SEMANA DE MUDANÇAS (adeus, Santa Ana, adeus)O meu bairro é multi-task...*
O meu bairro é multi-task total, super útil para ter uma existência vida feliz, plena e ultra-tesa, porque esta mania que o jovem casal Pinheiro tem de povoar sempre o centro das grandes urbes é muito bonita mas cara como o caraças. Ele é desayunos, cañas, tabaco marroquino, cozido à madrilena, sidras e barbadillos, a melhor tortilla de patatas do mundo, disco naites, uisques com jazz e um sem fim de tentações para esta carteira sempre às moscas, mas que não é capaz de ficar sossegada em casa a ver um programa sobre bichinhos na têvê. Porque eu sou uma fraca de espírito, uma vendida à boa vida e à arte de bem perder o tempo em territórios propícios ao pecado. Eu adorava ser uma super devota dos momentos intimamente domésticos, do género de passar as minhas noites de sábado a completar um puzzle de cem mil peças com o retrato da Cibeles iluminada. Ou começar a aprender inglês por fascículos, com devede, professor de apoio e a garantia da planeta agostini que arranjarei um emprego numa multinacional americana.
Mas não, eu desisti logo desta luta interna e entreguei-me de corpo e alma à descoberta do meu bairro, dos simpáticos locais e dos seus ancestrais hábitos, porque eu tenho uma costela de socióloga e a curiosidade pelas pessoas mata-me. O meu amor diz-me que isso é cuscuvilhice, que o que eu mais gosto é saber da vida dos outros para depois falar mal nas costas. Mentiroso; eu não faço isso com quem é meu amigo de verdade verdadinha, com os outros nem por isso. Contudo, dos habitantes do antigamente, dos tipicamente espanhóis e chulapas, desses já há poucos, e se existem só devem sair à noite para encher os bares e vomitar à porta do meu prédio. Pacos e Pepes nem vê-los, que a mercearia tradicional foi substituída por lojas de conveniências chinesas, as tascas por kebabs turcos e os supermercados são todos argentinos. Sul-americanos a servir copos, romenas a limpar escadas, nigerianos que vendem gravações ranhosas nos passeios e muitos turistas, dos que almoçam paelha às dez da manhã e passeiam pela Gran Via às três da tarde em Agosto. Até a vizinhança é estrangeira; o da porta do lado é um bife, a da frente sueca e a multi-orgásmica do primeiro andar ainda não sabemos, que no meio de tanto gemido estereofónico ainda não se lhe ouviu língua cristã.
Mas eu gosto de viver no meu bairro, trocar ideias de cinema com o chinoca que me vende tabaco, jantar no indiano da esquina e passear de mão dada com Mr. Pinheiro, o meu amor e a razão deste meu exílio em terras espanholas. Quando aparecerem por cá, telefonem que a gente vai beber um copo.
(*in O Livro da Rititi)