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Rititi

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INÍCIO

  • A caricatura

    Não têm sido tempos fáceis para o universo feminino. Desde o Jessicaathaydegate, passando às fotos roubadas ao iCloud das famosas americanas, até à cara da miúda com problemas de auto-estima conhecida como Bridget Jones, o escrutínio mediático à mulher não nos deu ultimamente um descansinho que fosse, transformando assuntos menores, ou quanto menos privados, em protagonistas das nossas timelines e destaque nas secções de sociedade dos telejornais. Assusta-me a urgência com que todas as semanas temos de encontrar a notícia explosiva sobre uma mulher que se operou, virou gay, cortou a franja, sobreviveu heroicamente a um cancro ou é apontada a nova sensação das gordas sem complexos. A mofa à mutação facial da Renée não é gratuita. E não sendo recente tomou uma magnitude a roçar o pornográfico. O que antes se ficava num comentário anónimo à volta do café agora é amplificado por qualquer comentador anónimo, internauta, tuiteiro, blogger ou cronista, como se cada um de nós tivesse efectivamente direito a postar uma foto da cara da Renée, dizer que está maluca, que flipou, fazer um collage com as sucessivas injecções de botox, exagerando absurdamente a opinião sobre uma má decisão, talvez, mas uma decisão que é dela e que só a ela lhe afectará. Comentar a franja da Byoncé como se a nossa vida dependesse disso. Ir a correr ver os vídeos sexuais íntimos da Jennifer Lawrence (e achar que quem anda à chuva molha-se). Transformar o vestido de noiva da Angelina Jolie num assunto de estado. Os desgraçados dos meus Trambolhos são uns amadores comparados com o gossip desenfreado que nos invade. Uma coscuvilhice de facebook destinada a analisar, comentar, gozar e diminuir as mulheres, neste caso umas famosas que se põem a jeito, que se operam, que são notícia por estarem ali, na red carpet ou na capa de uma revista. O que se julga não é o carácter, nem a pessoa: é a caricatura. A caricatura que todas nós somos destinadas a ser, face à pressão, não já dos meios, mas dos comentadores histéricos em que todos nos estamos a transformar. Que a Renée Zellweger se tenha transformado numa personagem qualquer da Anatomia de Grey é só uma metáfora, a nossa metáfora de um mundinho de merda onde todos perdem uma boa oportunidade para ficarem calados e não parecerem uns cretinos.

     



    Por Rititi @ 2014/10/27 | 3 comentários »

  • Juanna says:

    Já diz o meu sábio avô de 89 anos – antes de falar, pensa e se não tens nada simpático para dizer, cala-te.

  • JP says:

    é que estás cheia de razão e ler isto até a introspecção me obriga 🙂

  • rita says:

    Mai nada!
    E depois é ridículo: surge um assunto e vem a onda da crítica. Para não terminar logo o assunto, vem a onda da defesa. Ou o contrário. Ou seja, tudo demasiado previsível e desprovido de nexo. Apenas ondas.

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