Este site foi concebido para ser visto num browser dentro dos limites da caducidade: infelizmente não é o caso do seu. Assim, a sua experiência de navegação será seriamente afectada. Sugerimos a instalação de um browser mais séc. XXI, se lhe for possível: http://www.mozilla.com/firefox . Mas qualquer outro serve.

Rititi

Rititi

INÍCIO

  • Sobre o Feminismo

    Os Filhos são de Todos:

    “Maria Beatriz esforçou-se durante três semanas para marcar uma reunião com o sub-Secretário Adjunto do Ministério. Fez dezenas de telefonemas à secretária, escreveu e-mails tremendamente eloquentes onde explicava os pontos a tratar e a importância da reunião ao sujeito, soube que o tipo gostava de música clássica assim que lhe enviou as melhores entradas para o grande concerto do ano na Gulbenkian patrocinado pela sua empresa, fez mais telefonemas suplicantes à secretária, até que conseguiu a reunião para terça-feira às onze da manhã. Todo um êxito, fruto da persistência e da infinita paciência que a caracterizavam e que fez que o chefe da Maria Beatriz a elogiasse em frente a todos os seus colegas de secção. Um orgulho para a Maria Beatriz, trabalhadora exemplar, aplicada e responsável, que durante anos deu o calo na empresa para ser respeitada e promovida pelo seu esforço. Na terça-feira lá está ela no escritório, bem vestida com o melhor fato de calça e casaco que transmite a executiva eficiente que é, com os expedientes bem estudados para a importante reunião que tinha preparado durante várias noites, arranhando horas ao sono e sacrificando a harmonia familiar. E quando já está pronta para sair, de casaco vestido e discurso ensaiado, recebe um telefonema da escola do filho mais novo: o puto tem febre, delira, não pára de vomitar, por favor venha buscar a criança à escola que nós não damos conta do recado. Maria Beatriz nem acredita no que lhe está a acontecer. Liga ao marido, mas ele também tem um dia complicado e não pode sair do gabinete agora, adeus e um queijo da serra. Maria Beatriz, que não tem uma mãe nem uma sogra que a auxiliem, está a ver a vida a andar para trás. Telefona à empregada, que obviamente a manda dar uma volta ao bilhar grande, pois tem mais duas casas para fazer e não pode perder o ordenado livre de impostos do dia. Merda. Maria Beatriz recusa-se a faltar à reunião que tanto lhe custou conseguir e que tão importante é para a  empresa, para a sua carreira, para os seus objectivos, para o bónus de final do ano com o que pagaria as obras do quartos dos miúdos, e volta a telefonar ao marido, vá lá meu, não me lixes, caralho, eu depois vou para casa e trato do puto, levo-o ao médico, ajuda-me. Mas o marido tem um chefe novo, uma besta de trinta anos sem coração, que não parece emocionar-se com as vicissitudes de quem tem filhos e que lhe espeta um “então, a sua mulher, não pode resolver o problema?”, e Maria Beatriz faz o último malabarismo: procura na agenda o telefone da vizinha artista que trabalha em casa e pede-lhe o imenso favor de ir buscar o miúdo e jura-lhe que em duas horas estará em casa, suplica-lhe, promete que lhe arranjará o autoclismo ou um namorado de vinte anos, que cozinhará para ela durante um mês, o que ela quiser, com tal que vá buscar o miúdo à escola e a salve. Por sorte, a vizinha acede e lá vai a Maria Beatriz à reunião, não sem antes pedir autorização, desculpa e clemência ao chefe para depois ir para casa tratar do filho.

    A reunião foi um sucesso, ela seria a estrela da secção, a inveja das gajas do departamento de Contabilidade, o chefe iria promovê-la, finalmente iria mudar o quarto dos putos, mas em vez de estar orgulhosa pelo resultado obtido, Maria Beatriz não deixou por um minuto de se sentir culpada por não ter mandado o chefe, o trabalho e o sub-Secretário Adjunto do Ministério às urtigas e ter ido a correr socorrer o filho, levá-lo ao hospital, dar-lhe mimos e beijinhos e calor de mãe. E quando já está em casa com o computador ligado ao trabalho a responder a dezenas de mails e a atender os telefonemas fundamentais para a existência da Humanidade enquanto ouve a voz moribunda da criatura desde o sofá, Maria Beatriz não pode evitar pensar que esta coisa da conciliação, a igualdade dos géneros e o futuro brilhante das mulheres trabalhadoras que lhe prometeram é capaz de funcionar lá nos países nórdicos ou no Canadá onde as gajas dão de mamar até aos dez anos e há fraldários nas casas de banho dos homens, mas que no sul da Europa não passa de uma utopia que só existe no papel. Uma criança está doente e da escola ligam sempre à mãe, como se o puto tivesse nascido via inseminação artificial. O calendário escolar, com as suas férias da Páscoa, do Carnaval, do Natal, do Verão e da Festa do Unicórnio Transparente, perpetuam a ideia que as mães não têm mais nada que fazer que esperar os meninos à porta do colégio, ignorando que em casa trabalham todos e obrigando a malta a maquinar engenharias mais próprias de astrofísicos nucleares cada vez que alguém descobre um feriado inesperado a meio do mês de Março. A publicidade das fraldas, das papas, de biberons, da roupa infantil exibe imagens delirantes de meninos loiros e sorridentes e das suas adoráveis e não menos sorridentes mães, aparentemente as únicas responsáveis pelo bem-estar das criaturas. Os pais devem estar na bola, ou em reuniões na ONU ou a descobrir a cura do cancro. Ou seja, a gravidez não acaba no parto, estamos prenhas até os gajos saírem de casa. E no entanto, os horários de trabalho duram até o cair da noite, sem as empresas terem em conta que as escolas não são internados de onde as crianças saem já criadas com vinte e três anos e o curso acabado. Exigem-nos que nos esfolemos, que demos os nosso melhor, sempre até à última hora, como o mais esforçado anãozinho da mina, independentemente que tenhamos os putos doentes, que haja festa na escola, como se não tivéssemos filhos. Então, em que ficamos? Somos mães ou não?

    A pergunta não é esta. Não deveria. Enquanto exista só a maternidade e não a parentalidade, enquanto os filhos forem assunto só nosso, enquanto os chefes continuarem a perguntar “então, a sua mulher, não pode levar o miúdo ao médico?”, enquanto as escolas continuarem a fingir que nós temos que estar sempre disponíveis para três meses de férias, enquanto formos nós a quem se nos exige decidir se trabalhamos ou ficamos em casa, iremos sempre a reboque, exaustas, com a sensação que não chegamos, que falta sempre alguma coisa, com o peso na consciência de que deveríamos estar mais tempo com os filhos se nos dedicamos mais ao trabalho, ou então culpadas se não somos mais empenhadas na carreira, mais ambiciosas, derrotadas no final do dia porque não era assim que a coisa deviam ter saído. E isto não é justo. Nem para nós, nem para os filhos, nem para os pais das criaturas. E não chega já de nos martirizarmos como as protagonistas das telenovelas mexicanas? Porquê temos que suportar este peso, como se a culpa fosse nossa? E, sim, sempre haverá cadáveres no caminho. É uma questão só de pôr as coisas em perspectiva e de saber o que é importante. A carreira ou chegar a horas razoáveis para fazer os trabalhos de casa com os miúdos? E que tal o pai reduzir o horário de trabalho, que seja ela a pedir autorização para levar os putos ao médico? Não? Mudar às vezes é mais fácil do que parece, basta não esperar que que os grandes tratados do femininismo universal tratem da nossa vida.

    Maria Beatriz, no dia seguinte quando voltou ao trabalho, mesmo tendo tido uma reunião fabulosa, de ter conseguido um grande contrato para a empresa, de ter alcançado os objectivos propostos, foi repreendida pelo chefe. Não se deveria ter ido embora para casa. Estava a ser irresponsável. Todos na empresa tinham filhos e não por isso deixavam de estar comprometidos. Talvez não merecesse ser recompensada.  Só lhe faltou chamar-lhe cabra egoísta. Ouviu tudo. Respirou. Sorriu. E com um par de tomates telefonou para a empresa da concorrência e ofereceu os seus serviços, os seus contactos e um contrato milionário com o  Ministério. Tudo a troco de um horário laboral flexível que a deixasse ir buscar os filhos à escola sempre que estivessem doentes.”

    (publicado no meu “Manual de Instruções para Sobreviver  aos 40″, editado pela Cego Surdo e Mudo)

    E em dia quando tiver vagar (talvez no  autocarro ainda de noite quando vou trabalhar) escrevo sobre o Maria Capaz.



    Por Rititi @ 2014/12/21 | 5 comentários »

  • Sílvia Moreno says:

    Excelente texto, tão realista…

  • E este texto devia ser lido todas as noites, ao deitar. Aos meninos que um dias vão ser papás para se lembrarem que serão mais do que dadores de esperma, aos papás e às mamãs, para se lembrarem que convém fazerem alguma coisa para mudar os sistema. Excelente texto.

  • Ah, e às meninas para quando forem crescidinhas não tramarem a vida às outras meninas crescidas.

  • Ricardo says:

    O texto é bom sim senhor, e aborda um problema real.

    Mas o problema é mais grave do que aqui se faz querer. A questão não é simplista como aqui se escreve: não são só os homens que são machistas.

    Nas últimas 5 entrevistas de emprego foi sempre abordado o facto de eu ter três filhos. Isso não representou nenhum problema nas entrevistas conduzidas por homens (3 entrevistas). Nas entrevistas conduzidas por mulheres isso foi sempre um problema, todas se mostraram preocupadas com o facto de eu ter que dar apoio aos meus filhos e não estar totalmente disponível para a empresa.

  • rute says:

    Descobri hoje o seu blog. Li este texto e depois reli-o ao meu marido, fui às lagrimas de tanto rir!!! Já vi que tenho muito que explorar…

  • Leave a Reply to Sílvia Moreno Cancel reply

    Your email address will not be published. Required fields are marked *

    *

    You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>