MOZART RELOADED
(crónica publicada no DNa a 9 de Setembro de 2005)
Os fiéis seguidores da obra de Mozart, e mais concretamente da Flauta Mágica, guardam na imaginação a figura da Rainha da Noite como o Ser Supremo da música clássica, uma espécie de má da fita vestida de John Galliano, capaz de ordenar à filha Pamina que cometa um assassinato enquanto recita uma das mais alucinantes e belas árias escritas na história da música. A Rainha da Noite deveria ser sempre apresentada como a Madrasta da Gata Borralheira com o corpo - e sobretudo com os estilistas - da Nicole Kidman. Ou pelo menos assim pensava eu antes de viajar ao Festival de Salzburgo, conhecido internacionalmente pelas suas modernas e inovadoras encenações de óperas sublimes como o Rapto do Serralho, cuja acção um encenador sueco situou há dois anos numa cozinha. Diz quem viu a representação que a história mais se parecia a um anúncio de electrodomésticos nórdicos que um conto de amor e perdão.
Mito urbano? Exagero de puristas sem mais nada que fazer que coleccionar discos e perseguir durante o Verão cantores gordos por esses festivais da nossa Europa? Já se sabe como são os melómanos, gente demasiado obcecada com a variação da nota e a interpretação de um dueto amoroso. Mas após ter passado quatro dias de estágio musical, convidada pela minha tia a assistir a três óperas e um concerto às onze da manhã, mais não pude que confirmar que neste festival o menos que se pode esperar é que os cantores apareçam nus e pendurados de um guindaste. E tudo isto num ambiente de festa elegante, com o ar carregado de perfume caro e mais ouro por metro quadrado que no toque do Rei Midas. Para uma iniciada como eu, o festival aproxima-se a uma bizarra feira das vaidades sonorizada pela mais perfeita banda sonora do mundo - representada, isso sim, como ao director artístico lhe der na real gana, sem que importe a história, as características das personagens ou o que Mozart quis contar há dois séculos e meio.
As senhoras com mais «pedigree» da zona vão à opera mascaradas de Julie Andrews na Música no Coração, apetrechadas de avental com laçarote, camisa de folhos e saia rodada, mas com a diferença que os tecidos são de seda; em vez de jarras de cerveja carregam diamantes; e não precisam de escapar aos nazis pelos Alpes como a Maria Von Trapp e aquela cambada de putos cantores. E os maridos dessas senhoras, quando não calçam meias até ao joelho, usam «smokings» impecáveis e que, graças ao metro e noventa que medem os austríacos, parecem feitos de propósito para estes humanos de cara perfeita e olhos transparentes. Para dar um ar mais insólito às noites, o resto da assistência é maioritariamente japonesa, eles trajados como empregados de mesa e elas de gueixas. Estranhos efeitos provoca o champanhe francês no sangue lusitano.
E no meio de famílias da aristocracia rural e centenas de japoneses milionários sentados nas primeiras filas, apagam-se as luzes e começa o espectáculo. Mozart tocado pelas melhores filarmónicas do mundo, cantado por vozes mágicas, maestros de luxo, público amante e encenações, no mínimo, curiosas. Que Mitridate Re di Ponte se passe numa espécie de discoteca tipo Lux e não na Ásia Menor invadida pelo Império Romano ou que a princesa seja obrigada a declamar o seu terror pelo marido tirano enquanto escala uma grade de saltos altos, não tem mal, não chateia. Afinal, o que importa realmente é que o espírito de Mozart seja respeitado.
Mas o que nem as senhoras chiques ou os nipónicos perdidos no meio da Áustria acharam divertido foi ambientar a Flauta Mágica num lar da terceira idade ou fazer do engraçadíssimo Papageno um «hippie» em constante cio pornográfico. Mas a fúria chegou aos camarotes com a «performance» da Rainha da Noite. No lugar da ‘Super-Vilã-Haute-Couture-estilo-Dior’ apareceu no palco uma velha decrépita de, oh horror, camisa de dormir. E não cantava sentada numa estrela, que é o mais típico, ou no cimo de uma colina, mas sim numa cama! Onde estava a cama na ópera original? Gritos de desordem ameaçavam a continuação da representação. A eterna Rainha da Noite não passava de uma sombra da irmã paralítica da Baby Jane, e isso não se podia permitir. Atirariam as réplicas da Julie Andrews as cadeiras para o palco, como na bola? E os japoneses? Fariam o haraquiri desesperado? Nada disso: berraram, acabaram de beber a sua «flute» de champanhe e foram-se embora jantar. Em Portugal exigiríamos a queda do Governo por permitir tamanha heresia.
Se alguém se atrevesse a representar em Lisboa o Auto da Barca do Inferno no cruzeiro do Barco do Amor seria expulso da pátria depois de um julgamento sumário em directo num programa da TVI. Mas no Festival de Salzburgo, pelos vistos, até se aceitaria que o Capuchinho Vermelho fosse uma «drag-queen» e o lobo mau um activista dos direitos da família tradicional. Estamos perante a tirania duma nova classe de encenadores, mais próximos do mundo do videoclip musical e da instalação em bares «ultra-fashion» do que do amor pela peça que põem em palco. Mas o mundo da música clássica é só uma parte desta febre paranóica pela estética pós-moderna. No Reina Sofia, em Madrid, sobram obras que mais do que arte parecem dejectos de lixo industrial; na feira da ARCO vende-se manequins das lojas como jóias da escultura; e, desculpem o desabafo, já não há pachorra para os pseudo-ballets experimentais. Questão de moda, de uma necessidade imperiosa de inovar a qualquer custo? Ou será que este afã de encontrar brilhantismo e genialidade onde não há mais que banalidade não faz mais que potenciar o mau gosto, o desnorte e a aberração estética? Como público e contribuinte cansada de financiar experiências com papel higiénico espero que se ponha fim a tanto despropósito. Pelo amor à Arte, ao bom senso e, porque não, a Mozart.





