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Rititi

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INÍCIO

  • OS TESTAMENTOS (Margaret Atwood)

    Quando li há 2 anos “O Conto da Serva” da Margaret Atwood fiquei tão impactada que escrevi alguma coisa do tipo “Um pesadelo real que já está a acontecer aqui ao lado sem que ninguém mexa um dedo (……)…milhões de mulheres escravizadas sexualmente, arrebatadas do nome, de identidade.” Comoveu-me pelo frágéis que nos retrata às mulheres, alvos fáceis do fanatismo religioso e a brutalidade masculina. Mas o livro é mais que um relato distópico sobre a desumanização da Mulher como sujeito: é um exercício de contenção (como um sussurro) de uma Offred escondida que suplica que o seu padecimento não fique em vão. Ouçam-me, parece dizer, salvem-me, vejam como estes Homens me arrebataram a filha, mataram o meu marido, e fizeram de mim um recipiente de fetos. Salvem as minhas amigas, as minha iguais, advogadas, médicas, professoras, editoras que foram transformadas em putas, em serviço doméstico, em previsíveis cadáveres.

    Depois veio a série da Hulu, passada na HBO, e conhecemos o interior desse regime supostamente teocrático e as vãs justificações para os raptos, assassinatos, mutilações, violações de milhares de mulheres perante a surpresa e alguma indignação da comunidade internacional. É tal a intensidade da série que algumas almas mais sensíveis queixaram-se da brutalidade das imagens, da violência supostamente exagerada que é exercida sobre as personagens femininas, como se milhões de mulheres no mundo não fossem brutalizadas todos os dias. Foi então que senti que a série já não era mais um relato distópico, tinha-se transformado numa possibilidade real. Em algo que pode acontecer-me agora. Olha para as servas, disse, as verdadeiras protagonistas, nós somos elas. Defende os teus direitos, luta, “eles” não nos darão descanso.

    Li na semana passada “Os Testamentos”, o novo da Margaret Atwood. Gilead já não é o passado sussurrante da Offred, já não é o presente brutal da série da HBO onde as servas são mutiladas para não falarem. Pelo menos ainda tinham a esperança da Resistência. É o futuro onde as vítimas reais são as filhas das servas raptadas, cujo destino é ser a mercadoria fértil para os homens corruptos. Não há mais esperança para estas crianças que o suicídio. Infantilizadas, analfabetas, ignorantes, as meninas de rosa perdem a infância à primeira menstruação, enquanto do outro lado da fronteira as únicas pessoas que as podem salvar são consideradas (e perseguidas) como terroristas. Mas os “Testamentos” são também uma confissão da culpa, o reconhecimento que esses homens fanáticos, esses violadores em nome de Deus, não poderiam ter exercido o seu poder sem a figura sinistra das “Tias”, os carrascos teológicos de Gilead. O exercício da propaganda e a justificação da perversão para ganhar uma ínfima parte de um poder supostamente masculino, isto são as Tias, uma espécie de freiras alucinadas por uma missão que elas sabem à partida sem sentido, e sobre as que a Atwood descarrega a sua melhor escrita. A responsabilidade das tiranias nunca são difusas, não há um “eles” genéricos, uns maus sem nome. “Eles” aqui também são “Elas”. Para exercer a violência não bastam as mutilações ou as violações, também é necessário tornar as vítimas em analfabetas. Porque as ditadura só são eficazes quando as vítimas ignoram que o são.



    Por Rititi @ 2019/09/24 | 1 Comentário »