Falar de gajas (I)
Sobre que assuntos falam as mulheres na blogosfera?
Olha, porra, falam do que lhes apetece. Eu, perixemplo, era gaja para hoje falar sobre o falhanço da cidadania no meu país de autarcas corruptos, arrogantes e mal-formados. Mas é segunda feira, pá, finalmente chove, e eu ainda não tirei a roupa de inverno da mala. Conjugar uma saia rosa pau de seda com meias de vidro, não dá. E os sapatos de verão, como mandá-los ao desterro invernal só por causa de umas gotas que caem sobre a cidade? Não cabem as autárquicas na minha cabeça, mais ainda quando a falta de água está a preocupar os meus colegas que vivem em condomínios privados com garagens privadas, jardins privados e piscinas privadas que nunca mais se vão poder encher por culpa da falta de chuva e a seca na península.
Também era senhora para me sentar à frente do computador e vomitar um texto intimista e pessoal, daqueles que toda a gente acha que as mulheres sabem escrever melhor que os gajos pelo poder da mama e da ovulação, como se ter ovários nos elevasse à categoria de poetas em potência. Acontece que para intimidades não está o meu grelo hoje, ainda espantado com o exagero da conta da perfumaria Iglesias em Espinho. Vinte e cinco contos – sou uma clássica – em base, sombra de olhos e corrector não é normal, mas claro, é tremendamente fácil ser enganada quando uma estranha me aponta para os poros com uma unha inquisitiva e perfeitamente pintada. Os complexos acneicos saem à luz de repente, volto aos quinze anos e à aceitação pueril do primeiro dia de escola e de nada me vale saber que nunca mais voltarei a encontrar essa unha na puta da minha vida. Deve ser isso a que chamam regressão, mas eu cá acho que é uma cabronada suplicar a benção social da menina da perfumaria à base de tarjetazo limpo. Putada, tú.
E depois, se tivesse pachorra, alegrava o dia aos meus leitores masculinos com uma crónica daquelas que todos os homens procuram nas entrelinhas dos blogues femininos, esse inconfessável que não ouvem da mulher, da amiga ou da amante. Mas esse já é outro tema e eu hoje tenho que me arranjar para ir beber uns copos e fumar uns unzinhos em Chueca para amanhã andar a morrer de ressaca. Porque é preciso tempo para dar a entender que a Rititi é uma mulher moderna, desinibida, daquelas que dizem o que querem e, se se apurar muito a vista, até é capaz de estar a escrever que um dia no passado comeu uma gaja enquanto descreve o preço das alfaces no mercado de San Miguel.
De que falam as gajas? Das obras do IP5, das contas do Estado, dos filhos, da sogra, do Benfica, da namorada, da dor de corno, do jantar com os amigos, da Nossa Senhora de Fátima, do Louçã, do desenvolvimento sustentável, do campo de refugiados do Sudão, da Madonna, da televisão. Falam do que lhes sai del mismíssimo coño. Algumas sabem fazê-lo e outras não. Essa é única diferença, como em tudo na vida.
PS: Com muita pena, e apesar de ter sido convidada para dar um ar desta minha graça rosa-cueca e partilhar com o mundo as minhas teorias sobre o grelame, não vou poder assistir. Viver em Madrid também tem o seu lado negativo, sobretudo quando se tem que contribuir pró PIB zapatero no dia seguinte.
PS 2: Estou cheia de inveja cabrona. Deve ser porque sou gaja.