Querido Blogue,
Domingo conjugal, o lo que es lo mismo, Mr. and Mrs. Pinheiro marcam reunião amorosa no sofá amarelo debaixo do edredon rodeados de bolachas OREO e litros de Coca-Cola, que quando a ressaca ataca não há melhor remédio que os gases do xarope açucarado inventado com base na cocaína. Porque quando na cidade chove granizo assassino o mais sensato é ficar-me abraçadinha ao meu amor seguindo as sondagens das nada fraudulentas eleições americanas via televisão zapatera. Isso ou ver interessantes programas sobre a luta dos produtores de castanha autóctone contra os importadores da abóbora capitalista yanqui. Ao que chegámos para manter as nossas tradições ancestrais vivas, cagonlaleche.
Eu até entendo o desgosto dos puristas do Dia de Todos os Santos, o que até a mim me estranha, porque toda a gente sabe que prefiro uma bela noite nos copos a passar uma manhã no cemitério a limpar a campa de um ser querido, e isso que tenho vários enterrados. Deve ser por respeito aos meus mortos, ou por um selecto sentido do bom gosto mas sobretudo pela minha incapacidade total para entender donde coño está a graça de passar uma noite mascarada de bruxa pindérica e com um nariz de plástico atado à cabeça, que para nariz superlativo já me basta o que a minha herança judia me deu. Não se me leia aqui qualquer anti-americanismo primário, eu que amo sem limites ícones culturais dos States como Woody Allen, Os Sopranos, Paul Newman e a Levy’s. Os gajos não têm culpa nenhuma de terem sido educados no mito de Halloween, mistura explosiva de tradições celtas e muitas horas a mamar filmes merdosos de virgens mutiladas por psico-killers com falta de bofetadas maternas. Não, os americanos, por muito que lhes doa ouvir isto aos esquerdalhos com complexo de culpa cada vez que comem pipocas no cinema, os americanos, digo, não podem ser responsabilizados pela estupidez da nossa boa gente.
Queremos Carnaval? Bora importar em Janeiro umas mulatas brasileiras para sambarem debaixo de uma chuva demoníaca pelas ruas de Ovar semi-nuas. Super típico e super português. Páscoa na aldeia? Que simpática ideia pôr os putos a pintar ovos, tradição alemã que tem imenso a ver com o nosso costume de comer cabrito e folares.
E se importam como nosso o Halloween, olha que engraçado, esqueçamos o carácter trágico da festividade, que a vida já é muito triste se ainda por cima temos que nos lembrar dos que se foram embora e levar-lhes flores e rezar-lhes um bocado para ver se nos ajudam com o que está lá em cima. Porque se os ritos pagãos sempre impregnaram de futilidade e alegria a nossa religião tão dada a sentimentos de culpabilidade, então bem-vindas sejam as festas de abóboras e mortos vivos patrocinada pela Pepsi e com a banda sonora de um grupo hip-hop afroamericano machista num bar qualquer da cidade. Se me chamassem Jenny a festa estava completa.
O melhor mesmo é continuar escondida debaixo do edredon agarradinha ao meu Pinheiro mais lindo que isto está difícil.

