Porque Mr. Pinheiro é algo mais que uma personagem da blogosfera, agradeço a Deus por o ter cruzado comigo naquela noite de Novembro. Uma maravilha e um prodígio, este loiro de voz perfeita.
"Olá Doutor
Houve alguém, um dia, que me disse que um Homem não é o que faz; comprei a sentença e até passei a notar que quando se pergunta a alguém pela profissão, a resposta, invariavelmente, começa por «Eu sou...».
As opiniões são como as verdades científicas - têm validade aprazada e mudá-las, com ponderação, quase sempre resulta num qualquer avanço. Digo eu, claro...
Nunca partilhei o "ideal" de que o trabalho liberta (aarghh!), mas descobri, nestes meses que vivi entre parêntesis, que a falta dele tolhe: um Homem não é o que faz; mas se não faz nada, há uma parte dele que vai mirrando devagarinho. Parece que a Vida, sem Obra, é mais pequena e baça.
E que, afinal, faz sentido e não é à toa que quando somos infantes queremos «ser» [quando formos grandes] médicos, polícias, astronautas ou, se já formos prosaicos, herdeiros.
Por pouco mais que diversão e curiosidade, espreitei há tempos as ofertas do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEPF). A febre de classificação das profissões é de tal ordem que seguramente terá saído de um colégio de imaginações borbulhantes de crianças traquinas.
Ele há designações radicais, que mais parecem feitas para James Bond do passado - SOLDADOR A ARCO EM ATMOSFERA DE GASES INERTES OU DE ANIDRIDO CARBÓNICO -, paredes-meias com outras, mais "bucólicas", como o fidelíssimo e poético FIEL DE ARMAZÉM.
Para os que sempre aspiraram a ter massa, ou pelo menos a mão nela, os estetas do IEPF fazem questão de propor meteóricas carreiras a OPERADORES DE BETONEIRA e a ESPALHADORES DE BETUMINOSOS; e não esquecem aqueles que gostam de trabalhar "por objectivos", como os SOLDADORES POR PONTOS, nem os que são mais finos e não exercem o seu mister com qualquer porcaria, como os CARPINTEIROS DE LIMPOS.
Há também lugar para os mais indecisos, que não vêem clara e precisamente a sua posição num futuro maizoumenos imediato, de que é exemplo o PADEIRO, EM GERAL. Parece-me, aliás, justo: por quê condenar alguém, logo nos primeiros anos de profissão, a laboriosos trabalhos com croissants em série para o resto da vida? Estes tipos têm olho, Doutor! «Vá, força! Agora és padeiro em geral; se te aplicares, podes especializar-te em mil-folhas - e em cada uma delas!» No capítulo das designações esotéricas, o imparável CONTÍNUO [que o eufemismo desdobra em AUXILIAR DE APOIO ADMINISTRATIVO] é o que mais interrogações me coloca. Haverá, à laia de concorrência, um INTERMITENTE? Se houver obras, correrão o risco de passarem a Descontínuos? Pintá-los-ão de amarelo?... Uma inquietação, Miguel, uma inquietação...
Aos que sempre gostaram de brincar com o fogo, ignorando olimpicamente avisos maternais de xixis certos na cama, o desafio assenta que nem uma luva de amianto - que o digam os MAÇARIQUEIROS e os FOGUEIROS DE CALDEIRAS A VAPOR, que forjam carreiras a altas temperaturas.
Há ainda os catitíssimos PORTA MIRAS (não confundir com porta-minas) e, na HOTELARIA, os MANDARETES - sempre enche o olho num business card e evita os rubores complexados de "moço de recados". Para o fim, deixei ficar duas profissões a que um dia, ainda neste Espaço e neste Tempo, aspiro ascender: o CORTADOR DE CARNES VERDES e o obscuro e semi-demoníaco MAGAREFE!
E o Doutor, o que quer ser quando for grande?
Avé!
alter-lego
PSOE - Há quem nasça com o rabo virado para a Lua; eu, salve-se a devida distância e profundeza da metáfora, terei nascido com a Lua no dito: após vários meses de intensa procura de trabalho - e quando o subsídio de desemprego estava prestes a terminar - recebi uma oferta para trabucar em Madrid. Ponto final à vida entre parêntesis, portanto.”
Mais maravilhas como esta, no que foi a melhor fábrica de escrita em português, o Pastilhas.



