Já não posso com os espanhóis, pá, vou mas é andando para Lisboa beber um gin atómico em Santa Catarina. E porra para os Príncipes das Asturias, as bodas gays, os apartamentos de trinta metros quadrados, o partido comunista das terras bascas, os fachos com bandeiras franquistas na Plaza de Colón, ZP, Marzinger Z, o PP e a federação de municipios, as viagens a Marrocos da Vice-one, os modernos, as chupalas, os betos, os surdos e os taxistas, o Fernando Alonso, Pau Gasol, os pontos do Barça, os romances de mister Espanha e o cancro da Rocio Durcal, a casa de tu vida y su puta madre! Me piro, vampiro.
Que pedaço de carne é este que me sobra em cima das calças, que se confunde com o cinto, esta abjecta bóia abdominal que me candidata a próximo boneco michelin? Quem autorizou a degradação deste meu corpo, assim sem aviso e logo após o cumpleaños feliz número trinta? Que espécie de conjuro fez que se me pendure do estômago um apêndice cabrão e malcriado que assusta quem me aperta a cintura procurando a graciosidade da mulher jovem e esbelta? Porque, meu Deus, porque? Quando se virou a página da minha história física, da eterna adolescência, a ideia da imortalidade sem caroços e banhas, a utopia de envelhecer com estilo, assim como a Isabel Presley, essa cabra com as peles no sítio, a quem não lhe bailam os braços, cuja barriga está para dentro, como que encolhida pela garantia das massagens. Aaaah, as massagens, pois é, que fácil a vida com massagens, esteticien, maquilhadoras, personaltreiner, uma picadinha aqui, outra acolá, daquelas que nem se notam, uma voltinha no cabeleireiro, ai que bem se vive, a Hola sempre em casa e os filhos criados, sustentados, amassados e bajulados. Pois é, Isabel, pois é, a existência dentro do conto de fadas fica bem a qualquer mulher. E a mim ficar-me-ia a matar, porque no fundo não nasci para me assustar cada quinze de Abril, ai, ai, que aconteceu durante o Inverno, quando me escondia debaixo dos casacos, cachecóis, pullovers, cuecas de gola alta, pijama e collants, ai, ai, quem me manda, quem, refugiar-me do frio nos bares, com o bem que estaria num ginásio, um dois, step e abdominais e flexões, um dois, salta, encolhe a barriga, corre e agacha-te outra vez, mais um esforço, não dá. Para mim não. Que terrível imagem, eu de fato de treino, as cuecas a meterem-se rabo adentro enquanto me mato por seguir o ritmo alucinante de um cabrão aos pulos vestido de totó, um dois, sua vaca gorda, queime essas gorduras, alcoólica, má pessoa, se comesse tofu, laite-fude, cenouras e laxantes não estava assim, um dois, e rodeada de anorécticas recauchutadas, um dois, já viste os meus ténes da naique, um dois. Caguei. Para mim quero a esteticien, a maquilhadora e o personaltreiner da Isabel, e da Camilla pretendo o mesmo cirurgião plástico, e das ricas em geral o seu dinheiro, porque a vida é mais fácil sem ter o cu espetado todo o dia numa cadeira, as costas fodidas e cada dia mais míope, como se trabalhar para comer, por puta de necessidade, fosse bom. E ao meu pedaço de carne, olha paciência, pá, tivesse bebido menos.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Livro??? E porque não uma enciclopédia, um atlas, um mapa mundi? Era isso, eu quero ser um mapa geográfico da Oceânia, com todos esses desertos, as ilhas perdidas e os seus atóis pequeninos e amorosos.
Já alguma vez ficaste apanhado por uma personagem de ficção?
Uhmmmm, não. Mas, já que estou, gostaria ser uma mulher amada pelos homens imaginados por Rubem Fonseca, por esses machos intrépidos e valentes ante o sexo feminino, tão poderosos, assim como ginastas de cama, amantes musculados e incansáveis. Se não pudesse, ó pá, então queria ser a dama misteriosa e dorida inventada por Dashiell Hammett que entra no escritório do detective em busca da solução ao matrimónio estropiado e que acaba por ser a má da fita por culpa da puta da vida.
Qual foi o último livro que compraste?
Saga y Fuga de JB, de Gonzalo Torrente Ballester. Claro que isto foi no verão, que eu sou uma vampira literária, sempre a sugar as aquisições do meu homem. Graças a Mr. Pinheiro, admito, sou o que sou. E mais nada.
Qual o último que leste?
Adivinha Vieirinha, somos gémeas: Jardins de Cimento, de Ian MacIwan. Depois da decepção de Amesterdão, vale a pena reencontrar a razão desta minha paixão física pelo homem.
Que livros estás a ler?
A Pastoral Americana, claro, do genial, soberbo e inteligentíssimo Philip Roth. Depois de me ter esquecido da Mancha Humana em Lisboa, ora porra, não tive mais cojones de continuar a saga – ao contrário – expiando assim a minha falta de memória.
Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
I don’t do desert islands at all! Qual é a graça? E se me visse obrigada a ver-me lá enfiada, no mínimo dos mínimos o que eu precisava era de televisão por cabo, bar em cima da praia, voos directos à civilização, massagens nas palmas dos pés, Mr. Pinheiro deitado ao meu lado, praias de águas cristalinas... Ah, que isto é um resort. Pois. Então é que não levo mesmo livros.
A que 3 pessoas vais passar este testemunho?
Estais fodidos: Raquel, sai lá da toca da Gardunha e põe-te a escrever. Rui, meu, eu sei que tu podes, pá. E Ideafix, achavas que me esquecia de ti?
NOVA VIDA E que importam os cravos, os livros, a memória dos tanques, a liberdade de Abril e grândola vila morena, o cinismo e as compras de Verão, que importa a ONU, as noites mal dormidas, os prémios da música e as contas por pagar, se nasceu a Violeta.
Querido Blogue, Mr. and Mrs. Pinheiro enroscam-se na cama, ai, meu amor, hoje não me levanto, ai que difícil é conjugar caipirinhas e um despertador implacável, está quente dentro do quarto e lá fora, ui, sabe Deus que tempo nos espera, chega-te para cá e dorme mais um bocado, que não temos idade para grandes esforços logo de madrugada. E telefona para o meu trabalho e diz que estou doente, que me atropelou um bando de turistas na Puerta del Sol, que me amputaram uma unha, que não e não, que o que eu quero é sentir-te aqui, debaixo dos lençóis e a gata que mia e mia e mia, será que tem comida, caguei, digo eu que não lhe faz mal passar fome um dia. E como é que viemos para casa ontem, nem me lembro de me deitar, devia ser do uísque que estava marado, pois sim e de teres bebido cinco de enfiada, ai, meu amor, que difícil é manter uma vida social decente com tantas obrigações laborais à mistura. E gostarás de mim daqui a trinta anos, meu amor, quando o meu corpo estiver flácido e a barriga se me juntar com as mamas, eu acho que ainda estás bêbeda, ouve, que desejo poderás ter por uma senhora com a pele feita num oito, sobretudo se continuares a fumar que nem um camionista, eu sei, hoje deixo de fumar. E de beber, e começarei a fazer desporto, vou já ver ginásios, e olha para o meu rabo, toca, toca, estou gorda, estás é parva, lembras-te de como era quando nos conhecemos, estás igual, cala-te e dorme. E vou fazer umas férias de cervejas, vinhos e copos, que isto não é vida, que esperteza agora que começa o verão e as terrazas e as noites na praça de Santa Ana é que vais deixar de sair, também tens razão, talvez não seja a altura mais apropriada. Ai, que fartura de Inverno, ai meu amor, o que é que visto hoje, não tenho roupa nenhuma de jeito, ainda a semana passada foste às compras, eu sei meu amor, mas essas saias não são para ir trabalhar, são bonitas demais, tu é que és bonita e tu mais, chega-te para cá, meu amor e telefona a dizer que hoje não trabalho, que tenho mimos e beijos para por em dia. Que bom poder preguiçar juntos, na ronha conjugal, enrosca-te a mim outra vez que te tenho que dizer uma coisa.
Quando eu for grande quero ser uma verdadeira democrata. Ser tolerante e amável com os povos do mundo, desfrutar na orgia das ideias partilhadas, enfim, ser um filha do 25 de Abril em particular e do meu tempo global e solidário em geral. Mas por enquanto não sou capaz, e não será com certeza pela falta de catequeses na infância dos meus dias, pelas horas de leitura dos evangelhos e demais livros de auto-ajuda similares. Se por mim fosse, amanhã mesmo tatuava-me os peitos com os ensinamentos dos mestres budistas e transformava-me na nova Penélope Cruz lusitana a destilar boa onda, fraternidade e compaixão pelos desgraçados do planeta. Mas não. Népias. Ni jartita uisqui dí, como te lo digo, tú. E neste mundinho esterilizado, sem vozes autónomas que se atrevam a dizer o que lhe vai na mona, em que o politicamente correcto comanda o pensamento único e a intenção de voto, nesta vida em que a opinião própria custa raspanetes, olha lá que não devias ter dito isso, ficou todo ofendidinho, ui, ui, vê se pedes desculpa pela tua boca grande, digo que não há cu para a estupidez geral dos anormalecos com o rabinho a precisar de uma bela de uma nalgada e uma vida para se meterem dentro dela. E muito menos que a esta altura do campeonato se tenha que aturar comichosos, você ofendeu o orgulho da minha família quando disse que os beirões eram totós, e claro a minha santa mãe, que deus a tenha, era de Gardunha, e isso doeu-me muito cá nos meus interiores e agora vou-lhe já mandar um e-mail a repudiar a sua graçola, denunciá-la à Procuradoria-Geral da República e difamar o seu bom-nome pelas paredes das fábricas do país. 25 de Abril, sempre, que a gente é tudo camaradas e iguais e claro, se me vejo reflectido numa crítica, numa ironia – que não entendo porque sou disléxico mental – chamo a comissão de trabalhadores para dar tareia na voz discordante. Já chega. Porque não tenho pachorra, oyes, nem capacidade intelectual e muito menos tempo útil para gastar com a exigência de compreensão por parte de sindicalistas do pensamento, virgens ofendidas e feministas histéricas, imbecis em geral cuja missão na terra é chamar a atenção à gralha ortográfica, à ofensa dramática de pensar como nos dá na gana, gentinhas sem amores e sexo para pôr em dia, complexados, comichosos e beatas. Não dá. Que fazer ante a gratuitidade da estupidez? Qual a opção lógica ante a imposição brutal do fundamentalismo neuronal a todo o custo? Será a herança do 25 de Abril ter que levar com a imbecilidade por decreto-lei, aceitá-la sem mais, amá-la como se fosse nossa filha? Quanto a mim, que me desculpem as regras da decência: fodei-vos!
Da (Nova) Série: OS MEUS AMIGOS SAO MELHORES QUE OS TEUS
Contra a suburbanidade mental, originalidade; contra a histeria do crédito habitação, aluguer no centro histórico; contra contas por pagar, gastar melhor; contra a azia existencial, amor, amor, amor.
E contra o frio, muita cor!
Da Monia, claro, a nossa representante dos fiordes nas terras da Grande Alface e artista de malas nos tempos livres. À venda no Sem Sim, em pleno centro do Bairro Alto.
Todos os países unidos em volta da música, jovens intérpretes sonhando com unir Europa numa orgia fraternal mais elevada e mística que os Jogos Sem Fronteiras, a esperança num mundo onde as línguas, raças e religiões não sejam um obstáculo.... Senhoras e Senhores bem-vindos ao Festival da Canção!!! Na na nanana naaaana nana nananananana nanaaaaa... Será que somos todos iguais ante a música? Será Europa esse jardim idílico onde as notas revivem o sonho da comunhão dos povos? Pues va a ser que no, oyes. Como em tudo, no Festival há clubes e grupelhos, bons e fatelas, os países que ganham sempre a honra do hit musical do verão e os tristes que nunca passam dos três pontos, envergonhando os seus concidadãos numa cerimónia onde os perdedores sentam-se em cima da bandeira nacional e escondem a cabecinha na decepção. Este ano, por causa das tosses, os chungosos comem à parte. Semi-finais que lhes chamaram e os menos maus passam à mega super chachi final europeia. E em que grupo está Portugal? Pois. E que jovens intrépidos defenderão a honra da nossa pátria via satélite? Que grande tema elevará o sentimento nacional aos píncaros da euforia da sardinha?
Portugal não desilude, grande certeza esta, e em vez de se ficar quietinho em casa a ver a telenovela, manda-se para a frente com um grupo de nome 2 B composto por pessoas chamadas Luciana, Kelly, Eliana, Susan ou Loredana. Se não fosse pelo Rui poderia ser uma representação de emigrantes do Nordeste brasileiro a residir em Alcochete e que alguém raptou por falta de candidatos.
Mas quem são estes desgraçados???
Para piorar o aspecto centro comercial em saldos dos nossos cantores, nada como uma musiquinha imaginada pelo menos por uma criança de seis anos inscrita num colégio bilingue. Que bonito título – AMAR -, original e sempre alegre, pois não. E que letra, ó meu Deus, que inspiração à hora de redigi-la, que ritmo alucinante e que bela de uma merda que mais uma vez apresentamos aos nossos congéneres europeus. Portugal, para não variar, sempre à cabeça dos pirosos. Somos insuperáveis, autênticos mestres na arte de passar por anormais profundos e financiados pelos dinheiros públicos.
Europa. Para todos vós, o tema AMAR. Performer: 2B. Letra e Música: Alexandre Honrado, Ernesto Leite e José da Ponte.
"AMAR"
O céu às vezes foge Procura outro lugar Onde o sol não cabe E a lua não quer ficar
De mar em mar, hey! Ver e vencer, hey Amar, amar, sempre, sempre anyway, De mar em mar, hey! Ver e vencer, hey Amar, amar, always day by day. Só quem não quer amar Olha sem ver
Happy pretty way Happy shiny day Happy place to stay We can hold it together Happy pretty way ref. Happy shiny day Happy place to stay We can hold it forever
Pretty people shining A pretty place to stay Brand new kind of face I love u anyway
Trinta anos, uma gata e um marido, eis as minhas posses. Pouco para exibir nesta vida de urbanizações com piscina nos subúrbios das capitais da Europa de classe média e intenções de voto esquematizadas conforme as conversas nos jantares com casais amigos. A normalidade exige um não tenho opinião formada, não me sobra tempo para ler ou ir ao cinema, eu que acordo às seis e meia para chegar ao trabalho às dez, o trânsito está impossível mas eu não prescindo do meu monovolume novinho em folha, metalizado e que me faz sentir tão poderoso e confortável. E depois tenho que ir buscar as crianças ao colégio, privado e com fardinha, porque não quero que se me criem os filhos publicamente e rodeados de pobres, emigrantes e desdentados. E à noite, passar a ferro, arrumar a casa, preparar o jantar, fazer máquinas e cozer bainhas, porque o preço da casinha com piscina, jardim e cara de novo-rico não me deixa com que pagar uma empregada que me alivie a miséria das minhas noites. Que se me note o dinheiro fora de casa, que os vizinhos vejam que a vida me vai bem pelos anéis que levo no dedo, pelas férias de pulseira e tudo incluído nas Caraíbas, na roupa de marca que usa o meu marido, na conta do restaurante indiano do Colombo, nas malas LV e no telemóvel ultima geração, pelo Carnaval passado na neve e na feira da Golegã. E o que penso devo-o ao Professor Marcelo, ao Pacheco Pereira e ao Nuno Rogeiro e se o Sócrates já está a fazer merda é porque o ouvi no Fórum da TSF. Muitas letras, demasiadas referências nos livros que recomendam os que formatam a mente do povo, eu que tenho a cabeça cansada do meu emprego de escritório que me enxovalha a pele e amolece o rabo. Mas vive-se bem no anonimato do subúrbio em que me enfiei, esforçando-me com ter em vez de ser - a mulher de César, já se sabe - , para que me reconheçam pelas marcas exteriores desta riqueza a crédito. Porque eu sou normal, assepticamente normal, banal, uma conta-ordenado, um número de cartão do Corte Inglês, um tiket no parque de estacionamento, uma ficha no ginásio, um recibo da luz. E não um paneleiro, um desviado, uma puta, um emigrante, um militante ecologista, um poeta, um deserdado, uma mãe solteira, um africano, um livre-pensador, um químico quântico, uma feminista, um activista, uma pessoa independentemente do que regem as normas da normalidade.
All About Eve, ou o melhor retrato cinematográfico do género feminino.
Com mais sombras que luzes, com mais medos que coragem, com mais raiva, complexos e invejas que cenas heróicas. Porque ser mulher não é só ter filhos lindos, estar sempre bonita e andar orgulhosa do penso higiénico, como se envelhecer não assustasse, como se a ideia de perder o homem não tirasse o sono. E eu sempre preferi a mulher sincera dos seus traumas, com calos de amor e ataques de histerismo, a um engendro perfeito das nove às cinco, sem passado e o jantar na mesa.
Morto o Papa, cagam-se sentenças na imprensa, em blogs ditos sérios ou desde as presidências de governos civilizados. Todos acham, não há quem queira perder a oportunidade de opinar num momento destes. A direita fustiga-se numa dor orgiástica e beata enquanto a esquerda invoca preservativos, supostas perseguições e afastamento do mundo real na tentativa de enxovalhar um cadáver humano. Mas alguém sabe alguma coisa? Poucos. Preocuparam-se os esquerdalhos em descobrir as verdadeiras ligações de João Paulo II com o Opus Dei? Eles que tanto berram alguma vez tentaram averiguar a razão pela qual este Papa se opunha tanto à Teologia da Libertação? Quando proclamam ao mundo o seu desprezo pela Cúria Romana entendem como funcionam os dinheiros no Vaticano? Que direito têm os que mandam bujardas sobre o pensamento deste homem se nunca leram uma das suas encíclicas? Quando pedem um Papa negro sabem realmente do que estão a falar? Qual é o motivo para assistirem quase todos os chefes de governo e de estado do mundo ao enterro de um homem que não foi nem quis ser santo? Para combater a desinformação mental, eis um único conselho google it!
Senta-te bem, descruza as pernas na igreja, não dês nas vistas, fala baixo, que a tua sogra não se ofenda, não sejas exuberante, veste uma saia mais comprida, comporta-te como a senhora séria que és, pensa em ter filhos, vários e educados, prepara o ninho e o jantar, compra bonitas cortinas para a casa de campo, cumprimenta a vizinhança, aprende da vida dos outros, costura e borda as mantinhas dos bebés das primas, que não se te note as noites de sexo, faz madeixas como a gente fina, reza pela saúde dos que não conheces, não incomodes a moral pública, agradece ao senhor e ao banco a carrinha que a família tem, e sobretudo, não digas palavrões. Abomina as obscenidades, não praguejes, usa substitutos abichanados e autorizados pelas amiguinhas do ginásio, que não te apontem com o dedo por debochada e livre pensadora, que o caralho seja mudado pelo canário, que merda seja palavra de pobres e malcriados. Porque as Brigadas Bem Pensantes não descansam, porque não importa quanto trabalhes, quanto pagues de impostos, que títulos universitários ocupem as paredes do escritório, quantas noites tenhas passado a fazer contas à vida e ao amor que nunca mais chega. O que importa é o que dirão os outros, os que esperam como parasitas a profanação linguística e moral para te expulsarem dos círculos das mulheres de bem, das senhoras que nunca se despenteiam, das verdadeiras damas que os sem pecado pretendem ter sentadas à mesa num jantar de casais amigos. E já que estás, pede autorização para emitires publicamente um pensamento que creias genuíno, para que aqueles que não adormecem sem terem desmascarado mais uma tarada possam publicitar o teu nome no mundo higiénico em que vivem. Pede desculpas sempre, por existir, por ser diferente, porque no fundo do que tu gostavas, mulher da rua, rameira vinda a mais, era ser como as senhoras de verdade, comedida e discreta, sem período e dores da vida, a esposa de um chefe de secção, sem passado e virgem à altura do matrimónio e potencial viúva de missa diária. Afinal, que importa que a mulher possa votar e encomendar comida chinesa, pagar prostitutos e vibradores vaginais, de que serviram as manifestações sufragistas e os abortos clandestinos, se o papel social, o que ainda nos impõem as pudicas normas do condomínio mental em que vivemos, está fixado desde que Maria engravidou sem penetração. A santidade não vem pelas obras feitas ou o amor ao próximo, mas sim pela falta de fodas bem dadas.
Via Rosalía de mi corazón, a espanhola y olé mais gira de Londres, que apesar de exilada tem o telemóvel sempre aceso:
"Concentración en la catedral de la Almudena a partir de las 12 de esta noche para exigir a Dios que resucite al Papa y poder ver algo en la tele. Pásalo"
"Ahora tu decides quien se va. Envia salvar Rainiero o salvar Juan Pablo al 5555 coste del sms 0,9 + iva"
Caduco e finito, o Homem eterniza-se em telas pintadas, letras impressas, projectos que não levam a nada, filhos, árvores plantadas, conversas numa mesa cheia de copos vazios, encíclicas, algumas guerras, fotos e mais fotos que alguém descobrirá numa gaveta, blogues, acidentes de carro. E este homem agoniza hoje. Acabará como todos os antecessores, morto e enterrado, recordado numa enciclopédia e em tratados teológicos. Ter passado vinte e sete anos sentado na cadeira de Pedro não o fez imortal. No nosso mundo higiénico, mais próximo de Huxley que dos subúrbios reais, os últimos anos do Papa indignaram os aduladores da eterna juventude, enojados pelo corpo decrépito de um homem que se negou a esconder a sua cruz: uma velhice honesta, sem vergonha do Parkinson ou dos tiros que levou. Não é um santo, mas com certeza não merece o desrespeito e a ordinarice das vozes dos que vomitam ante a visão da morte próxima, sem retoques. Na morte não cabem o botox e os efeitos mágicos do retoque digital. Ser velho não é culpa de ninguém, a não ser do tempo que passa por nós. Mas não está a nossa vida de pressas e horas de espera da bicha para Massamá para aturar quase-mortos, anciões e velhadas, lentos que ocupam os lugares no metro e nos centros de saúde, avós caquécticos e doentes, que cheiram a mijo e repetem sempre a mesma história. Os antigos que morram rápido ou que se escondam em lares da terceira idade, longe da vista de quem não ama mais que o presente do reality-show que se tornou a existência moderna. Não sei se chegarei a velha. Duvido, com a quantidade e substâncias ilícitas e cancerosas que meto nas veias desde que me levanto. Espero que não doa demasiado o apodrecimento do meu corpo, que não me cause demasiada tristeza a queda dos meus peitos. Que me ajude a memória dos bons anos a aturar a falta dela, que não me se me escape a lucidez e não dependa de uma máquina para mijar ou comer. Espero que me acompanhe o meu homem nas idas ao cardiologista e que me possa segurar na sua bengala quando estiver cansada de andar no parque. Não sei se me esperam netos pois não escolho ter filhos neste momento que vivo, mas não me vergarei à tirania dos adolescentes de quarenta anos. Ao homem Karol Wojtyla desejo-lhe boa viagem no fim desta época que lhe tocou viver. De João Paulo II, que reze a história por ele.