Quarta-feira, Março 31, 2004

Querido Blogue,

Mrs. Ana Botella, carinhosamente Mrs. Ansar para o patrón Bush, acordou esta semana com uma missao santa para a Humanidade. Qual (Jo)Ana de Arc, a ex primeira dama da gaivota mais conservadora da Nova Europa olhou para o Mundo, mais exactamente para a Calle Montera e, respirando fundo, exclamou muito serenamente: Esto no pué ser! Acabou-se o putedo no centro de Madrid!
“Já agora”, refletiu a Anita enquanto tirava o seu magestático cú da sua ainda cama presidencial, “vou aproveitar esta cunha de Veradora de Empleo y Servicios Ciudadanos que me arranjou o meu amigo e alcalde Alberto Ruiz Gallardón”.
E é que a coitada, desde que o JoseMari perdeu o emprego, está farta de aturar o anao do marido a chorar pelos cantos da Moncloa e tem que se entreter com alguma coisita. Até vai publicar um book (“Mis ocho años en la Moncloa”), tal é o desespero desta mulher de meia idade e a três meses de ser avó. Só tristezas, mais ainda quando a sua linda e clónica filha está casada com um gigoló para piorar as coisas é empregado de um banco português!
E assim que segunda feira, a nossa heroína e mais duas dúzias de bófias e uma ongue de amigas finas do Bairro de Salamanca, lá foi à Calle Montera, convencer as meninas sin paleles que diariamente ali fodem por dois tustos, que mais vale ser pobre e honrada que puta e chulada por máfias e gajos maus, coisa que elas nao deviam saber quando trocaram a vida pacata de além mar pelo sonho europeo. Es que además de putas, tontas, con lo fácil que es denunciar a las madames y redes clandestinas.
A Montera agora ficou vazia, nao porque as putas se tenham redimido e bufado o nome dos cabroes que traficam com carne latino-america, eslava e nigeriana, que roubam passaportes e fazem chantagem com famílias longínquas e precárias. A Montera passou a ser mais uma arteria que une a Gran Via à minha casa, cheia de lojas com vestidos de noiva e primeira comunhao, cibercafés, um salao de bilhar, algumas casa de streep e clientes desorientados. As putas, essas, só se mudaram para um sitio onde Mrs. Botella nao lhes encha a cabeça com vazias promesas de reinserçao social e um sonho de normalidade.
Mas Anita está feliz, talvez o Papa a receba outra vez em audiência privada. Ou ganhe mais um cartao de sócia de honra da unicefe. Tudo por nao aturar o marido, o que faz a meia idade.



Ay, San Pancrácio, a ver si me inspiras questo está fatá, coñe!

Segunda-feira, Março 29, 2004

Querido Blogue,

"Se um gajo for agnóstico mas não praticar, em que é que se converte?”. É o que dá ter um marido que lê os clássicos russos por princípio moral, o coitado tem destas dúvidas filosóficas que nem respeitam o domingo nem nada. E é que para nós o domingo tem o mesmo valor que para os católicos, meio místico e respeitador do silêncio, só que sem missa, com os jornais da semana espalhados pelo chao e com menos perfil evangélico-procriador. E claro, quando o meu amor tem crises destas, a mim o coraçao fica-me como partido pela metade e só tenho uma opçao: ignorá-lo e continuar a ler a Hola. Porque quando me casei jurei muita coisa, mas aturar problemas vitais à frente dos ovos mexidos e do El País nao estava incluido no contrato. Nos dias de correm as esposas temos que ter os nossos deveres conjugais muito claros.
Porque a mim muito me custou estar onde estou, e nao penso abdicar dos meus direitos constitucionais, entre eles a leitura dessa grande Biblia da classe média, a Hola. Rainhas, desencontros, vestidos de noite, casaronas e archiduquesas milionárias, há uma fauna out there que me fascina e ainda me faz acreditar que os milagres existem.
Num mundo cheio de desgraças e gente pobre, que alegria ver a Letizia agarrada do braço da real sogra, que amigas e que sinceras! É o que acontece quando uma se casa com a aristocracia, que as coisas fluem naturalmente e nao como no meu caso concreto, que com a minha sogra a relaçao mais parece um orgasmo fingido.
Ah, a Letizia, de siricaia a rainha! Estou convencida que ela também era das que decorava a Hola na intimidade do lar, enquanto pintava as unhas dos pés e tratava dos calos jornalísticos. Entre borbulha esprimida e pelo arrancado sonhava que chegasse um principe que a tirasse da mediocridade do extra-radio madrileño. E de ter que trabalhar para comer, que continua a ser o grande fardo do mulherio com expectativas. Claro que com aquela ambicao toda, à Letizia nao lhe bastava um principe como os outros, metafórico e de classe média. Nem daqueles sem trono nem património, do género D. Duarte. Tinha de ficar com o real one, alto, rico e com coroa. La muy puta.
Mas que nao se leia aqui invejinha da porca, que estou muito bem com o que me tocou a mim na rifa dos solteiros. Pelo menos nao me perseguem os fotógrafos, o que de certa maneira também é injusto, que eu tenho muito jeito para acenar e mandar para fora um sorrizinho amarelo. Deve de ser da experiencia com a minha sogra.

Sexta-feira, Março 26, 2004

Querido Blogue,

Eu sabia! E a confirmá-lo eis os resultados da sondagem realizada ontem à noite à porta (mas por dentro, que estava muito frio na rua) de um dos bares mais fixes de Madrid.

- 100% das fufas inquiridas adoram o George Clooney e, se pudessem, iam para a cama com ele.
- 100% das fufas inquiridas acham que um belo par de mamocas pode ser um verdadeiro empecilho na hora do marmelanço. Apesar da divergência no numero das copas, o tamanho ideal parece ser o 80 para permitir uma boa aproximaçao na vertical.
- 100% das fufas inquiridas concordam que nao há nada pior que um casal de fufas com o período e em simultâneo.

(Universo - Pronto: as fufas inquiridas eram só duas e bem giras, simpáticas, arranjadas, com piada e já tinham sido hetero num passado nao muito longínquo)

É sempre bom confirmar a razao pela qual nao gosto de gajas, penso eu enquanto me imagino a partilhar tampaxes e ginecologista com o amor da minha vida. Ai, querida, hoje vamos jantar fora que andamos as duas muito hormonais e ainda há merda com o faqueiro de cozinha. Triste razao para aparecer no Telejornal das nove. Duas pinças, duas esfregonas, mau principio para uma relaçao estável, e nao há sincronia no supermercado e no ginásio que me valha.
Cá por mim, fico-me com os pelos no peito e na banheira, o atraso emocional inscrito no código genético, o orgulho que os impede perguntar quando estao perdidos no meio do nada, a bola e o amor a um clube que nunca ganha, os boxers espalhados estratégicamente pelo quarto quando aparecem as visitas, os arrotos e variaçoes aereas, a piuguice quando estao doentes, a ideia que visitar casas de putas faz parte de uma tradiçao secular e imutável, a convicçao que os rolos de papel higiénico aparecem sozinhos ao lado da sanita.
Ou como dizia aquela personagem almodovariana “Donde se ponga una buena polla, que se quiten tós los coños del mundo”. Claro que esta frase era dita por um travesti. Ninguem é perfeito

Quarta-feira, Março 24, 2004

Querido Blogue,

Frágil, esta noite estou tao frágil e assim que chego a casa deposito-me no sofá a lamentar-me. Nao sei muito bem de quê, mas concentro-me neste meu estado de espírito a atirar pró suicida e tento disfrutá-lo ao máximo. Ai eu, mas assim que me despisto começo a mexer nos pelos das pernas e distraio-me com a imagem da depiladora Claudia. Ora que grande merda, nem para depressiva sirvo. Trato logo do assunto e ponho a Mariza a cantar, tentando que o fado me mantenha com esta lágrima fácil que tanto bem me faz à pele, mas nao dá. Lembro-me logo que a areia da gata está para limpar há pelo menos três dias; se calhar é por isso que nao se cala.
Que Mundo malvado, que nem permite umas horinhas de espontânea auto-comiseraçao ao gajedo trabalhador.
E isso que há uma data de complexos, doenças e traumas a que uma gaja se pode agarrar numa hora destas. Édipo, Peter Pan, tensao menstrual que me inferniza antes, depois e durante, um rabo que balança (obrigada, meu amor, pela alembradura), o calo do pé esquerdo imune a todos os ácidos existentes no mercado farmaceutico, o stress pós-compras compulsivas, as adolescentes de mini saia que me recordam que eu estou quase nos trinta e elas nao.
Cá por mim que o que eu tenho é Complexo de Pandora, que nao deve existir mas que a mim fica-me a matar. Uma caixa que se abre com anuncios das fraldas multi-task e interactivas ou, mais recentemente, com a verificaçao que as minhas férias se resumem a trinta dias naturais que devem incluir três fins de semana que por lei se mantêm dentro de um esquema tridimensional e socio-equitativo. Tudo isto carimbado e validado num acordo de trabalho que pelos vistos assinei e nao me lembro.
Se isto nao é para arrancar as veias à dentanda entao que me internem.



(Maitena, no seu melhor)

Segunda-feira, Março 22, 2004

Querido Blogue,

Lisboa de ida e volta, bacalhau no Caracol, tardes de Tejo e gin tónico, encontros, croquete, bica e sumol de laranja, reencontros, ida e volta.

Adoravél emigraçao à lusitana, esta que nos faz usar lentes de melhoramento quando voltamos ao mesmo Portugal que nos desiludiu e envergonhou, e nao foi assim há tanto tempo atrás. Mas à porta do WIP pareço esquecer todas as decepçoes passadas e até começo a achar que os portugueses têm um ar mais inteligente que os espanhóis, mas se calhar o terceiro bisquinho da noite já me está a fazer efeito.
Ou entao nao é a bebida, mas sim a puta da cidade, Lisboa viciante e luminosa. O meu amor diz que sofre de Lisbonite Aguda e até combinamos um plano maléfico para nao ter que voltar nunca mais a Madrid.
Nem consigo reparar que Lisboa continua um estaleiro, que a única alteraçao estética está nos cartazes masturbatórios do Santana Lopes, que a bola é a treta do costume, que a percentagem de portugueses que vive no limiar da pobreza nao pára de crescer, que a verdadeira oposiçao ao PSD é o Pacheco Pereira, que Marokas está mais cheché que nunca mas ainda serve de guru aos esquerdalhos, que a classe média nao lê jornais ou que as críticas de cinema do Expresso sao tao ilegíveis como antes.
Lisboa nao deixa espaço para a lucidez nem para a boa conduçao. Dá-me por ficar nostálgica e obsessiva e até a vontade de dormir desaparece só de pensar que tenho de ler o Publico no Adamastor antes de ir almoçar com a malta para depois ir ter com a tia para logo ir à cinemateca antes de ir jantar com copos a seguir.

Merda para esta cidade, que nem fode nem sai de cima. Espero voltar um dia destes.

Quarta-feira, Março 17, 2004

Querido Blogue,

Acabou-se a papa doce que isto está a ficar muito seca. Já pareço um caralhinho a mandar bitaites sobre temas de politica internacional. E olha que eu nem tenho jeito, nem tempo, nem pachorra para isso.
Declaro aqui uma mudança de atitude, sobretudo quando no mundo se passam coisas tao horriveis como esta:

“DINAMARCA - 53 DETENIDOS
Una gran redada antidroga acaba con la 'Calle de los Camellos' del asentamiento hippy de Christiania.
Una operación policial con centenares de agentes de toda Dinamarca ha acabado con 'Pusher Street', la calle más famosa del asentamiento 'hippie' de Christiania, donde se vendían abiertamente derivados del cannabis, en una redada que acabó con 53 detenidos"

(El Mundo, 17 de Março de 2004)

Isto, senhores, é o que se pode chamar uma terrível calamidade, e nao a vitória do ZP, esse clone deslavado e chatarrao do Joker.
Privar os meus lindos amigos dinamarqueses (porque eu sou muito viajada e tenho amigos all over the world, pois sim) do seu charro digestivo é de uma falta de humanidade sem limites. Qual terrorismo islâmico qual carapuça.
Alguma coisa cheira mal no Reino da Dinamarca. Pivete que viajará a Sul nao tarda muito, quando um dia destes ao pedir a quinta caña da tarde madrilena me mandarem para um centro de alcoolicos anónimos especializado em gajas urbano-depressivas.
Daqui a nada, o mundo civilizado será transformado num gigantesco centro comercial, desintoxicado, assexuado e com cheiro a amoniaco, com banda sonora da soporífera Mafalda Veiga. Serao censuradas as mamocas e vestidos justos, e, amigos, para ver a bola estarao proibidas as imperiais e os tremoços. O pior será quando para ter categoria plenamente feminina nos obrigarem a visionar os infumáveis e estúpidos programas da Rita Ferro Rodrigues, a gaja mais seca, burra, vaidosa e feia do panomara televisivo lusitano (achavas que te escapavas, nao?).
Oh Brave New World, este do politicamente correcto, das quotas por géneros e do fumar mata. Que mundo deixaremos aos filhos dos outros, ó meu Deus?!
Se isto também nao é tirania, entao vou ali e já venho.

Terça-feira, Março 16, 2004

Querido Blogue,

Porque nao tenho palavras, uso as que Rosa Montero sabiamente escreveu no El Pais de hoje. Va por ustedes, ole morena.
La vida

"Creo sinceramente que este país ha recorrido un camino muy largo hacia la madurez política, la tolerancia, la civilidad. Creo que la inmensa mayoría está muy por encima de las manipulaciones electoralistas que todos los partidos han intentado hacer con la matanza y de las algaradas crispadas de unos pocos que han manchado (apenas una sombra) el sobrecogimiento y la unidad general de los dos días de reflexión y de elecciones. Creo que los ciudadanos saben que las bombas del 11-M son un agresión frontal a la democracia, a la convivencia, a la libertad, a todos esos valores tan dificultosamente logrados por la humanidad a costa de dolor y sangre durante muchos siglos. No nos confundamos: esto no es una respuesta a la participación de España en la guerra de Irak, sino un ataque esencial a lo que somos. No estuve a favor de la guerra porque me parecía que era desproporcionada, que marcaba un nefasto precedente de ilegalidad internacional, no servía para nada (no se puede combatir el terrorismo con guerras convencionales) y podía desestabilizar aún más la situación: y por desgracia las consecuencias del conflicto están confirmando todo esto. Pero me parece intelectual y moralmente inadmisible oponerse a la guerra para estar a bien con los asesinos. Es como lo del caso Carod: uno no puede amigarse con los monstruos sólo para que a ti no te revienten y cerrar los ojos mientras matan al vecino: a los franceses quizá, a los ingleses. ¿De verdad alguien piensa que no participar en la guerra nos hubiera salvado a larga de nada? Desde la masacre de las Torres Gemelas tengo muy claro que esos asesinos miserables son mis enemigos. Los enemigos del sistema en el que vivo y que, con todas sus contradicciones, considero mejor que ningún otro. Los enemigos de la solidaridad, de los derechos humanos. De esta plantita delicada y hermosa que es la convivencia respetuosa y libre. Reguemos esta planta con nuestras lágrimas y defendámosla con la fuerza de nuestros valores y nuestra calma: en este momento crucial hay que estar unidos. Acabaremos con ellos por medio de la cordura, de la legalidad, de la civilidad y la convivencia. La vida feliz y compasiva es siempre más fuerte que la muerte negra."


Segunda-feira, Março 15, 2004

"No tengo tiempo pá llorar las penas,
Ni pá cortarme las venas
Esta puede ser la última cena
Sobrevivo, poniendo mi grano de arena
Mi copa en el aire, mi alma llena”

(Mala Rodríguez in Alevosía)

Querido Blogue,

Poizé, nada como a sabidoria rapper e uma escapadela a terras extremeñas, depois do encharcanço da manifestaçao pacifista com mais de dois milhoes de gajos. Nao nasci eu para tanto ajuntamento popular. Deve ser da cagonice congénita.
O melhor, passar a jornada de reflexión no aconchego materno e na tranquilidade que oferece uma sopa de cachola alentejana. “Vuelve, a casa vuelve, vuelve al hogar”, penso eu qual anuncio natalício, com imagens de tempos antigos no retrovisor do meu 206. E nao penso mal, porque quando uma tem medo de levar com uma bomba nos cornos poe-se como mística e um bocado bimba, ai eu e o meu corpo sem celulite. Ai a nostalgia, esse mal das sociedades pós-modernas e solitárias.
E porque o meu destino é tao previsível como um filme de domingo na TVI, surpresa, surpresa, toca lá de reencontros com amizades mais que passadas. Despassarada andava eu, a pensar que tola que fui, eram tao fixes estas gajas e eu, chapéu, fui-me embora sem dizer adeus, sempre à procura de me encontrar numa nova identidade.
Quase acabei abraçada aos beijos, mas a lucidez de quatro gin tonicos e um desinteresse atroz fez-me ver a luz e a falta de cotidiano que alimenta a amizade. Valeu-me saber que no feminino nao há diferenças significativas em segredos amatórios. Mas quatro posiçoes nao chegam. Muito menos quando nao se practicam em conjunto, claro.
Se calhar foram os livros, os homens, os copos, os museos, a puta da vida e Lisboa, algum amor dramático e a falta de pachorra. Ou talvez porque em vez de Alejandro Sanz entretive os meus vinte anos com poesia transgresiva do punho de Extremoduro e da voz do magnífico Albert Pla:

“Tu mirada
envasada al vacío como una mermelada,
solamente necesito una tostá
que me encuentro por debajo de tus bragas
y si huele a quemao: soy yo

Adivina
¿cuanto tiempo hace que yo ya no follaba?
me abrazaste y se me puso dura,
yo ya empiezo a notar desbordarse:
los pantanos de toa Extremadura.”
(Extremoduro in Agila)

Assim nao há pequeno-burguesia para ninguem.

Quinta-feira, Março 11, 2004

Já me apeteceu mais ir para casa, esconder-me debaixo da manta e pôr-me a chorar em frente à televisao, a ver membros espalhados pela estaçao de Atocha.
Mas a morte nao será a alternativa.
Agora quero ir para Sol e manifestar-me. E chamar-lhes cabroes. Assessinos. A eles, à ETA, e nao a uma resistência árabe que serve de refúgio a essa esquerda que ainda acredita que os bebés vêm de Moscovo com um martelo debaixo do braço.
Vou-me embora e dizer-lhes que, está bem, que tenho um cagaço do caralho de andar de Metro. Mas vou continuar a faze-lo. É o que me faltava, gastar dinheiro em taxis. Que se fodam.
Sim, tenho medo de passear na Gran Via, mas cá estou eu, a parar-me em frente às montras e a escolher que vestido comprar para ficar mais bonita para o meu amor.
E como tenho medo de perder os meus amigos, vamos todos jantar fora no restaurante mais fashion de Madrid. Ficaremos grossos e iremos dançar. Amanha ressacaremos, mas por uma razao mais egoísta que a morte de mais de 180 pessoas.
Porque este atentado tambem era dirigido a mim. Por sorte hoje nao foi à porta da minha casa. Talvez amanha sim.
Por isso vou-me embora e continuar vivendo. A momento da morte talvez nao me corresponda a mim, mas sim posso decidir como levar a minha vida. E nao será com medo deles.

Madrid, 11 de Março.
A normalidade é tao assustadora que mata.
E a mim nao me apetece nada escrever.
PARA QUE?

Terça-feira, Março 09, 2004

Querido Blogue,

Ainda bem que ontem foi o Dia Internacional do Grelo, desculpa ideal para decorar as paredes da sala com saquinhos de evax com asas, porque ser gaja é de facto uma coisa muito comemorativa. Mais ainda quando se tem um clitóris claramente subjetivo, o que me leva constantemente a delírios vários, sejam eles políticos, existenciais ou amatórios.
Porque eu acho que devo andar muito reaccionária ultimamente, a raiz dos meus textos sobre o fufedo e os seus congéneres florais. “Um dia destes, ainda poes de rastos a comunidade africana” diz-me o meu amor, mas aí é que ele sem engana. Muito me custou aprender a dançar o funaná do B.Leza. E sou totalmente a favor da secçao masculina da dita comunidade. (Ben Harper, nao te vás embora).
O que me preocupava ontem, enquanto meditava sobre a condiçao de mulher trabalhadeira, era a minha falta de definiçao política. O que chateia horrores, porque eu sempre achei que era mais moderno ser de esquerda. Aquela coisa da liberdade, igualdade, amor ao próximo e o caneco fica sempre muito melhor com um vestido giro do que ser contra o aborto e a favor de um ministro panasca. Mas devo andar distraida dos neurórios e nada me convence a estas alturas do campeonato. Direita/Esquerda, que dilema nestes dias de mediocridade e fatos cinzentos com um bocado de brilho.
E é que a política também tem a sua estética, e porque ontem era dia para isso, dei por mim a pensar que se os políticos fossem mitos eróticos a escolha seria mais fácil. Imagino as audiências da TV Parlamento se em vez daquele auténtico nojo visual que é o Sousa Franco, tivessemos a um Brad Pitt a defender o Orçamento de Estado. Assim como assim, a classe política também já nao diz nada jeito. Venha daí a selecçao italiana de water polo e alegremo-nos por uns instantes. Digamos BASTA à tirania na pila caída.
Em vez de deputados, quero concursos de Mr Castelo Branco. E já agora que ganhem o meu voto com um table dance. E obrigatoriedade de jeans justos nas partes importantes (que, senhores, nao sao nem os olhos nem as maos, falando que estamos em mitos)
Se as gajas queremos igualdade, sejamos exigentes.

Domingo, Março 07, 2004

(Merda de teclado)

Querido Blogue,

“Näo te importe a raca nem a cor da pele,
Ama o outro como irmäo e faz o beeem…”

Ou entäo recomendo uma manhä bem passada na esquadra da Policia madrileña a tratar do “Permiso de Residencia”.
Na bicha de estrangeiros todos os estrangeiros somos iguais, atrás das grades de metal e sob a mira inquisidora das metralhadoras da policia estatal. “Mas eu comunitária!!!”, mas só se for da comunidade dos outros, que aqui vocês vêem todos ao mesmo, tirar o trabalho a honestos votantes de direita e engrossar as filas de espera nos hospitais, como nos recorda nos jornais a Presidenta da Comunidad de Madrid, a sempre genorosa e neo fascista Esperanza Aguirre (a mesma, que sendo Ministra da Cultura, elogiou os quadros da pintora de renome internacional “Sara Mago”).
Espanha está perdida, conclui a minha nova amiga venezolana, ao que o guineense da fila da direita responde que näo, que o problema está na burocracia e na desorganizacäo endémica deste povo apreciador de mortes em directo . A sueca de vestido verde nega-se a molhar o dedo para ser registada como uma criminosa qualquer “se me querem prender, que lhes custe trabalho procurar-me!! ” e vai-se embora cagando bem alto para a legalidade ou a falta dela. O casal peruano de metro e meio e tres criancas reprova esta actitude claramente protestante e marca logo uma ida ao padre da igreja do suburbio a cinquenta quilómetros de Madrid. Nada resolvido no fim desta odisseia, mas consolo-me com o meu mestrado em povoacöes mundiais e hábitos alimentares.
Com a minha ritice pegada este episiódio näo só me inspira para escrever como me leva directamente a enfrascar-me nessa noite de sexta no Bairro emigra de Lavapies, que pelo menos entre os meus novos amigos a igualdade está garantida.
Pena que me tenha metido do bar de fufas mais underground de Madrid e que toda a minha ideia de globalizacäo tenha ficado naquela esquadra da Rua General dos näo sei das quantas. Porque uma coisa é a cor da pele e outra bem diferente é o tamanho das mamas. E pelos vistos as minhas näo devem ser do agrado dos camionistas chamados Maria. Está claro que para a próxima tenho que ir primeiro ao Instituto Publico de Proteccäo à Lésbica para me näo me sentir täo descompensada neste ambiente de ódio concreto à gaja gira e depilada.
Mau para o ego, se nem as fufas olham para ti.

Quarta-feira, Março 03, 2004

Querido Blogue,

Existem razoes várias para uma gaja entrar em pânico. O período que nao aparece, encontrar uma ordinária com o mesmo vestido numa festarola toda bué, ter vontade de chorar a meio de uma reuniao, a visita da Mae.

Vivemos sozinhas há anos, ganhamos o nosso ordenadeco com suor e ressaca, temos gajo, impostos a pagar e gato para alimentar, plantas, CDs e muita piada, mas esse telefonema “Ó filha, vou aí prá semana” da-nos cabo do sistema todo. Esquecemos que o nosso homem nos adora, que temos amigos, vizinhos e um futuro incerto na carreira e que até sabemos cozinhar. Voltamos aos dez anos e à sensaçao que já fizemos merda, nao sabemos é porquê.

Estará a casa limpa? Estarei limpa? E o gajo, terá tomado banho? Esconde os chiribitís e as garrafas de bisque, limpa o pó, arruma os sapatos. Esse quadro nao fica bem na parede. Nao devia ter cortado o cabelo assim. Fodasse que nunca mais chega. Estou gira, meu amor? Ai.

PARA QUE ?? Esta necessidade de aprovaçao nao sendo normal, pelos vistos é universal, o que nao remedia mas conforta. Geraçoes de gajas temem as respectivas maes, adoram-nas e criticam-nas na intimidade do sonho e da casa de banho e, mais importante, cagam-se de medo só de pensar que algum dia serao como elas.

Porque, amigas, nao se iludam, nós seremos como elas. No melhor e quase pró pior. Engordaremos e envelheceremos da mesma forma, foderemos os cornos às nossas filhas ao telefone, impingiremos os nossos gostos até na disposiçao dos panos de cozinha. Criticaremos a escolha do namorado, do carro e das férias, a educaçao do cao e a dieta pró verao. Poizé.

E porque Mae há só uma, a minha e mais nenhuma, eu quero ter um bebé com pilinha. Um homem que me idolatre para toda a vida. Que me tenha como modelo feminino e que compare todas as futuras namoradas comigo. Que me diga que sim a tudo e que me prefira sempre a mim.

(Só por causas das tosses: NAO ESTOU PRENHA)