Terça-feira, Janeiro 30, 2007

FELIZ DE VIVER EM ESPANHA



Obrigada pelo convite para escrever no Sim no Referendo mas, queridos, como querem que eu diga da minha justiça com esta graça que Deus me deu sem a password mágica, pá?

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Lambe, lambe...



Por sorte, há homens que envelhecem para feios. Ai, Santo Deus, agarra-me ao sofá...
(Quando se me passar o espanto falo do filme. Mas agora, jasusinhor, só sou capaz de pensar no aquecimento inferior provocado por este puto atormentado no The Departed. E mais não digo que sou uma senhora casada e aqui o Mr. Pinheiro costuma ler o meu blogue.)

Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

VOTAR SIM*

Na sala de espera da clínica uma menina de quinze anos entretém-se a olhar para os ténis de marca enquanto a mãe relê a folha onde deve expressar o seu consentimento. Tem que assinar; parece que é o melhor para todos, ela é ainda tão pequenina, que chatice, que fizemos mal, e olha em redor, como comparando-se, buscando a equivalência na dor. Em frente delas está sentado um casal de trinta e tantos, cansado, triste e com vontade de que a vida fuja dos hospitais, das análises, dos diagnósticos injustos. E também vê uma senhora sozinha, com pasta, fato e ar de muitas reuniões à semana e uma cigana velha que arrasta uma barriga adolescente. E uma enfermeira que entra e sai enumerando nomes que trazem fetos. Na sala de espera da clínica especializada em abortos do centro de Madrid não há uma única alma que esteja confortável, apesar da cor neutra das paredes e das revistas do coração que sobram porque ninguém está lá para saber da vida dos outros. Naquela sala não vê uma mulher feliz, sossegada, nem nenhuma que pareça uma assassina em série que mereça ser julgada por um referendo popular. Só mulheres que precisam abortar.
Quando em 1998 Portugal preferiu ir para a praia, ficar em casa, dar banho ao cão ou visitar a sogra deixou bem claro que se há um lugar onde ninguém se quer meter é no útero de uma mulher. Votar em nome dele, dar voz a um destino que só compete a quem o traz de fábrica não cabe na cabeça de pessoa crescida, a não ser, claro, na dos senhores que habitam na nossa Assembleia da República. Eles, sempre tão comprometidos para a capa do jornal com o «Portugal real», foram incapazes na altura de deixar de penalizar mulheres que estão dispostas a arriscar a reputação, a vida ou o cadastro, num acto que não distingue classes sociais, consciência religiosa ou estabilidade familiar. E quando volta a submeter uma opção tão pessoal aos foruns de internet, aos debates em máxima audiência – enfim, à voz do povo – obriga os portugueses a questionarem-se em público em nome de um bem comum. Um bem comum a que chamaram Vida, com maiúsculas e questões éticas e que atola automaticamente o debate, preso por todos os valores genéticos, congénitos e culturais. Porque ninguém quer ser o responsável pela morte de um futuro Luís Figo, então o melhor é não votar. «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas dez primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?». Ou então, é preferível não concordar. Umas quantas mulheres presas bem valem uma Vida, com maiúsculas, sagrada, expectante, superior a qualquer valor, a qualquer necessidade económica, a qualquer desespero. E assim, impondo o bem comum faz-se saber a todos os interessados, inclusive à comunidade médica, que votar a favor da despenalização da interrupção da gravidez equivale a matar. E matar é um crime.
Eis aqui o erro primeiro desta discussão: o valor a ter em conta não deve ser a Vida, mas sim a Mulher, também ela com maiúsculas, sagrada e anterior e a quem o Estado deveria proteger. E eis aqui, também, onde o discurso óbvio dos militantes do "não" impressiona mais, porque parece ignorar que a Mulher é parte interessada em todo este assunto. Fala-se de nós, as únicas que engravidamos, como simples portadoras, tal qual uma mochila sem vontade ou necessidade. Muitas abortam porque não sabem o que fazem e outras por maldade, inconsciência, fraqueza ou estupidez. Ou tudo junto. E o que a voz do "não" nos diz é que devemos ser castigadas e dissuadidas do erro, desse terrível passo que matará, de um modo cruel e doloroso, um ser indefeso. Esse ser, dizem, é que precisa de ajuda, nunca as mulheres. Abortar está mal. Não importa porque se faça. Claro que há desculpas, como o perigo da mãe, doenças congénitas e violações, mas como está posta actualmente a questão do aborto em Portugal, até essas excepções são más, um crime que se perdoa porque está socialmente estabelecido. Mas quando toca à realidade todos têm medo de cometer este crime hediondo, começando pelos médicos que são os primeiros que não querem ser os culpados. Uma vez mais, a Mulher é a última a ser tida em conta.
Se a Mulher fosse o factor mais importante, então o aborto não entraria na equação da moralidade e o Estado, que é quem tem a responsabilidade final pelo bem-estar dos cidadãos, preocupar-se-ia em investigar porque razão milhares de mulheres todos os anos decidem pôr fim à sua gravidez. Se o Estado não fosse cobarde saberia que nada impede que os abortos se realizem, numa cave, em Mérida ou com um ramo de salsa. E se o Estado não olhasse para as mulheres neste assunto como cidadãs de segunda perceberia que quem tem a voz última no tema não são deputados, taxistas, párocos, intelectuais ou politóligos. Somos nós, as mulheres. E naquela clínica de Madrid, onde tudo era legal e desinfectado, as únicas que se podiam levantar e ir para casa eram as que iam abortar. E o Estado não pode continuar a esquecer que só nós decidimos.

* publicado na edição de Dezembro da Revista Atlântico.

Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

LA NIÑA DE NUESTROS OJOS

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

ORA SAI UMA FESTAROLA...



... DA REVISTA ATLÂNTICO.
Sexta-feira, 26 de Janeiro


E eu, pois, mais uma festinha fixe a que não assisto, mais um sessão dos Dj's Eduardo Nogueira Pinto, Francisco Mendes da Silva, Nuno Costa Santos e Nuno Miguel Guedes que eu perco, mais um jantar ao que nem dou um arzinho desta minha graça... Más de lo mismo, entonces, eu em Madrid e a movida em Lisboa.

Terça-feira, Janeiro 23, 2007

OS MEUS AMIGOS SÃO MELHORES QUE OS TEUS



Concretamente o
Nuno Vargas, campeão olímpico da ilustração, desenho gráfico e bom gosto sobre o papel (e o geral, mas isto é cá de casa). É assim este meu amigo-hóspede-cozinheiro, não lhe bastava trabalhar com um pequeno génio chamado Losowsky (por cierto, tío, aún tengo tus llaves) como tinha que fazer a capa do ultimíssimo livro do talento superlativo Manuel Jorge Marmelo. Con dos güevos, que diria Alonso Quijano.
Por isto e porque me sale de ahí, ole mi niño y ole sus vuelos y ole porque ter amigos destes fazem-me sentir muito orgulhosa. Parabéns aos três.

Domingo, Janeiro 21, 2007

O Ahmadinejad que se ponha a pau


Semana da Moda em Teerão

Fátima Abdalá Shahrudi, jovem mãe de oito futuros mártires dos «Irmãos Barbudos de Alá», cotada modelo iraniana e capa da reputada revista de moda islâmica «Elle, já prá cozinha», desfila tão graciosa como um míssil nuclear vestindo uma sensual cortina. As cores deste saco de batatas recordam não só o chão do quintal onde passa a maior parte do dia a ordenhar a cabra familiar como a miserável vida que tem desde os onze anos, idade com que se casou com o seu tio-avô de setenta e nove. Elegante e feminina, Fátima olha com receio para os seus quinze primos que esperam que acabe o desfile para lhe dar uma valente carga de porrada, violá-la até a madrugada e vendê-la a um grupo de mercenários sudaneses. Afinal, Fátima não solicitou autorização aos Sábios do Clã para mostrar, qual rameira em cio, estas pecaminosas carnes que Alá deu aos machos da tribo para seu gozo, desfrute, usufruto. Alá é grande e um cego manco o seu único alfaiate!


Aqui, os primos de Fátima, doidinhos de tesão com tanto erotismo.

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

MOMENTO GINA: NET-SALDOS


Pasión for Fashion

Porque uma blogueira tem todo o direito a lapidar o cartão de crédito sem sair de casa, porque há mais internet que os blogues e porque os saldos também chegam ao computador, toma sapatinho, toma vestido de Ailanto, toma perfuminho barato, toma mala de leopardo. Ai. Sem bichas à porta do provador, sem ter de matar a tarada que nos arranca as cuecas da mão, sem empregada cabrona, sem povão. O sonho de qualquer cagona, vamos.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

A LUNA É O MÁXIMO

Uma observação absolutamente descojonante sobre o que importa de uma cerimónia como a dos Globos de Ouro: os vestidos das gajas.
Assim, leiam os comentários sobre as favoritas, as giras, as ainda não decidi, as feias e as piores de todas.
Mas o meu prémio «Ai, coño» vai para a Salminha e o seu incompreensível esforço para se transformar, pagando balúrdios, num trambolho. Eis, senhores, o Trambolho de Ouro.



(Olha, acho que comecei uma nova série. Trambolho de Ouro é mesmo giro)

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

COISAS A NÃO FAZER DEPOIS DOS TRINTA ANOS



Continuar a fazer anos.

Sim, queridos, o meu BI diz que falta menos de um mês para chegar aos 32. Nem me consigo explicar bem. Ai. 32. Porque eu não me vejo com 32, ou pelo menos nos 32 anos que se espera que tenha. Sim, o destino social é fodido, sobretudo quando não encaixamos nos seus planos. Supõe-se que aos 32 uma mulher deixou de ser uma gaja para se portar como uma senhora. Séria. Capaz de se manter calada e surda numa sala cheia de homens, toda vestida de executiva respeitável enquanto eles debitam os copos e engates da noite anterior. Ela, népias, porque no mundo dos grandes o mulherio que quer ser respeitado pelo rumor dos outros não bebe, nem fuma, nem fode. Uma mulher, aos 32, dizem que já tem PPR, crédito à habitação, apelido de marido, lugar contratado no cemitério e a certeza que morrerá na cama abraçada aos filhos carinhosos. E aos 32, dizem, eu já deveria preocupar-me com as unhas, telefonar à minha sogra todas as sextas, saber o preço dos legumes, ter uma costureira de confiança e um clube de amigas penteadas que joguem às cartas. Mas não. Essa não sou eu. E para os habitantes deste universo de gente muito nova armada em velhadas, eu, no fundo, não passo de uma gaja destrambelhada, alcoolizada, medonhamente irresponsável. Afinal, onde estão os meus filhos? Se estou casada, porque falo de gajos? E os palavrões, não deveria ter juízo? Porque não aprendo a comportar-me como a senhora que sou? E o meu marido, que achará ele desta merda toda? Pois é. Mas adivinhem, não sou eu quem está mal. Afinal só vou fazer 32 anos e não tenho pressa nenhuma em ser igual à minha avó. E aliás, acho que o meu marido gosta delas novas. Como eu.

Terça-feira, Janeiro 16, 2007

COISAS A NÃO FAZER DEPOIS DOS TRINTA ANOS



Fingir que tenho vinte.

Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

MOMENTO NO TENGO EL COÑO PA RUIDOS

Estou tão farta do tema do aborto, das merdinhas hipócritas dos lambe-fetos, da puta da altivez destas gajas que sacam os filhos deficientes em caminhadas pela vida para mostrar às cabras hereges quão gratificante é ser mãe, do eu nunca o faria berrado por pitinhas de treze anos com os olhos regados em sangue à porta da catequese, de que umas barbies recauchutadas armadas em católicazecas da paróquia de Santa Isabel que já nem sem lembram como é que é se fazem filhos me chamem descompensada, assassina, papa-fraldas, bruxa e comunista só porque não tenho medo nem vergonha de dizer sim, eu estou de acordo, mas tão farta do discurso condescendente de quatro caralhinhos que têm imensa pena das desgraçadas que abortam (mas só das que são apanhadas porque as vacas que ficam à solta, essas Deus já as castigará), das alucinações jurídico-mentais da «Associação de Estudantes pela Vida, mas só a nossa» do ano zero da Católica que lá porque tiveram três meses de Introdução ao Direito para analfabetos existenciais pensam que têm um lugar garantido no Tribunal Constitucional, mas tão fartinha destes pirosos cheios de deus que bem eram capazes de mandar mais de metade do país para a fogueira, que até mete nojo.
Mas quem é que estes gajos se julgam que são? Enviados do senhor? Arcanjos da verdade e da vida? Quando os vimos à porta de clínicas clandestinas a chorar pelos mortinhos de dez semanas? Alguém se lembra de os ver em manifestações a exigirem celeridade nos processos de adopção, ou mais casas de acolhimento para mães adolescentes? E quando todas essas Vanessas ou Joanas Telmas aparecem mortas nas capas dos jornais, acaso ouviu-se as vozes destes amantes da vida exigindo mais controlo nos casos de abusos a crianças? Qual quê! Os gajos estão-se a cagar, querem lá saber se se aborta ou não em Portugal ou se uma miúda de cinco anos é violada pelo prédio todo! Do que eles gostam é deste papel de juizes no tribunal da Grande Moralidade neste país de brandos costumes de portas para fora. Cada cinco anos, o aborto, e depois será a eutanásia e mais tarde, quem sabe, a investigação com células mãe ou algum tema que lhes o dê tempo de antena necessário para mostrarem ao resto da patria pecadora que eles é que são os bons, o exemplo de virtude, os que garantem que este nosso Portugal de mulheres espancadas e casas pias não se perca pelo caminho do deboche e do desprezo pela dádiva divina. Eles estarão sempre aí, a controlar-nos o nascimento e a mortalidade, ansiando os seus quinze minutos de divindade, mas só se houver uma televisão por perto, tal qual todos os falsos profetas. E eles deveriam saber isto melhor que ninguém: serão recordados, sim, mas como os fanáticos que são.

(SIM. SIM.)

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Pronto, deu-me para isto



Ai se eu soubesse cantar... Para quando uma Operação Plaibeque?

PRIMEIRO PRÉMIO VAI AO CU A TI DO ANO

ETA dice que el alto el fuego sigue 'vigente' y que no quiso 'causar víctimas' en la T4

La organización terrorista critica que no se hubiera desalojado el aparcamiento a pesar de las tres llamadas.

Lembro-me dos mortos de Hipercor, do cobarde tiro na nuca de Tomás y Valiente no seu escritório da Universidade, do sequestro de Miguel Angel Blanco, do terror de criança por viver em frente à Casa Quartel da Guardia Civil em Badajoz, lembro-me das pernas mutiladas de Inés Villa, da viúva de Gregório Ordoñez, da primeira vez que me manifestei em frente à Faculdade de Direito em Cáceres, da bomba monstruosa de Callao, do sangue espalhado no chão em Zaragoza, do buraco onde interromperam durante duzentos e quarenta e noves dias a vida do empresário Emiliano Revilla, das cartas com cheiro a morte dirigidas a Savater, das ruas feitas trincheiras no centro de San Sebastián, do aeroporto de Barajas. Lembro-me que não houve um único dia na minha vida em que a ETA não estivesse presente. Matando, extorquindo, ameaçando.
Quando grito BASTA YA, de mãos brancas e cara descoberta, refiro-me a eles, aos assassinos e não ao Estado de Direito que tem o dever de diferenciar os bons dos maus e de deixar bem claro que as regras são as nossas, as dos inocentes. E que não estou disposta a ser gozada por uma banda de racistas hipócritas, uns cobardes cujo discurso, à falta de razões morais, históricas ou políticas, ficou reduzido ao mais execrável dos nacionalismos, o do terror de rosto coberto. Porque isto é a ETA, uma anedota armada até aos dentes que me julga merecedora da morte só por não ter o mesmo grupo sanguíneo que os bisavós deles, viver no meio da montanha vestida de aldeã do século XIX, falar numa língua pre-histórica ou levantar pedras de duzentos quilos como acto de suposto orgulho nacional.

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

COISAS A NÃO FAZER DEPOIS DOS TRINTA ANOS



El Gilipollas

Outros títulos a usar para o efeito: ai as minhas cruzes, mas quem me manda passar o domingo num ringue de patinagem sobre gelo, eu nem sou de actividades em grupo mas aquilo até prometia umas gargalhadas ou parece que a ingestão de uísque depois de almoço causa estes efeitos. Uma coisa é certa: o Natal morreu...

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007



Ya vienen los reyes, por el arenaaaaaaaal, ya le traen al Niño, un rico pañaaaaaal. Que coñazo, Dios Santo! Alguém me tire deste filme de festas, histeria social e bebedeira diária. Porque vocês não estão bem a ver o que custa ser a protagonista desta esquizofrénica tragédia ibérica, submetida que estou às tradições de fumício, comício e bebício dos dois lados da fronteira. Tenho a figadeira prontinha para fazer um estudo científico sobre a resistência ao álcool etílico num corpo de 55 quilos, tal o exagero de consoadas, missa do galo, visitas interpeninsulares à tia, avó, amigos e chegados, fim do ano, o concerto de Viena, ressaca de percebes e vinho caro e desgraçadeira total na zona intestinal. E quando já nada podia piorar a dimensão da minha bóia abdominal, pimba, vai daí e diz que ainda faltam os cabrões dos Reis Magos mais o ouro, a mirra, o incenso e a puta da cabalgata, a estrela de Belém e outra vez festa, outra vez comida, outra vez beber como se não houvesse amanhã, outra vez desembrulhar prendas, outra vez os cinzeiros cheios de beatas, outra vez! Mas será que os espanhóis não descansam nunca? Que los Reyes son los padres, cojones! Pues eso, pampanitos verdes, hojas de limón, la Virgen María, madre del Señor. La hostia.

Terça-feira, Janeiro 02, 2007

2007

Em Madrid o inverno conjuga-se. Aqui faz inverno. Invernam as árvores do Retiro, os turistas na Puerta del Sol e os donos dos quiosques. E o céu, de tão inverno que está, fica de um azul frio e luminoso, longe dos atardeceres laranjas e esperançados do verão no Palácio Real. Em Madrid, quando inverna, as mulheres reforçam a maquilhagem, arranjam o cabelo com mais afinco e preocupam-se para nunca deixar cair o pinguinho do nariz. Que em Madrid se conjugue o frio e a falta de luz não obriga a que ninguém tenha pena do aspecto do outro. Porque esta é uma cidade que fica mais bonita quando os termómetros dizem que estão dois graus nas paragens dos autocarros, como se arrefecer o ar fizesse que os passeios, as fachadas e os cães fossem mais amáveis. É isso: em Madrid o inverno suaviza a antipatia habitual dos empregados dos bares (aqui ninguém pratica o conceito pastelaria), dos porteiros normalmente fodidos com a sujidade dos elevadores, das empregadas equatorianas que empurram os filhos das mães enojadas com as obrigações da maternidade, dos taxistas, dos homens do lixo, dos consumidores dos jornais gratuitos. Dos amantes. No verão, que não se conjuga porque faz demasiado calor para a semântica, os amantes não se amam, sofrem-se, como os quarenta graus. Os corpos pegam-se sem que o prazer tenha alguma coisa a ver com os suores que se pegam aos lençóis. Não há libido que resista aos odores do verão. E nesta sala, tão grande, tão branca, tão arejada como esta nova casa onde penduro os quadros que me recordam porque amo quem me ama, o amor é mais confortável se lá fora a rua passa frio e o senhor do tempo promete geadas. No sofá amarelo, debaixo da manta da Serra da Estrela, as mãos encontram o calor que lhes nega a meteorologia nas curvas do outro, apalpando a carne, preguntando-se a razão da castidade se o cheiro, o roce, o toque e profundidade do desejo são tão quentinhos. No meu sofá amarelo, o inverno também se conjuga.

Acho que ainda há um exemplar no Fundão





"É simplesmente irresistível, como confessou Howard Dean no Porto durante o congresso do Partido Socialista Europeu: “fez um discurso muito bom e, aliás, tem uma presença fabulosa”. Pois tem. Ségolène Royal não passa de uma mulher, tanto para ser idolatrada como questionada sobre a sua capacidade de gestão por estar condenada a fazer o jantar, pôr a mesa, mudar as fraldas e dar ordens à mulher-a-dias"