até logo!!!

  • PMar says:

    Obrigada! Já tínhamos saudades de tanta clareza de espirito!

  • Cj says:

    Quando se fala de crianças e do ambiente em casa, em alguns iluminados, cria-se a ideia de um ambiente harmonioso paradisíaco em que só falta existirem anjos a cantar.
    A realidade é bem diferente, e muitas vezes não é mais do que o que descreveu, crianças calmas e maravilhosas, são miúdos desinteressados apáticos. As crianças são difíceis? –Não as normais são curiosas desafiantes e perdem-se com qualquer coisas, elas estão a questionar o mundo, a conhecer o corpo a manipular as formas. Mas isso não deveria ser assim? – Claro que sim, o nosso tempo em casa é que é pouco e tentamos ser mais eficientes possíveis mas para eles isso não é o mais importante.
    As crianças não necessitam de livros que lhes expliquem o medo a amizade o amor o saber comportar-se, isso é responsabilidade dos pais e da escola, o miúdos necessitam de livros que os façam entrar em mundos mágicos de aventuras maravilhosas e que os façam sonhar. Se não falarmos da leitura como um complemento do aprender a falar e a escreve, um bom livro para uma criança não deve ser mais que isto.

  • Ana Albuquerque Barata says:

    Bem vinda de volta. E gostei tanto de ler este texto. Ainda bem que há Mães, como eu, que também não são perfeitas, e que há fins de dia, como os meus, caóticos e com tudo menos momentos fofinhos e “cutxi-cutxi”.
    Obrigada!

  • Monica says:

    Obrigado, a sério! Senti-me humana, e não um ser desprezível que não tem tempo, paciência, para todo resto que nos são diariamente impingidos pelos iluminados que têm filhos “perfeitos”.

  • O que eu me ri e revi neste texto!!! Brilhante!!! Ainda bem que voltou!

    beijinho

    p.s- roubei um excerto do post, devidamente identificado, para por na minha tabanca!

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