(Hugo Gonçalves, no Diário de Notícias de 26 de Setembro)
"Cavaco, Obikwelu e queijos da serra - Uma recepção na embaixada de Portugal Os portugueses no estrangeiro, entre portugueses, são muito portugueses. Funcionamos em pequenos grupos, olhamo-nos mas não nos misturamos. Elogiamos Espanha, criticamos Portugal e, no minuto seguinte, fazemos o contrário. Somos glutões pessimistas – queixas porque não havia pastéis de nata, porque os croquetes eram espanhóis. Salvou-se o queijo da serra. O escritor Bret Easton Ellis disse que ser parte de uma realidade não implica que não a critiquemos. No entanto, quem não tem um passado português, vê-nos de uma forma distinta. Kim Stein, americana, que nunca conhecera um lugar tão português, disse: "É como uma festa de primos. São muito parecidos, mesmo nas cores escuras que usam. São um grupo reservado, menos descontrolado que os espanhóis. Andei de um lado para o outro a tocar a superfície das pessoas que parecem presas numa bolha". Os U2 cantam que deslizamos na superfície das coisas. Mas essa é a ordem natural das "coisas" que acontecem em recepções. Deslizámos tão rápido que, quando perguntámos ao embaixador, que saía apressado para o banquente com o rei, sobre a logística e o sucesso do evento, ele respondeu com diplomacia: "O que interessa é que o Presidente esteja contente". E uns quantos portugueses continuaram a beber no jardim, falando dos portugueses, até que lhes pediram que saíssem."
I CONCURSO ROSA-CUECA DE POSTS DE AMOR (OU DA FALTA DELE)
O Blogue, a Rititi e o Mundo Rosa-Cueca convocam o “1º Concurso Rosa-Cueca de Posts de Amor (ou da falta dele)” dirigido à blogosfera e os seus utilizadores. Pretende-se destacar a originalidade e engenho num tema tão batido como o amor, essa seca que nos encolhe a alma e nos faz chorar com os anúncios de pensos higiénicos.
Bases do Concurso
1 - Este concurso está dirigido aos utilizadores da blogosfera (leitor, comentador, blogueiro, viciado no sitemeter, amigo ou fã da autora do blogue), pelo que os trabalhos deverão ter formato de post. Nesse sentido, aceitam-se todos os suportes que permita o sistema de publicação blogger.com. 2 – Os trabalhos enviados deverão ser originais e inéditos, com um máximo de 2.000 caracteres em caso de trabalho escrito e 1 minuto de duração nas obras cujo suporte seja áudio ou vídeo. Aceita-se um único trabalho por participante. 3 - O Júri estará composto pela única autora deste blogue: euzinha, que premiará um único trabalho com o “Prémio Rosa-Cueca de Posts de Amor (ou da falta dele) 2006”. 4 - O tema dos trabalhos deverá ser “Posts de Amor (ou da falta dele)”. Serão eliminadas do concurso todas as aquelas obras que não respeitem este tema assim como as que visem a calúnia, ofensa, má onda ou a falta de educação. 5 - Os trabalhos deverão ser enviados para o correio electrónico rititi@gmail.com com o assunto “I CONCURSO ROSA-CUECA DE POSTS DE AMOR (OU DA FALTA DELE)” até às 22.00 horas de dia 10 de Outubro de 2006. O Júri reserva-se o direito a publicar num blogue criado para o efeito os trabalhos apresentados a concurso. 6 - O vencedor único do concurso será anunciado dia 16 de Outubro, assim como os três finalistas. 7 – O PRÉMIO: T-SHIRT “PORQUE HAY QUE TENERLOS” E A HONRA DE VENCER ESTE MAGNÍFICO CONCURSO (ou achavam que era dinheiro?) 8 - O envio de trabalhos e a participação neste concurso implica a aceitação destas Bases.
Num palacete cheio de fatos cinzentos, senhoras de apelidos emprestados por convénio conjugal, laca, lábios de plástico, ânsias de fotografias com o Presidente e sotaque de gentinha que se acha importante, o melhor de Portugal não usou gravata. E ao contrário da maioria de gestores, doutores e inginheiros que falavam de cima dos mestrados e dos vôos da Tap à segunda-feira, nem sequer nasceu em Portugal, para rancor dos verdadeiros portugueses de 12 apelidos, casa em Cascais e portátil de última geração. O melhor de Portugal esteve afastado dos círculos onde se bebia vinho do Porto e se discutia qual o melhor restaurante do bairro de Salamanca, alheio aos que se sentem exclusivos por viverem fora do quintal. O melhor de Portugal, humilde e discreto, não precisou de cartão nem de apertos de mão para ser o mais importante da festa, a celebridade a quem Aníbal Cavaco Silva dedicou a maior reverência, para detrimento de futebolistas sobrevalorizados, galinhas que carregavam ouros de família e caras de revistas do coração. O melhor de Portugal chama-se Francis Obikwelu e eu tive a sorte de lhe agradecer os segundos que me faz sentir orgulhosa da minha bandeira, da minha língua, do meu país. Não o merecemos.
E agora, se me desculpam, vou ali ser recebida pelo Aníbal e a Maria, Excelentíssimos ambos e em visita de Estado à terra da tortilla de patatas y olé! Cadê as pérolas, as meias de seda, o vestido de cocktail, o cachucho da minha Avó, o batôn e as armas de restauração facial? Porque não posso ser uma suburbana mal relacionada, uma qualquer não bebedora dessas sem assunto ou amigos que me convidem para eventos que a ir toda esticadinha? Ai, que vida esta tão intensa, cagonlaleche, e ainda é segunda-feira.
E para que conste: 1 - Eu adoro ser portuguesa. Ou o que é a mesma coisa: não gostava nada de ser espanhola. Ou então eu explico assim: se a questão é mudar de nacionalidade então eu quero é ser finlandesa, rica e com isenções, bonificaçoes, subsídios, igualdades a cem por cento, rendas a preço da chuva e uma pele de mármore. 2 - Nem imaginam o mau apecto que dão este tipo de manchetes quando lidas fora da pequenice intra-fronteira. Um jornal líder não pode pretender dar uma imagem tão lamentável do país. Ahhhh, era para ganhar audiências!!!! Então a concorrência são o Correio da Manhã e o 24 horas? Ou não será que o Sol também queria ser espanhol?? 3- Para quando esquecer os complexos provincianos, de país pobre e mal gerido, sempre a reboque do sonho de crescer, ser mais alto, invejoso do vizinho que janta tarde e tem mulheres bonitas? Que fartura, pá, de cabeças minúsculas.
Se alguma vez vos ameaçarem com uma série chamada “Os 4.400”, a sério e por favor, fujam a sete pés, mudem de canal, vão jantar fora, procriem, escrevam um livro, sequestrem a sogra, capem um porco, manifestem-se a favor das baleias cinzentas, mudem de sexo. Mas não a vejam. Ever. Veredicto Rosa-Cueca: Vaya Cagada. Inenarrável.
Estou-me bem cagando se a Al-Qaeda nos ameaça pela enésima vez, se os Irmãos-da- Puta-Que-os-Pariu prometem a tortura aos infiéis da cruz, se um grupo de analfabetos mortos de fome queima algures na Indonésia uma tentativa da figura do Papa ou se na próxima sexta feira os moderados islâmicos (não há aspas suficientes para isto) se reúnem na Puerta do Sol numa demonstração de legítima indignação contra uma ofensa de carácter intelectual (quem não percebe, não percebe, coitados). O que a mim me repugna, o que me dá um asco insuportável são as vozes de legitimação no Ocidente, a desculpa ao ódio e à intolerância, o sentimento de culpa da pequeno-burguesia que esquece – quando assim o exige o politicamente correcto da hora do café - a importância da liberdade de expressão. Náuseas, vómitos, nada mais que isso me merece o discurso de merda de uma sociedade tão farta de viver bem, tão cansada de votar, comprar a crédito, ver gajas nuas, foder aos dezasseis anos, dizer mal do Presidente da República, viver do subsídio de desemprego, levar no cu e não acreditar em Deus que prefere defender os povos que cabem nas manifestações globais e coloridas da moda a questionar-se sobre a origem da sua própria cultura, meditar sobre os valores que levantaram esta civilização que permite o matrimónio entre gays e o direito dos animais. E o mais penoso é que seja a Esquerda, que tanto invoca a liberdade e se apropria da democracia como valor exclusivo, quem caia nesta pouca vergonha desmemoriada. Justificar a bomba no Irão, excusar a Venezuela e ignorar o assassinato de uma freira são razões suficientes para eu me envergonhar da minha Europa e da minha Esquerda. Que nojo.
No reality mais alucinante da têvê espanhola que toda a gente vê (considerando toda a gente aquele ser humano ou animal que chegue aos mínimos olímpicos de sentido estético, tempo livre para ler revistas de assuntos rosa e tenha as unhas dos pés arranjadas todo o ano), doze adolescentes com trinta quilos de massa corporal - que inclui cérebro, ossos e lábios - lutam, sofrem e choram pela promessa, a potencialidade, ou seja, por poderem eventualmente-talvez-quem-sabe ser eleitas como A candidata para um concurso de modelos internacional. Toda a gente está viciada, rodeada, isso sim, por um sentimento de culpa que mistura asco, adoração, ressaca domingueira e preguiça de mudar de canal. Toda a gente discute as nomeações, as passarelles da semana, as provas de fotografia, toda a gente comenta os cortes de cabelo e toda a gente acha que as miúdas são tratadas abaixo de cão. Os professores, quando homens, são uns panascas sádicos, untados por um machismo ultra fundamentalista e alheios a qualquer preocupação de ordem moral, considerando-se, sempre e aliás, superiores a essas pobres criaturas escanzeladas e dependentes da sua genialidade para o inútil mundo da moda. E aquelas crianças de metro e oitenta, bonitas e estupidamente magras, obedecem, posam, trotam, rebolam, passam frio, medo e humilhações, já não pelos quinze minutos de fama, mas porque acham que é assim que deve ser, que assim é que chegam ao elitista universo das capas de revistas, sapatos que fazem calos e champanhe ao pequeno-almoço. E deste lado do ecrã ainda ninguém reclama. Toda a gente está tão fascinada pela capacidade de sofrimento destas criaturas e pela sua coragem de bulímicas assexuadas e sem mamas obrigadas a olhar para a câmara fotográfica como cadelas em cio, que se esquece que é assim que os ideólogos da moda pensam nas mulheres. Como cabides das suas criações, magras e obedientes, sem a ordinarice das curvas, da carne, do rabo, desse asco de carne que se pendura entre o pescoço e o umbigo chamado mamas. Eu, que sou toda a gente, passo uma fome do caralho cada vez que vejo o programa. A sério. Só me apetece comer chouriço, sandes de toucinho frito, azeitonas, pezinhos de coentrada, sopas de tomate com ovos escalfados, bifes da Portugalia da Almirante Reis, mesmo sabendo que depois não há camisa hiperquerida que me caiba nas mamas. Tenho fome. Estou totalmente out. E ainda bem.
"Consideremos que o uso da burka e a excisão feminina são apenas questões de natureza cultural e que, no fundo, são reacções contra a arrogância ocidental e as pernas de Mary Quant, essa vaca imoral." FJV, impecável.
Que querem, sou uma romântica. Gosto de homens bonitos, gosto de touros e gosto de como lhe assentam as calças a este gajo. Que merda, a sério, com esta coisa da vergonha colectiva por sermos assim, de preferirmos a gordura da feijoada à paneleirice do legume cozido; este medo constante de dizer em público que somos católicos e não new age, cabalísticos ou que acreditamos na conjunção de Plutão (coitado) com a deusa Terra; que irritação estar sempre alerta para não ofender os pró-bichos, os não fumadores, ex-fodedores, gays e leitores da Laurinda Alves; que estupidez e que fartura, dasse, pá, este compexo de sermos mais ricos, mais altos, mais bonitos e mais felizes.
* querida Sofia, o Cayetano é irmão do Fran, mas mais giro, muito mais... Vai ver, vai.
Flamencas encima de la tele, delantales de rociera, castañuelas de plástico, abanicos, mantones, batas de cola y peinetas; la Almudena hecha un pin, el dedal con la cara de la Leti y la Leonor en la visera; churros con anís, cacharritos y la muñeca chochona, encierros y vaquillas, el Pasodoble Españióóó, Paquito el Chocolatero y esas inenarrables orquestas Vibraciones; las romerías de los pueblos, filetes empanaos, tortillas con pimientos, caldereta y las reinas de las fiestas; viva la virgen y arriquitán, y, como no, el toro de Osborne hasta en la sopa! ¡Hombre ya con tanta tontería global y moderna!
Se escrevo contra, sou uma puta. Se voto contra, sou uma puta. Se penso contra, sou uma puta. Se canto contra, sou uma puta. Se me sinto contra, sou uma puta. E se estou a favor, também. Sou mulher e automaticamente sou uma puta porque é assim que se me supõe quando levanto a voz sem o comando dos outros, quando me apetece, quando porque sim digo que não. O tamanho da saia, do decote, das pernas, do rabo, do físico que não se deve ter e muito menos mostrar, assim como não é de bom tom ser demasiado inteligente, nem ler em estrangeiro, nem viajar fora do pacote concertado, nem escolher a cama em que se dorme. Eles têm direito a passarem por falsificadores, mentirosos, cretinos, políticos, imbecis, pichas-moles porque se lhes mede por outras regras. Enquanto a nós, pois, quando se nos resume de putas então é porque não passamos de um buraco entre as pernas e nem temos a oportunidade de ser outra coisa que um corpo sempre ao dispor. Sempre magras, sempre bonitas, sempre avaliáveis, sempre putas. E elas, que querem que vos diga, não resistem a sentir-se superiores pelo estatuto de donas de casa, mães e enlacadas, como se querem as respeitáveis. Uma mulher, quando já não pode ser burra, nem feia, nem gorda, é puta. O insulto no feminino é tão fácil como a visão que de nós tem um mundo que nos quer caladas, violáveis, fodíveis à força de não ser o que deveríamos: discretas, sossegadas e sempre às ordens da moral conveniente, que é sempre a deles. E a delas. Ou dos que têm medo de saltar da cama para mijarem de noite. A mulher, quando livre, é "gaja" e não há senhora que queira passar por essa qualquer a quem lhe falta o apelido do marido, o anel de compromisso e uma estrutura familiar e social que garanta que ela é das que merecem respeito, das que nunca ficarão sozinhas quando se tratar de defender a honra. Já Diana preferiu ser primeiro virgem e depois mártir que uma puta; e a Letizia foi mais importante apontar o estado civil que o curso, o mestrado e os anos de esforço sem horário para poder pagar o crédito à habitação. E até que não me demonstrem o contrário eu continuo a achar que ainda não estamos lá, que esta coisa da igualdade, da democracia e da liberdade é tudo mentira, que me deixem de tocar o grelo com tanta hipocrisia e moralismos de última hora. E que não me enganam as leis da paridade, nem a obrigação da conciliação laboral, nem os subsídios de maternidade enquanto me continuarem a chamar puta cada vez que não digo o que querem ouvir.
COMUNISTAS EM FESTA * (ao cuidado do Tiago, do Kontratempos)
Se ainda há neste mundo cão pessoas com bons propósitos e o coração cheio de fé, esses são os comunistas. Não se trata de gente utópica ou singelos sonhadores: simplesmente não cresceram, daí a razão de tanta esperança num futuro repleto de amor ao próximo e abraços inter-planetários com os povos do Médio Oriente. Comportam-se como crianças paradas nos anos setenta, quando a política e a televisão eram a preto e branco e aos seres humanos, em geral, não lhes restava mais destino que a subjugação e a opressão, massacrados pelos horrores do sistema capitalista. Os comunistas ficaram-se pelas palavras grandes e os problemas da falta de emprego, de dignidade, de comida ou de sexo solucionam-se invocando o imperialismo, as massas operárias, a liberdade e o povo. Para grandes males, grandes remédios. Os comunistas do Século XXI, não se enganem, não são os meninos do Bloco de Esquerda que idolatram o Francisco Louçã e se enfrascam no Lux ou o público dos concertos do Zé Mário Branco, mas sim aqueles nostálgicos pelo que nunca tiveram e que sonham com o paraíso cubano onde todos podem ser médicos apesar de morrerem de fome ou na prisão. A sorte dos partidos comunistas na Europa actual é que ninguém parece querer lembrar-se da URSS e que a China se tenha transformado numa potência amiga que até faz roupa mais barata. Com este interesse todo no lado mais vermelho da esquerda passei uma noite de sábado na festa do PCE na Casa de Campo de Madrid onde descobri que é mais sacrificado ser um verdadeiro comunista que seguir as novas regras do Catolicismo do Papa Ratzinger, tal a quantidade de ódios de estimação que se requerem: todo Israel sem excepção, a família Bush e os seus sequazes, a Nike, as monarquias europeias chupa-orçamentos e qualquer evento tipo Expo que esteja para acontecer nos próximos tempos, sem esquecer as multinacionais, a guerra em geral e as touradas. Mas para ser um bom membro do partido, um genuíno operário sem ambições de enriquecimento próximo, não basta com cantar a Internacional Socialista de punho cerrado; o bom comunista abomina acima de tudo na vida, mais que o vil metal e desprezível capital, a América, pátria do capitalismo aniquilador e responsável única pela propagação das terríveis ideias neo-liberais que destroem democracias ali onde chegam e condenam as crianças às fábricas clandestinas de roupa desportiva. Tanto desdém causam os Estados Unidos ao Secretário Geral do PCE que lhes dedicou seis dos quinze pontos do seu discurso, além de se referir à potência imperialista explicitamente onze vezes. Tanta obsessão só pode ser amor sincero. Cá por mim que o Francisco Frutos, na intimidade do lar, lê revistas do Capitão América enquanto cantarola o Born in the USA de Bruce Springsteen. Coisas mais estranhas se têm visto no universo comunista. Tanta invocação da guerra do Iraque misturada com o furacão Katrina, mais as promessas finais de uma terceira república espanhola baseada no federalismo e a recordação da minha humilhante condição feminina face aos capitalistas que me pagam o miserável ordenado, dá sede. Por sorte, os comunistas também bebem. Espalhadas pelo recinto da Casa de Campo as barracas das federações regionais do partido estavam preparadas para calmar a sede e a fome dos desgraçados militantes, cansados de sofrer a precariedade do trabalho embrutecedor das nove às cinco. Eu própria via-me incapaz de sobreviver mais um segundo sem álcool no sangue. Em Aragão comecei com vinho tinto e jamón de Teruel, cidade apagada dos mapas da Grande Espanha operária pela classe burguesa capitalista; na Catalunha comi butifarra enquanto reivindicava os direitos históricos dos trabalhadores das industrias têxteis; na Andaluzia dancei bulerías inspiradas nos mártires republicanos da guerra civil com um copo de plástico de fino La Ina na mão e ainda tive tempo de passar pelo País Basco para provar txacoli e encher o estômago de misérias com pintxos e hinos pró-independência. Quando nas Astúrias fiz apostas sobre o sexo do filho da Letizia já estava em tal estado de euforia comunista que assinei um abaixo-assinado pela transformação do Principado numa República Independente da Sidra de maçã. Mas o sonho do comunismo não sobrevive só nas delegações distritais lá nos confins do país, em casas alentejanas a cair de podres e nos discursos de velhos combatentes da guerra civil espanhola. É possível ser comunista hoje no estado mais democrático do mundo depois de Coréia do Norte: Cuba. Para a revolução do proletariado o PCE tinha reservado uma barraca de proporções gigantescas, mais próxima em tamanho a uma carpa para casamentos burgueses que para elevar os ânimos dos militantes subjugados pelo sistema. Com mojitos feitos com rum de verdade, cohibas a um euro e ao ritmo de salsa é difícil resistir aos encantos de Fidel, el Gran Comandante, sempre presente nos cartazes junto ao Che Guevara, o símbolo erótico da esquerda revolucionária. Pavilhões dedicados à República Popular da China, stands em honra das FARC e dos mártires da causa basca, postos para a venda de t-shirts com a cara de Bin Laden - mistura explosiva de ideologias totalitárias regadas em doses industriais de álcool às portas de Madrid. Até o nosso inofensivo PCP tinha o lugar guardado bem ao ladinho da loja de souvenirs da OLP, cujos benefícios das vendas foram destinados directamente para a nada sanguinária Intifada. Morte à América, morte a Blair, morte a Deus e ao sistema capitalista! E entretanto que ninguém se atreva a proibir estes nobres cidadãos de manifestarem livre e democraticamente o seu amor ou devoção por regimes ditatoriais, regimes onde a liberdade custa a vida ou grupos terroristas. Ser comunista no Ocidente é fácil, basta fazer uma festa.
(* crónica publicada na Revista DNa no dia 30 de Setembro 2005)
Dubidubi. Cutchi-Cutchi. O coraçãozinho puro traído pela lascívia da aristocracia. A princesa que todas sonhávamos ser. O primeiro beijo. A doce noiva do bolo de casamento. O sapatinho de cristal depois de um slow à luz das velas. A renda do cortinado. A cuequinha de gola alta. A neta ideal. O funeral do povo banhado em lágrimas. Ou não. A hipócrita da lágrima fácil em frente às câmaras fotográficas. A mimada que não soube partilhar o brinquedo. A histérica dos vestidos caros. O divórcio astronómico em directo. A ultra beta afectadíssima que nem servia para secretária. A virgem vomitona e suicida. A amante de professores de equitação, guardacostas e gigolôs. A decadência moral da monarquia ou a melhor amiga do povo. Mas de longe. Porque o povo, apesar de tudo, cheira mal e não janta no Ritz.