Domingo, Outubro 31, 2004

Querido Blogue,

Domingo conjugal, o lo que es lo mismo, Mr. and Mrs. Pinheiro marcam reunião amorosa no sofá amarelo debaixo do edredon rodeados de bolachas OREO e litros de Coca-Cola, que quando a ressaca ataca não há melhor remédio que os gases do xarope açucarado inventado com base na cocaína. Porque quando na cidade chove granizo assassino o mais sensato é ficar-me abraçadinha ao meu amor seguindo as sondagens das nada fraudulentas eleições americanas via televisão zapatera. Isso ou ver interessantes programas sobre a luta dos produtores de castanha autóctone contra os importadores da abóbora capitalista yanqui. Ao que chegámos para manter as nossas tradições ancestrais vivas, cagonlaleche.
Eu até entendo o desgosto dos puristas do Dia de Todos os Santos, o que até a mim me estranha, porque toda a gente sabe que prefiro uma bela noite nos copos a passar uma manhã no cemitério a limpar a campa de um ser querido, e isso que tenho vários enterrados. Deve ser por respeito aos meus mortos, ou por um selecto sentido do bom gosto mas sobretudo pela minha incapacidade total para entender donde coño está a graça de passar uma noite mascarada de bruxa pindérica e com um nariz de plástico atado à cabeça, que para nariz superlativo já me basta o que a minha herança judia me deu. Não se me leia aqui qualquer anti-americanismo primário, eu que amo sem limites ícones culturais dos States como Woody Allen, Os Sopranos, Paul Newman e a Levy’s. Os gajos não têm culpa nenhuma de terem sido educados no mito de Halloween, mistura explosiva de tradições celtas e muitas horas a mamar filmes merdosos de virgens mutiladas por psico-killers com falta de bofetadas maternas. Não, os americanos, por muito que lhes doa ouvir isto aos esquerdalhos com complexo de culpa cada vez que comem pipocas no cinema, os americanos, digo, não podem ser responsabilizados pela estupidez da nossa boa gente.
Queremos Carnaval? Bora importar em Janeiro umas mulatas brasileiras para sambarem debaixo de uma chuva demoníaca pelas ruas de Ovar semi-nuas. Super típico e super português. Páscoa na aldeia? Que simpática ideia pôr os putos a pintar ovos, tradição alemã que tem imenso a ver com o nosso costume de comer cabrito e folares.
E se importam como nosso o Halloween, olha que engraçado, esqueçamos o carácter trágico da festividade, que a vida já é muito triste se ainda por cima temos que nos lembrar dos que se foram embora e levar-lhes flores e rezar-lhes um bocado para ver se nos ajudam com o que está lá em cima. Porque se os ritos pagãos sempre impregnaram de futilidade e alegria a nossa religião tão dada a sentimentos de culpabilidade, então bem-vindas sejam as festas de abóboras e mortos vivos patrocinada pela Pepsi e com a banda sonora de um grupo hip-hop afroamericano machista num bar qualquer da cidade. Se me chamassem Jenny a festa estava completa.
O melhor mesmo é continuar escondida debaixo do edredon
agarradinha ao meu Pinheiro mais lindo que isto está difícil.


Quinta-feira, Outubro 28, 2004

RITITI EDUCA O POVÃO (#9)

... A Colecção de Outono que Karl Lagerfeld desenhou para a H&M...



... e que sai a 12 de Novembro!!!! Mas querem que eu dê comigo em maluca? Já não posso esperar mais!

Pelo sim, pelo não, dia 12 estou à porta da H&M de Gran Via, que a série é limitada e eu não quero ficar sem um vestido de chiffon criado pelo mesmo gajo que veste a Carolina de Mónaco.
Paneleirices, pró que me havia de dar a uma idade destas!




Um ano a Bloggar ou como dar os parabéns aos Frangos para fora, um dos melhores blogues colectivos da História.

Há uns meninos que andam há um ano e seis dias a mandar bujardas magníficas, a dar na cabeça dos maus da fita ou a levantar polémicas de uma profundidade inultrapassável (como o debate sobre o fio dental…).

E eu adoro os meus Frangos mais Lindos. Muito.

Parabéns, meninos queridos: Victor Lazlo, the Bird (e aos ausentes Aziz, Dude, Zarco também).

Eu cá vou a continuar a ser a vossa fã number uane!

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

Querida Inês,

Vais-te embora. Fazes bem. E eu fico como triste, sem moleskine que me anote coisas de "gente espertinha".

Pena para mim.

Pelo menos, promete continuar a ouvir Andreas Scholl, Haendel e o presente de Deus que é o "Ombra Mai Fù.




Até já.

Terça-feira, Outubro 26, 2004

Querido Blogue,

Pelas Espanhas da tortilla e pandereta a coisa vai torta da alminha. E não me estou só a referir ao Gran Hermano, programa-circo onde uma ex-gaja expulsa o que lhe resta das hormonas femininas entrando em brigas sangrentas com uma militar de tatuagem e ordinarice mental, enquanto a stripper argentina tenta, à pala de danças supostamente excitantes na casa de banho, que a contratem para um filme porno-erótico de produção latina. Uma dor de cabeça ver o Gran Hermano, tanta gritaria deixa uma mulher com os nervos empilhados qual pratos na cozinha e um estudante universitário.
Mas não, a coisa estende-se ao resto da vida pátria, com os políticos cá da terra a candidatarem-se ao Premio do Grunho do Ano. Quantos mais disparates, melhor a categoria. Se por um lado o sempre divertido Mr. Aznar compara em Georgetown a Reconquista da Península aos mouros com a actual guerra contra o terrorismo islâmico (vistas bem as coisas, ainda éramos capazes de situar o Bin Landen na arvore genealógica do Almansor, tás a ver), Zapatero-Man, o homem do diálogo, não se acanha, e acha que para pôr os maus da fita na ordem basta uma dose de paciência, beijocas nos beiços e dois charrinhos, e a coisa fica resolvida. Grandes visões da politica internacional, e todos os dias mais al-quaedos são presos por tentar dar uma reconstruçãozinha com quinhentos quilos de explosivos à Audiência Nacional, casa da Lei e do Juez Garzón, que de tanto bom-senso até parece que é ele o maluco. E para dar um bocadinho de sal à vidinha dos jornais descobriu-se que os grandes cozinheiros bascos, além de grandes pratos, também dedicaram os seus esforços a aumentar a fortuna da ETA, organização humanitária como caralho, pagando, sem deixar queimar as cogochas de merluza, o útil Imposto Revolucionário. Dá sempre jeito ter amigos em todo o lado, e enquanto uns dormem descansados outros esperam acordar com a família assassinada, ou o negócio rebentado, simplesmente por dizer BASTA YA, por ahí no paso.
Mas nada disto parece incomodar os líderes das massas, muito que andam entretidos em organizar a reunião dos Presidentes Autonómicos, concilio este que servirá para expelirem verbalmente verborreias antigas e ódios pós-democráticos. Uns reclamarão direitos supostamente históricos, outros selecções de hóquei em patins para ganhar aos cabrões dos imperialistas espanhóis, enquanto as regiões mais pobres tentarão que a coisa não vá a pior e os fundos da união para o caralho e para os cofres dos que choram e nada fazem.
Mas nada importa, nada chateia, o que agora está a dar é a suposta gravidez/aborto da Letizia, cada vez mais magra e cada vez mais bode expiatório de uma Espanha dividida por assuntos de segunda categoria, mas que distraem do que realmente lhe dói ao País: uma cambada de políticos energúmenos egoístas que preferem aparecer nas capas dos jornais a resolver a violência terrorista, os efeitos devastadores da imigração descontrolada, a morte de mulheres maltratadas durante décadas, e …
Bem, já estou eu a desvariar. Vou-me mas é embora beber uma caña com a minha Mãe que me veio visitar.


Sobre o Post anterior ou vamos lá ver se a gente se entende.

Uma Mulher tem o direito a não querer ser elogiada.
Uma Mulher tem todo o direito a mandar pró caralho os trolhas que berram desde o quinto andar as fodas que lhe davam se pudessem.
Uma Mulher não tem porquê estar agradecida cada vez que leva com os olhares porcos de uns pervertidos à porta do metro, ou com os comentários dos colegas, ou com as insinuações do chefe.

Aliás, o Homem não está na posse divina do piropo, nem da boca sobre as mamas, nem das piadolas machistas.

Que eu saiba a Mulher não é nenhuma vaca para andar a aguentar com brutalidades que cada vez que passa em frente de uma obra, e ainda por cima sorrir, porque é para isso que cá estamos, para servir de objecto e fantasia sexual a um grupo de brutamontes que se excitam só de imaginar o que há debaixo de umas cuecas.

Está claro, ou tenho que fazer um desenho, fodasse?

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Querido Blogue,

Nos últimos tempos tenho recebido uma barbaridade de e-mails, e eu, que adoro ler opiniões de terceiros, ando super feliz com a quantidade de literatura transmitida por banda larga. Bem é verdade que a maioria das mensagens que chegam à minha caixa de correio é lixo electrónico, correcções aos meus pontapés no português e vírus escondidos detrás de enganadores títulos como “Estou toda nua” ou “Fetiches”, coisa que está muito bem, mas está a rebentar com o disco rígido do computador, porque sou uma bisbilhoteira do caraças e não me controlo ante tanta insinuação internáutica.
Mas o emílio que mais me comoveu na semana passada foi o do um tal de Admirador, (no es cachondeo:
admirador@qualquercoisa.pt), que se me dirigiu com um seríssimo “Exmª. Senhora” para se despedir “com os melhores cumprimentos”. Até se me caíram as pestanas, que o Exmª Senhora dá-me um medo que te cagas, tú, porque os únicos que me tratam com tamanho respeito são os simpáticos do Departamento de Pessoal quando me notificam por carta que o meu ordenado vai ser encolhido por obra e graça de um novo escalão fiscal inventado à última da hora para que as contas do Estado não fiquem em tanga ao final do ano.

Pois bem, o Admirador pede-me sinceras desculpas por se ter referido no passado aos meus seios (mamocas para os amigos). Não me queria ofender, só não pôde evitar elogiar tanta beleza peitoral, símbolo de maternidade e vida. Que lhe perdoe a ofensa, leio meio chorosa e enaltecida, e os peitos a dizerem que sim, que estás desculpado, ó Admirador.
A questão, querido leitor, não está na referência da mama, que uma mulher já está mais que habituada a elogios de trolhas e seguranças de discotecas, mas há coisas que escusam ser ditas, que a gente já sabe. Dou-lhe até um exemplo de um caso que me sucedeu numa festa onde dei de bruços com o incrivelmente belo Thiago Lacerda. O meu primeiro impulso foi atirar-me aos pés do homem e jurar-lhe amor eterno, elogiar-lhe aquela dentadura imaculadamente branca e prometer-lhe fidelidade televisiva. Mas contive-me, que apesar perdida de estar bêbeda de uísque e paixão, ainda soube manter a compostura. Só me aproximei, pedi licença e confirmei a sua categoria profissional. Graças a São Pancrácio o gajo ainda estava mais concentrado em álcool que eu, pelo que a potencial conversa se transformou num patético monólogo, eu de cabeça para cima devido ao seu metro e noventa e ele de mão pegada ao meu braço, hipnotizado pela minha infinita bezana.
Imagine, caro Admirador, se todas as loucas pela infinita beleza do jovem Thiago lhe passassem o dia lembrar-lhe o seus bíceps perfeitos e os olhos daquele azul transparente. O coitado nem saía de casa. Aliás, ele já sabe que é o Adónis das telenovelas brasileiras, pelo que tanta alembradura só lhe levaria a que se operasse na fuça para ficar como o Woody Allen, e está a ver a hecatombe que seria para a Humanidade Feminina.
Por tanto, estimado leitor, para a próxima deixe ficar os seus elogios na gaveta, que eu não preciso que me recordem o tamanho do meu soutien, graças a Deus tenho espelhos em casa e roupa para vestir todos os dias.
E deixe de me tratar como à minha Avó, de Exmª e com tanta reverência, que até me assusto toda e não tenho idade para isso.


Quinta-feira, Outubro 21, 2004



RITITI EDUCA O POVÃO (#8)

O Amor tem destas coisas.




Mas a Vanity Fair também dá uma ajudinha à relação conjugal. Ultima pagina. Proust Questionnaire.

VF: What is your most market characteristic?
TW: My ability to discuss, in depth, a book I've never read.

Meu amor, agora entendo tudo. E sim, o homem é um genio.
Leva lá a puta da bicicleta.


Quarta-feira, Outubro 20, 2004

Desabafo a meio de uma semana de chuva interminável:

- Quando é que os cabrões dos espanhóis vão começar a vender SG Ventil?
- Tão difícil é beber um café decente na puta desta capital?
- Qual o sentido de dobrarem clássicos do cinema japonês para o castelhano? Aliás: para que serve a merda da dobragem?
- A quién coño le importa da vida da Isabel Pantoja?
- Como é possível que uma Comunidade Autónoma como Aragón mude de escudo e bandeira (com mais de quinhentos anos) por causa das queixas de um grupo muçulmano hiper sensível à História de uma nação?
- Quem paga os 6 milhoes de euros que custa o novo chalet da Infanta Cristina?
- Aonde é que se compram jornais portugueses em Madrid?

- Quando é que pára de chover, caralho?

(Vou-me suicidar com uma overdose de café sólo e volto já)

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

Querido Blogue,

Há gente para tudo. Eu perixemplo, sou super fã da leitura das necrologias nos jornais. É abrir o Diário de Noticias e ir directamente para as defunções: os teus filhos não te esquecem, recebeu os santos sacramentos, oramos pela sua alma. Mas isto sou eu, que não estou bem da tola desde que engoli os dentes todos quando tinha quatro anos ao pisar o capote alentejano. Podia ter ficado bem pior.
Já a minha amiga Maria tem outro tipo de gostos, porque é uma rapariga do mundo, muito viajada e com um sentido de humor divino. Ela gosta é da secção de relax dos jornais, ah pois. Não por nada, mas diz que a descontrai muito ler as ofertas de carácter sexual com convites de virgens universitárias depiladas, de mulatas de peitos turgentes, ou búlgaras inexperientes. A minha amiga diz que a relaxa muito, que a leitura destes anúncios até devia ser incluída nos cursos de escrita criativa, enfim, que se trata de um género menor e muito negligenciado por os autores da chamada literatura pop.

Por isso quando me telefonou na sexta-feira passada com o coração aos saltos e as páginas de luxúria na mão, não consegui deixar de me preocupar. A Maria descobriu que alguém tinha usado a secção de relax para se vingar de uma mulher, concreta e inocente. Pelos vistos, um ex-namorado cornudo não se importou de pagar uma pipa de massa para denegrir a coitada da Anabela, uma jovem cujo único pecado foi dormir com outro homem enquanto passava ferias em Ibiza para depois confessar o seu adultério, quem sabe se arrependida. Se calhar não. O cornudo não foi de modas e expôs a relação oral da moça com duzentos caracteres e os dois telefones de contacto; a saber: o do trabalho e o da casa dos pais dela. A coisa anda já em tribunais e o cabrão está feito ao bife. Cada um que carregue os seus os cornos com a maior dignidade possível, e quem não sabe que acabe os dias com um processo-crime no historial de vida.
Eu relembro à Maria aquela outra história de uma jovem vereadora de Mérida, solteira, independente e de bom ver, que recentemente se encontrou com as suas fotos de uma noite de sexo a três penduradas na internet e nas paredes da Câmara Municipal. A vereadora manteve a postura, o cargo e um bom par de tomates. Três filhos da puta já foram presos e como dizem por cá “se les va a caer el pelo”. Cada um carrega a sua inveja como lhe ensinaram.
Estes casos de vingança são tão estupidamente típicos que já cansam. Aliás, a ninguém lhe estranha a uma hora destas que o ataque pessoal à mulher passe pelo uso até à exaustão da palavra puta, emprego entretanto super bem pago para os dias que correm. Ora, ora, eu cá não gramo esta tipa: toca lá de espalhar fotos dela a fazer broches ao namorado pela capital da Extremadura espanhola. É suposto uma mulher vir-se abaixo pela exposição publica e cabrona das intimidades? Seria ultrajante para um homem este tipo de calunias? Duvido, que não há gajo que não goste de passar por machão entre as mamas de duas mulheres e de presente, ainda é publicado na net.
Numa sociedade machista e de moral castamente hipócrita como a nossa, para que este tipo de vexames se continue a dar significa que a visão perfeita da mulher ainda passa pela posse de virtudes como a castidade, a pureza mental e virgindade, mesmo que sejam mães de quinze filhos. Até quando teremos que carregar com o mito da Nossa Senhora? Talvez as últimas epistolas do simpático Ratzinger não ajudem à festa.
A cabronice não desaparecerá deste mundo, é claro, mas este tipo de vinganças têm castigo na lei. A vereadora não se acanhou nem se demitiu: simplesmente denunciou o caso aos tribunais competentes.
Agora os que se fodem são outros.

Sexta-feira, Outubro 15, 2004

RITITI EDUCA O POVAO

Ai, os felices anos 80. La movida, as drogas, as noites e os artistas totais. Ai, a inocência e a morte do Franco, que mistura explosiva para a cabeça dos adolescentes madrilenos.
Agora, a maioria estão casados e gordos, outros mortos nalguma repartição das finanças e no esquecimento das almofadas da burguesia.
Mas houve quem resistiu, melhor ou pior, à passagem dos anos: Loquillo, Sabina, El Rey del Pollo Frito.
Mas a heroína hoje é a Olvido Gara, Alaska para os amigos, primeira Chica Almodovar, rainha da infância na Bola de Cristal, diva da comunidade gay, DJ de luxo e dona do clube mais divertido de Madrid. E sempre incombustível e eterna.

A Quién Le Importa : Um hino

La gente me señala,
me apunta con el dedo,
susurra a mis espaldas,
y a mi me importa un bledo.
Que más me da,
si soy distinta a ellos,
no soy de nadie,
no tengo dueño.

Yo sé que me critican,
me consta que me odian,
la envidia les corroe,
mi vida les agobia.
Porque será?,
yo no tengo la culpa,
mi circunstancia les insulta.

Mi destino es el que yo decido,
el que yo elijo para míi.

A quién le importa lo que yo haga?
A quién le importa lo que yo diga?
Yo soy así, y así seguiré, nunca cambiaré.



Quarta-feira, Outubro 13, 2004

É de bem nascido ser agradecido, e eu cá não quero envergonhar ninguém lá em casa.

Por isso muchas gracias ao João, à Catarina e ao BA, por me avisarem tão prontamente.
E obrigada também ao Homem Casado pelo peazo de texto escrito contra os disparates da ordinarice. E ao meu querido Kalvin, uma beijoca e obrigada, tens razão, não vale a pena, como me dizem do Infinitrilhos também.
E que dizer do simpatiquíssimo e-mail do leitor Bernardo de Jacarta? Para ti, que estás tão longe de casa, um grande beijo. E gracias ao interessante mail de encorajamento contra a mediocridade do Joao do Atípico.
Também um grande bem haja para a solidariedade feminina enviada pela Sara, a Inês, a Cláudia, a , a Sissi, a Joana e a Sandra . Para a minha adorada Res, um abraço desde Madrid e a gente ve-se nas terras da Grande Alface.
E não, não me esqueço do Burro e o seu adorável post, nem das ameaças do Bilhas, nem da força do Ideafix em frente ao melhor gin tonic do mundo.
Nem da infinita paciência do JP, do JB de 15 anos ante tanto disparate nem do bom senso do Pre Datado.
E obrigada minhas queridas Charlotte e Vieira pelos conselhos de quem sabe muito da vida e da lei.
E queridos Monios, vocês são simplesmente do melhor que há nesta Península de ibéricos.
Ui... e ia-me esquecendo dos meus queridíssimos Frangos, que directamente apagaram logo os disparates!

E se me esqueci de alguém, oops, desculpem, e sim, os comentários voltarão, que isto tem é piada com as opiniões dos fantásticos leitores deste humilde blogue.

Beijinhos e ai ais, e agora toca de trabalhar, que não me pagam para isto!

Segunda-feira, Outubro 11, 2004


Querido Blogue,

Chove lá fora, estou tesa que nem um carapau e o Super-Homem morreu de um ataque cardíaco. Só me falta que me digam que o meu carro precisa de pneus novos para me atirar do Puente de Sogovia abaixo, vestida de Miu Miu, com o Palácio Real de fundo e a Lady Leti a acenar, que posso eu bem posso ser suicida mas o glamour ninguém mo tira. Esmagada mas penteada, eis uma regra a nunca esquecer.
Porque a mim dói-me que se me morram os mitos, mesmo que estejam tetraplégicos e com o caracol da testa caído, sou assim de sensível às recordações de infância em frente à televisão a preto e branco. Uma mulher tem os heróis incrustados na genética e com os anos eles vão-se embora, transmutam-se, ou simplesmente deixam de fumar, como o coitado do Lucky Luke, que agora prende os mauzãos de espiga na boca. Um desastre. Os censores esqueceram-se que nem os bonecos de BD podem contrair cancro de pulmão e nem as crianças fumam por causa de um francês que mata índios nas Américas longínquas. Contra a censura, fumar, fumar (Momento de pausa para ir comprar tabaco ao estaminé do lado. Inté.)
Já não sei que faça com esta minha decepção, super acentuada mais ainda com a recente leitura sobre o Cascão, que pelo bem da higiene dos meninos das favelas brasileiras, vai começar a tomar banho de espuma e esponja exfoliante. Um dia destes ainda vamos saber que a Mónica põe aparelho nos dentes e faz uma lipoaspiração para apaixonar o Cebolinha que entretanto esteve internado numa clínica logopeda para começar a falar com todos os erres. Se o Zé Carioca arranja trabalho então é aí que eu me converto em santanete, faço madeixas super loiras e dou um arranjo gravitacional às mamas.
O mundo está perdido e eu nem me encontro dentro destes valores pós modernos do politicamente correcto. As palavras que têm que ser medidas para não ofender as mentes pudicas e governamentais, vícios inalienáveis ao individuo que se põem de lado em nome da saúde dos outros que nunca saem de casa para não se infectarem, e a Vida que se encolhe ante tanta censura da alma. (Outro momento de pausa para ir procurar um isqueiro decente.)
Permite-se o freak show, o circo da morte em directo e a democracia da televisão do povo, a Joana que não aparece e o fio dental de um siliconado vestido de Gucci, mas a mama da Janet Jackson é pecaminosa e a matança do porco está censurada. O circo já não pertence só à família Cardinalli.
Vou fazer um café, fumar um cigarro e ver as corridas de touros na Feira do Pilar por televisão. Pode ser que entretanto se descubra que o Batman é politicamente gay e o Robin mulato.

Sexta-feira, Outubro 08, 2004

RITITI EDUCA O POVAO (#...)

Com a licença do senhor dos 7000 nomes

Hoje, Portugal, e pela voz de Jorge de Sousa Braga, n'O Poeta Nu. Uma maravilha.

E mais não digo.

PORTUGAL

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o
Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas

Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver
se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um
resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e
idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os
pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder
espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar
estava no poder nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra tenho amigos que
emigraram nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os
Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propôr-te um projecto eminentemente
nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que
Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca .



Quarta-feira, Outubro 06, 2004

Querido Blogue,

Pequeno-almoço na Puerta del Sol com o meu mendigo de estimação a quem lhe conto a minha tristeza hormonal por não ver a versão portuguesa da Quinta das Celebridades. Sim, porque nestas terras do touro ibérico já temos nuestra Finca, com direito a uma pneumática Miss Playboy, um magnifico exemplar masculino representado pelo Mister Venezuela, um travesti velho e decrépito (que não se convence da heterossexualidade do tal mister e atira-se a ele a torto e a direito entre o ordenhar da vaca e o despejar do balde na sanita), uma toreira reformada pelo machismo das praças e outra gentinha habitual no sempre estimulante mundo rosa do papel cuché. Ou seja, uma seca. Tudo bem comportado, simpatias absolutas e um nível intelectual que já gostaria eu de ver na TV Parlamento, tudo na quinta é obrigado, se faz favor, adoro-te, bla, bla, bla. O meu mendigo acha que com isto já me deveria chegar: não é por acaso que ele me tem em alta consideração física e cultural, porque a nossa relação vai mais além da esmola e do piropo diário. Somos o que se chamaria neste mundo cruel um casal tipicamente literário, se bem que com ele é impossível chegar a qualquer consenso quando se trata discutir a mais-valia dos autores contemporâneos. Ainda me lembro da nossa acalorada discussão sobre a relevância universal de Paul Auster, ele que sim, e eu que não, e a nossa relação pelas ruas da amargura durante quinze dias. Esmola nunca lhe faltou, mas aquela desafortunada comparação do escritor americano com a genialidade musical de Beck nunca mais lha perdoei.
Por todas estas contingências de carácter cultural o meu mendigo não alcança a entender a minha pena por perder, em directo e em português na televisão do povo, as aventuras das meias de vidro do meu adorado Zezito do Castelo e Branco, saltitando no meio da merda das vacas e a tomar banho de água fria, que para isso os programas-franchising são todos iguais e as quintas pré-fabricadas. Porque o meu mendigo não compreende que personagem celestial seja o Zé, nem porque estranha razão se terá casado com a querida da Betty, nem porque são alvo de chacota pelos tristes lá da minha terra. Nem vale a pena explicar o socialaite português ao meu mendigo, porque ele vive no mundo das ideias e das garrafas de vinho de pacote e se não dá importância às vinte grandezas da Duquesa de Feria, quanto mais às tristezas de quatro tesos que se vendem à Caras a troco de uma viagem às Maldivas.
A única famosa que o meu mendigo conhece, admira e quando crescer quer ser como ela, é a Tita Cervera, antes capa chungosa da Interviú e hoje viuvíssima baronesa Thyssen-Bornemisza, toma ya. De mãe solteira a Mecenas, de insultada por louca bêbeda a invejada por multi-milionária pela finíssima sangue azul com contas bancárias a negativo. A isto chamo eu subir na vida, dando razão ao amor do meu mendigo por esta mulher lutadora e sempre de cabeça bem alta. Mas afinal não é por nada disto que a adora, que enganada que estava. “La quiero porque se arregla ella misma el pelo, las uñas y se depila en casa”.

Ah, se é por isso, tudo bem. Está visto que com este meu mendigo é complicado chegar a um acordo.

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

De regresso ao cotidiano, ao blogue e à vida, ó que grata surpresa que uma mulher leva: o meu lindo nome anda a ser ultrajado pela blogosfera fora, estando o meu nique a ser espalhado pelas caixinhas de comentários alheias com simpáticas alusões às minhas capacidades sexuais, gostos de estranha categoria e demais alarvidades, que pela educação que me foi dada não chego nem a alcançar.
É que a inveja é uma má companheira de viagem e quando se esconde atrás do anonimato de um nique, de um blogue de merda ou do provincianismo da treta então está o caldo entornado. Pois é, como se não me chegasse ter que ler insultos gratuitos em pseudo chats onde a minha mãe é citada com uma insistência até perturbadora (serão orfaos? terão complexo da mama?), agora dou por mim a oferecer serviços a amigos de longa data, a divagar sobre o tamanho do pénis e das minhas mamas, tema que, por outra parte, tem entretido estes anormais que (outra vez) anonimamente se sentem entre constrangidos, assustados e terrivelmente excitados no conforto do quarto nos subúrbios da mediocridade.
Sim, suburbanos, mas mentais, palavra que assusta a esses disléxicos da cabeça, incapazes de ler detrás das palavras e para os quais o sentido de humor e a ironia são dons desconhecidos. Mas não vou estar aqui a explicar o inexplicável a um par de deficientes que não têm mais nada que fazer que tentar manchar o meu bom-nome. Sim porque eu tenho nome e cara e fotografia, coisa que a esses cobardes nem se atrevem a mostrar.
É mais fácil atacar às escondidas, pois é. E mais quando é uma Mulher a que dá a cara. Porque afinal trata-se de isso, a incapacidade destes imbecis de suportarem que uma Mulher se ria dos estereótipos lusitanos, do macho foleiro e da dondoca encalhada, dos problemas endémicos do nosso país e dos complexos genéticos. E se essa Mulher é gira, bem disposta e, ó horror, sobressai da média, então está fodida, porque esses medíocres atiram-se logo ao pescoço, pensando que com o insulto e a má-fé essa Mulher se vem abaixo e desiste. Porque para esses tristes da vida, uma Mulher que se atreve com tudo é, no mínimo, puta e merece ser ultrajada. Como usas sais, mereces ser violada. A mesma lógica e a mesma filha da putice de quem não tem coragem nem tomates para se mostrar com a cara descoberta.
Só que estao muito enganados. Nem o anonimato, nem mensagens de ex-colegas, nem emails de bloggers cuja vida não passa disso, do blogue e da sensação de pseudo-estrelato por serem lidos por cinco pessoazinhas, podem atacar quem já é imune à mediocridade, à tristeza mental e à ordinarice mais básica.
Pliz, dediquem-se a outra coisa, procurem um hobby ou uma, melhor: arranjem uma vida e metam-se nela.
Eu cá continuarei.

Cumprimentos,

Rita Barata Silvério.