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Rititi

Rititi

INÍCIO

  • Ser de Madrid

    A vida em Madrid não tem grandes mistérios. Uma pessoa trabalha, apanha autocarros, o metro, algum taxi quando chega tarde aos sitios. Tenho reuniões e aturo gente que só à estalada. Os putos vão ao colégio. Têm boas notas, amiguinhos, sabem as músicas todas, nota-se que são felizes. O Manel usa farda de rapaz crescido, tão bonito e cada dia mais loiro, e o Francisco um bibe que o faz parecer ainda mais bebé do que é. São os irmãos mais diferentes que conheço e os que mais adoração professam um pelo outro. Ao fim de semana convidamos os amigos para almoçar, cozinhamos bacalhau, sopas de cação, e os almoços transformam-se em lanche e o lanche em jantar. A maior parte das vezes acabamos a cantar, alguma vez alguém toca a guitarra. Acho que os meus vizinhos nos  odeiam, sobretudo os pais das gémeas que choram interrumpidamente desde o dia em que nasceram. Às vezes as crianças vão ao cinema, sobretudo para comer pipocas, e até ver filmes de alliens que invadem a terra porque são egoístas. Os meus filhos ainda são pequeninos para filmes de pensar, na minha casa somos mais de ver a Frozen que a Maléfica. E sim, eu sou uma grande imitadora da Elsa. Já o Francisco prefere o Olaf. O Manel faz de conta que não gosta, porque ele é mais do Cristiano e de fazer colecções de cromos da Liga espanhola. E eu estou farta do Bale, do Casillas e de falar sobre resultados da bola ao domingo. As casas alugam-se e desalugam-se e agora eu procuro uma nova casa. Com luz e cozinha gigante para meter toda aquela gente que vem almoçar e só sai depois de ter feito a digestão do jantar. E perto do Retiro. Não consigo viver longe do Retiro. As pessoas falam e queixam-se que Madrid não tem mar, nem vistas sobre o castelo e o Tejo. Mas tem um parque abundante de verde, imenso, um paraíso de sombras onde fazemos piqueniques, festas de anos, onde nos sentamos em esplanadas até ficar de noite, onde uma pessoa chega sozinha e encontra sempre alguém. Os meninos comem gelados, andam de bicicleta sozinhos, sobem às árvores, jogam à bola, às escondidas, eu deito-me na relva e leio a Hola e o Cuore. Às vezes tenho saudades de Lisboa, sim, e do cheiro a sardinhas e das ruas e os seus estendais. Mas não sei se quero voltar. Madrid, que não é uma cidade de grandes misterios, é generosa e um bocado aldeia. Sei que há muitos portugueses por cá, que se juntam e vão ao Frangus beber Super Bock e maldizer a qualidade do café espanhol. Mas eu não quero isso, já não. Gosto de me sentir de cá, fazer parte do trânsito e das frutarias do bairro, gosto de saber onde se vende o melhor pão e que papeladas tenho de entregar na Junta de Freguesia sem ir a um site de emigras. Já não me irrita que o céu esteja tão longe e que seja practicamente impossivel comer uma sopa numa tasca de bairro. Quero lá saber se as depiladoras são venezolanas ou se os filmes são dobrados. Sou de cá e irrita-me que se metam com a minha cidade. Ser de cá não é necessariamente ser de Madrid, porque ninguém é de Madrid, mesmo que o sejamos todos.

     



    Por Rititi @ 2015/03/31 | 9 comentários »


    Micro Machismos

    Lá estão outra vez as gajas com a mania da igualdade; no Dia da Mulher nós oferecemos flores às nossas clientes; mulher bonita gosta de receber piropos; eu não sou nada machista mas; e para quê quer uma gaja entrar num barbeiro; eu até ajudo a minha mulher lá em casa; as mulheres são as piores chefas; não há quem as ature com o período; quando são mães as mulheres deixam de se comprometer com a empresa; as gajas são umas cabras umas para as outras; se dependesse do meu marido a casa nunca estaria arrumada; eu já sei o que as feministas querem; é muito válida para o emprego mas está a pensar ter filhos; se não gostas de ouvir bocas não te vistas assim; o meu pai nunca mudou uma fralda; ai filha tem paciência, já sabes como são os homens; o tamanho não importa; foi promovida porque dormiu com o chefe; não é decoroso que as grávidas andem de biquíni; abortar é um acto de egoísmo; já viste o mal vestida que ia a Hillary Clinton; tu tens é falta de peso; filho meu nunca precisará de fazer uma cama; gosta tanto de mim que não suporta que fale com outros homens; os filhos são das mães; se queres parecer séria veste uma saia mais comprida; criticas o corpo das modelos porque és gorda; a maternidade completa a mulher; isso é conversa de gajas; elas são marronas, eles inteligentes; os homens não choram; é fufa porque não arranjou gajo; com esse feitio ainda ficas para tia; antes as mulheres eram mais felizes; há mulheres que fazem trabalhos de homens; a baixa maternal são férias; com o que ganha o marido não percebo para quê trabalha; elas nem ligam assim tanto ao sexo; quero um filho para lhe ensinar a jogar à bola; o feminismo já não é necessário.



    Por Rititi @ 2015/03/10 | 9 comentários »