Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

MADRID E OS REIS

«Fea, pobre y portuguesa. ¡Chúpate esa!». Assim se mofava o povo de Madrid quando conheceu o nome da que seria a segunda mulher do rei Fernando VII, Isabel de Bragança. Filha do nosso João VI e sobrinha do seu próprio marido, Isabel não só era conhecida pela carência de beleza, formosura, bom gosto, elegância, graça ou inteligência, como também pela majestade da sua realíssima cornamenta. Uma desgraça, enfim, essa nossa delegação diplomática no país vizinho. Por sorte para a pobre senhora e para a imagem de Portugal, em três anos morreu, deixando o rei sem descendência e na obrigação de arranjar outra herdeira de pedrigree nobiliário, talvez mais apta para a reprodução e as lides de cama e que não causasse nos súbitos liberais monumentais ataques de riso na Praça de Oriente. Escolheu o monarca, fazendo gala do bom senso de quem só frequenta bordéis e corridas de touros, uma criança de quinze anos, alemã e virgem, com fantasmagóricas versões sobre as obrigações conjugais ensinadas por freiras apocalípticas e cuja performance na noite de núpcias roçou por momentos uma hilariante escatologia, misturando a adoração do Terço, espasmos, lençóis urinados e um rei histérico exigindo por carta ao Papa uma solução a tanta falta mística de coito: «¡O yo jodo de una vez con esa pazguata o que el Santo Padre anule mi matrimonio!». Esta também morreu. Sem filhos. Fernando 3 – Elas O.
E os madrilenos ficaram órfãos de uma monarca a quem dedicar operetas de escárnio, pasquins com caricaturas e filhos ilegítimos. Porque Madrid foi, é e será essa tia solteirona, sempre perto do alcoolismo, seca, bem vestida e com idade suficiente para falar mal dos outros. Madrid não respeita coroas, mas não pode viver sem elas. Fernando VII finalmente encontrou uma rainha à altura, que lhe deu duas filhas e se apoderou da regência do país. Graças a Maria Cristina, Madrid desfrutou da estrambótica figura de Isabel II, rainha, segundo o historiador José Luis Comellas: «desenvuelta, castiza, plena de espontaneidad y majeza, en el que el humor y el rasgo amable se mezclan con la chabacanería o con la ordinariez, apasionada por la España cuya secular corona ceñía y también por sus amantes». No universo mental do português actual, esta Isabel seria o resultado de clonagem do Alberto João Jardim, o Telmo-recruta e a doce irmã Lúcia. E Madrid vibrou com esta rainha, adolescente na cabeça e com o apetite sexual herdado no sangue borbón. Valle-Inclan desejou-lhe o exílio, o povo contava-lhe os amantes enquanto depositava naquela benfeitora com pouco alcance intelectual as esperanças democráticas de um país que ainda aprendia a brincar aos parlamentos. Quando Madrid se fartou de folhetins e de uma corte onde habitavam bruxas, santeiros e um rei paneleiro bastou-lhe expulsar Isabel II para os confins do esquecimento colectivo. «Y se armó la Gorda». Ou seja, a República.
Desde que Madrid é capital das Espanhas não há geração de poetas, pintores, músicos, dramaturgos, talhantes e condutores de coches com ou sem motor que não tenham feito da Monarquia motivo de chacota. As crónicas do Rei Enfeitiçado, as aventuras da Duquesa de Alba, a alcunha de «Pepe Botella» ao irmão de Bonaparte, a depressão de Afonso XIII: a cidade não resiste a uma boa cusquice, à zombaria mais ácida proporcionada pela por vezes excessiva proximidade dos monarcas que não tinham pudor algum em exibir dramas familiares, infidelidades e vícios demasiado niveladores. Lady Di, ao lado destes reis e respectivos consortes, amantes, conselheiros, desvio de dinheiros públicos, corrupção e bastardos, mais se parecia a Maria Von Traap, aquela noviça armada em agitadora social nos Alpes. O génio de Madrid, como o da nossa tia alcoolizada, recai no sentido de humor, na gargalhada sarcástica que teorizou a Zarzuela, reiventou o chotis e caracteriza anualmente os quadros de Goya como mais uma tradição popular irremediável. A Joaquin Sabina, poeta da movida dos oitenta rentabilizado pelas discográficas e saudosista da República, não se lhe caíram os anéis por partilhar mesa e talheres com os actuais Príncipes de Astúrias e em conjunto com os intelectuais menos monárquicos da cidade publicou um poema corrosivo, inteligente e carinhosíssimo em honra da futura rainha: «Las faltas de ortografía que desdeña la poesía a mí me la ponen dura, y esa zeta de Letizia es la falta y la delizia de una carizia madura».
Esta desvergonha tão castiça, esta sobranceria popular de quem tem os reis ao virar da esquina e que fez que Madrid idolatrasse uma rainha como Isabel II e fizesse da vida de José I uma galhofa constante, é um dos rasgos mais encantadores da capital desta Espanha em mutação constante, favorecido pela tradição da taberna, de passar o dia na rua, dos passeios pelo centro e da vida fora de casa. Enquanto os madrilenos sobreviverem ao complexo do centro comercial alcatifado e sem ruídos, a ousadia estabelecerá as normas de protocolo com uma casa real que se precisa com poder de encaixe e próxima do quotidiano dos madrilenos. Sem convulsões, mas com lucidez. «¿Por qué carajo te escribo? First of all porque estoy vivo y no me pienso morir», cantava Sabina a Letizia. Em outras palabras, porque assim é Madrid.

(uma das minhas crónicas favoritas publicadas no DNA)

Etiquetas: , ,

DOIDA DE AMOR



... Mas a Joana de Castela o que a perdeu foi a sinceridade das vísceras, esquecendo que esta naturalidade no sentir serviria como argumento perfeito de ataque aos seus inimigos políticos (começando por Felipe, o Belo): a feminidade no seu esplendor, reflectida na suposta incapacidade de toda mulher para dominar o útero, as hormonas e as emoções mais básicas. Hoje trataríamos a loucura de Joana com pastilhinhas às cores e um par de visitas ao terapeuta, mas não deixa de ser curioso ver como passados quinhentos anos as mulheres continuam a ser questionadas pela falta de controlo ou serenidade, como se nos faltasse o parafuso do sentido comum por oposição aos cabais homens...

Sobre Joana, a Louca, na coluna "Mulheres à Solta" da Revista Atlântico de Março.

Etiquetas:

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

A MELHOR DA NOITE



Little Miss Abigail Breslin. Afinal não queremos todas ser princesas?

OSCARES 2007: TRAMBOLHOS D'OURO

Beyoncé



A Rititi, o blogue, a cueca e touro dos tomates cor de rosa gostariam que alguém lhes explicasse esta ordinarice. Onde é que a moçoila arranjou o sapatinho? Nos saldos da maconde?? E que merda é essa que leva ao peito? A banda de Miss Pirosa Reboleira? Cristo, que cabelos, que nojeira de ar mais triste.

Anika Noni Rose



Aqui, em directo para Mundo, a protagonista de uma série de televisão dos oitenta. Ou a empregada da Beyoncé. Ou uma desgraçada a quem meteram num saco de plástico brilhante e ameaçaram de morte. Uma terrível combinação de mau gosto, miopia e falta de nalgadas em criança.

Jennifer Hudson



A irmã da empregada da Byoncé.

Faye Dunaway



Esta querida, como não tinha nada para vestir, deu um jeito às cortinas da funeraria do tio e, sem ir à cabeleireira do bairro por falta de tempo, apareceu assim de desgraçadinha na cerimónia. A idade, querida Faye, não nos faz nem mais espertas nem mais bonitas. Jasus, que susto!

Kirsten Dunst



Isto não tem explicação. Estou chocada. Alguém me traga um quilo de erva.

(Blogue Rosa Cueca: um clássico da má lingua)

Domingo, Fevereiro 25, 2007

BAD, BAD GIRL



Sara da Pin Up. Ui.

Meninas bonitas, mal-faladas, descaradas, sem uma pisca de vergonha na cara, boazudas e com muito pouco tempo para se deixarem perder nas lenga-lengas das histórias de amor empacotado no cimena do centro comercial. Um mundo em feminino e sem lacinhos, sem final feliz, sem cavaleiro salvador, sem adoçantes para alisar as arestas do quotidiano. E em espanhol. Já não era sem tempo.
(Sim, eu sei, tudo isto vem na estela da suprema Mala Rodriguez, rainha do suburbano, letrista portentosa, recém parida e a cozinhar o seu terceiro album. Avé.)

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

O QUE TU PRECISAS SEI EU



(A canção de amor mais bonita da história cantada por uns gajos muito drogados)

Mr. Pinheiro, sentado no Sir Alfred, zappeando pela triste realidade televisiva espanhola. Aqui entre o leitor de sexta-feira e eu, é bonito este homem. Mais que as costas, os lábios, as formas ou o caminhar, há uma surpresa diária neste meu homem que me tem completamente agarrada, mais que ao uisque ou o ensopado de borrego da minha mãe. Sim, isto é amor do bom, caro leitor aborrecido com o quotidiano que deu um salto à blogosfera para passar este tempo que tanto custa, um amor aparvalhado, de beijar o chão por onde pisa, de ficar feita tonta com o olho posto nele enquanto lê. Este homem, que tem um nome que aqui nunca digo, fez-me atravessar fronteiras e abdicar do que não importava, porque sim, porque não tinha mais hipóteses se queria continuar a respirar. O leitor sabe que por vezes a comida não nos chega para estar vivos, oxalá isto fosse só dormir e cagar. Mas não, falta-nos esse aconchego de sentir-nos queridos na cama e aí não importa nada, senão o nós construido do e com esse outro. E vê-lo, sentado, quieto, silencioso leitor, orgulha-me por osmose. Pois.

RITITI EDUCA O POVÃO: USHUAIA



Este gajo está sentado no meu sofá e daqui a umas horas vai apanhar um avião, caminho da Argentina. Diz que passará quatro dias em Buenos Aires, depois três em Ushuaia, mais uns quantos en Punta Arenas, Puerto Montt e Santiago, no Chile, e finalmente, mais uma semana em BA. O cabrão. E eu lembro-me de uns vinte e tal dias, há 5 anos atrás, em que a minha vida virou ao contrário e falei espanhol com sotaque italiano enquanto viamos como a Argentina caía nos oitavos no Mundial de Futebol do Japão. Sim, eu estive lá, na Tierra del Fuego, a ver glaciares, focas e baleias, a patinar sobre o gelo, a comer cabrito fueguino, a tentar esquiar, a lamber-me por uma sopa de caranguejo num restaurante de madeira, a ser feliz tão longe de tudo, na cidade mais austral do mundo. Tenho uma vida bem boa, agora que penso nisso.

QUERO A MEU VANITY FAIR, JÁ!!!



Ou o meu quiosqueiro José se despacha ou ainda me dá um badagaio. Como pode uma suposta urbana sibarita estar na moda sem a sua bíblia mais sagrada? Como, meu Santo Tom Ford, poderei sobreviver ao tédio vital sem as divinas páginas capazes de mistificar as viagens matinais no autocarro 52? Oh, terror! A minha vida é patética.

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Outro feio giro para a Luna



Oscar Jaenada

SANTA ESTUPIDEZ JORNALÍSTICA, VALHA-ME NOSSA SENHORA DA CORNAMENTA

Caro João Pedro Fonseca, Editor do Cidades do DN e, já agora, estimada Senhora Jornalista Sónia Correia dos Santos:

- A Praça de Touros de Lisboa chama-se Campo Pequeno. A única Monumental está em Madrid e chama-se Las Ventas.
- A Jornalista Sónia relata exactamente um concurso de quê? Novilheiros a cavalo ou a pé? Já tomaram a alternativa? E se eram matadores, morreram os touros e foram todos presos? Havia prémio monetário ou apoderamento especial?
- Já agora, de que ganadaria eram os touros? Não se informa já da tipologia ou idade das reses? Eram nobres, mansos, bravos, algum defeituoso, bem apresentados, afeitados, bons, maus, encastados, com trapío ou sem presença?
- Qual foi o prémio atribuído pelo público a cada toureiro (ainda estou sem saber se é novilheiro ou matador): volta, ovação, apitos, silêncio?
- A jornalista Sónia pode precisar o que é "muito público"? Dois terços? Meio aforo? Não há bilhetes?
- Quem apodera os (acho eu) novilheiros? Foi uma corrida com ou sem picadores? Quem exerceu de "inteligente"?
- Que tipo de faena é, jornalista Sónia, "uma lide brilhante, com passes originais e criativos"? Houve tercio de capote, sorte de varas? Os touros foram recebidos em porta de toriles, por gaoneras? Houve quites? Quem pôs as banderilhas, os próprios ou a quadrilha? Pode explicar ao leitor se o touro humilhava ante a muleta, se os passes eram longos, em frente a que tendido foram toureados? Que tal descrever os muletazos, pases de pecho e molinetes? A morte, simulada, foi ao natural? Houve avisos?
- Gostei especialmente da importância dada pela jornalista Sónia aos "olés", "Aí touro, venga", "los pasodobles", que resume na perfeição a ideia que tem a cronista do mundo do touro, da corrida, dos tempos, dos tercios, dos ritos e da tradição centenária.
- Aproveito para recomendar à jornalista Sónia que evite escrever sobre touros como se fosse uma analfabeta funcional ou, directamente, imbecil. Penso que na TV Guia há sempre trabalho. E ao Senhor Editor da Secção Cidades, por respeito aos aficionados, amantes da Festa e portugueses em geral, aconselho que se abstenha de publicar estas barbaridades que ofendem a inteligência de qualquer leitor que compra o jornal para estar informado e não para que lhe contem pamplinas mal escritas e sem sentido nenhum.
Que o DN não tenha a decência de procurar um jornalista que saiba relatar uma corrida de touros não só é penoso e patético, como também revela a classe de jornalismo de pacotilha (e de agência e estagiário) que impera nas redacções portuguesas. Mais valia não terem escrito nada a fazer esta figura triste e tão insultuosamente pobre para a Tauromaquia portuguesa. Que vergonha, é o que é.

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

O QUE SOMOS

Desde o computador observo na estante da sala uma composição de fotos que a minha irmã me ofereceu quando fiz 30 anos. Vinte fotografias da minha cara resumem quase toda uma vida. De bebé amoroso a mulher inteira. E no centro do collage, quatro estampas da minha adolescência. Não sei se poderei explicar quão nesfasto é o efeito óptico: aparelho nos dentes, uma franja incompreensível, brincos de dimensões apocalípticas, enchumaços e losangos, óculos escuros que nem na época estavam na moda, camisas de folhos e um sorriso do mais patético. Toda eu, nariz e boca e complementos horrendos, na sala de casa a receber a visitas. Nem sei porque me incomodo em mascarar-me de boazuda todos os dias.

GANDA SISSI

Um beijo, querida, pela referência no programa na Antena 1 do Pedro Rolo Duarte mesmo que te estejas cagando para os linques e afins.

Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Para dias de ressaca e sofá a dois

CONTIGO

¿Mi tierra?
Mi tierra eres tú.

¿Mi gente?
Mi gente eres tú.

El destierro y la muerte
para mi están adonde
no estés tú.

¿Y mi vida?
Dime, mi vida,
¿qué es, si no eres tú?

Luis Cernuda.

Para dias de ressaca e sofá a dois II



Bach - Magnificat

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Esta custou


Maria Isabel - Antes muerta que sencilla

Estava difícil, Francisco, encontrar algo tão tenebroso como o vídeo da Ana Malhoa a berrar dale un latigasssso, castígala, toma, toma. Juro que quase me engasgo dos afrontamentos causados pelo maillot rosa-vaca e sus bailarinas calentorras como perras en celo. Até que pensei na Maria Isabel, aqui tão querida, tão vedette infantil, tão vencedora de concursos para pais que não querem trabalhar e tão promissora cantora pimba-afrodita cujo futuro se escreverá, não tenhas dúvidas, nos palcos dos mais afamados puti-clubs da rede de autóstradas ibéricas. Este, Francisco, é o começo de todas as anas malhoas do mundo. 1-1.

A BARONESA DA ARTE

Como separando as salas P e O do primeiro andar do Palácio de Villahermosa, foi pendurado um quadro de um barquinho chamado «’Martha McKeen’ de Wellfleet». O azul do mar retratado contrasta com a versão nocturna que de Nova Iorque tem Geogia O’Keeffe e a orgia de cores da «Grande Portuguesa» de Delaunay, ao tempo que o rosa pálido das paredes realça a calidez dum quadro que quase me fez chorar a primeira vez que o vi. A partir desse dia venerei Edward Hopper acima de todos os pintores deste mundo (excepto Velazquez, cuja genialidade só pode ser fruto da passagem de extraterrestres pelo planeta Terra) e rendi-me à evidência de que só um pintor puramente citadino é capaz de captar com tanta emoção uma tarde passada num barco à vela. Esta delicia de obra de arte pertence à colecção de Carmen Thyssen - antes Tita e Miss Catalunha e hoje Baronesa pela graça do matrimónio e muito olho para o negócio - e descobriu-me um refúgio para escapar à fúria natalícia madrilena. Um museu é o único antídoto contra a repetição intensiva do pero mira como beben los peces en el río por ver al Dios nascido, o contrabando de Lotaria de Navidad na Gran Via e os anúncios de turrão que só se come quando o filho vuelve a casa vuelve en Navidad. E a quinze minutos da minha casa, no Passeio do Prado há três oásis de sossego e bom gosto: o Prado, o Reina Sofia e o Thyssen-Bornemisza, o meu favorito por tamanho, temática e mecenas, a Carmen Cervera.
Tanto me impressionou o «Marta Wellfleet» que quando cheguei a casa enviei um e-mail à Baronesa onde não só me apresentei como a presidente honorária do seu clube de fãs, como lhe jurei amor e agradecimentos eternos por ter trazido esta soberba pinacoteca para Espanha, além de lhe oferecer o meu improvável primeiro filho se me permitisse estar uns minutos a sós com o quadro, em silêncio e sem turistas chineses à minha volta. Claro que nunca me respondeu. Devia estar a inaugurar alguma exposição no MOMA, negociando a compra de outro Gauguin por uma barbaridade de milhões de contos ou a tentar que o filho emagreça e deixe de ser a chacota das revistas do coração. Mas a minha admiração mantém-se. Sem ironias ou a má-lingua característica da aristocracia espanhola que não compreende que uma antiga capa da Interviu tenha feito mais pelo património artístico e cultural espanhol que gerações de apelidos intermináveis que só lapidaram fortunas. Esta ex-viúva, ex-miss, ex-personagem de terceira categoria social, ex-degenerada, ascendeu no escalão das celebrities nacionais, casando-se com um homem que temia morrer sozinho e abandonado por um punhado de filhos sem mais amor que à fortuna centenária dos donos dos elevadores mais conhecidos da Europa. Pôs ordem na herança, vendeu por uma pechincha (250 milhões de Euros) a melhor colecção pictórica privada do mundo ao Estado Espanhol e depois enterrou o Barão com lágrimas e vestida de rigoroso luto.
Esse foi o único dia em que esta mulher foi respeitada pelos meios de comunicação que fazem eco do desporto nacional preferido: a inveja. Porque ela? Que tinha esta quarentona estragada e sem mais bagagem conhecida que um filho sem pai para apaixonar essa grande fortuna chamada Hans Heinrich Thyssen-Bornemisza? Como se atrevia a apresentar-se em público como uma aristocrata «de verdade», ela que não passava de uma oportunista, mais esperta que a fome, uma pirosa de bairro mascarada de diamantes e Chanel? Porque aunque la mona se vista de seda, mona se queda. Talvez seja por isso que raramente a Baronesa pisa solo madrileno, deixando-se ficar pelo sossego da brisa catalã e a retrospectivas de Sorolla nos museus de Barcelona. Dizem que se sente menosprezada na capital, que lamenta que ninguém lhe reconheça os méritos de mecenas e que já está farta de que nem Rei lhe conceda um título nobiliário como deve ser, castelhano, pomposo e com pedigree suficiente para calar as línguas viperinas das marquesas locais. Claro que Carmen é catalã e está mais habituada à fina snobice burguesa que à sobranceria da nobreza antiga. Esta Cindarela com passado, mulher pública durante os anos oitenta e cujo corpo apareceu nu nos tenebrosos filmes do destape dos tempos pós-franquistas com pretensões de modernidade, não só desrespeitou as normas de ascensão social, como representa o tipo de mulher que não se envergonha das camas onde acordou e talvez esteja orgulhosa de ter sobrevivido aos dias em que o pão se ganhava onde houvesse trabalho.
Carmen Thyssen assusta pela valentia da fêmea que não esconde a cara, mesmo sabendo que mesmo atrás de si há alguém com o dedo assinalando, recordando aos presentes o passado que nenhuma mulher deve ter para ser respeitada e respeitável, uma senhora que nunca deixar ficar mal o marido em actos públicos e vai sempre bem penteada. Por acaso a Baronesa pinta o cabelo em casa. E rói as unhas para depois aparecer na Hola! com anéis de três quilos nos dedos. A mediocridade não suporta a falta de modéstia dos que foram pobres, o andar altivo da mulher que não se arrepende pelos erros e as rugas provocadas por copos a mais e amantes errados. Os medíocres, invejosos por natureza, ainda se perguntam como conseguiu uma Miss Catalunha ser dona do «’Martha McKeen’ de Wellfleet» de Hopper para depois o pendurar num museu para desfrute dos outros.
(Publicado em Dezembro de 2005 no DNA. Que saudades, Pedro)

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

A MINHA TIA DINHA É MELHOR QUE A TUA

http://www.agoravox.fr/IMG/CharlieHebdonunef.jpg











"Na próxima quinta feira, dia 15, em Paris, será lida a sentença do julgamento de Phillipe Val, director do semanário humorístico Charlie Hebdo, acusado por organizações islâmicas francesas de racismo e injúria à religião porque o jornal publicou, no ano passado, algumas das caricaturas dinamarquesas de Maomé.

O Charlie Hebdo, nascido do Hara Kiri onde tantas vezes Wollinsky e Reiser nos fizeram rir com os seus desenhos a gozar com tudo e todos, não deixou passar mais uma ocasião de voltar a gozar, agora com a fúria islâmica àquilo que para nós, ocidentais, é do mais sagrado que há - escrever, desenhar, rir, sobre que nos apetecer.
Desde o 11 de Setembro que Philippe Val tem tido sempre uma postura firme e corajosa contra a "onda" politicamente correcta e revoltante que percorre a Europa, de desculpabilização dos actos terroristas perpetrados por islamitas radicais e de culpabilização do "Ocidente" e, sobretudo, da América, pela "raiva legítima" que levará a tais actos. Sempre se insurgiu contra a "esquerdalhada" que anda de braço dado com os seguidores da ideologia mais bárbara e reaccionária que hoje (como ontem, quando se davam tão bem com os nazis) que grassa pelo mundo. O seu julgamento é também o julgamento da nossa liberdade e civilização. Espero que a barbárie não vença!"
(I. Barata Silvério, a contribuir para o Abrupto)

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

A MULHER QUE EU QUERO SER


Maria Jimenez - Me muero

Não mantém os joelhos juntos nem a boca fechada. Não se sente elogiada pelo assobio anónimo, não espera que lhe abram a porta, não quer bombons em são valentim, não pinta o lábio para ninguém e não ganhou apelido por contrato. A mulher que eu quero tem um homem de mesa, caminhos, viagens e beijos. A mulher que eu quero ser chora em público e ama com o corpo todo e usa as palavras inteirinhas sem que lhe assuste o eco nos ouvidos dos outros. A mulher que eu quero ser tem um livro para ser senhora escrito à porta dos bares a horas tardias, porque é de copo na mão que se aprende de boas maneiras e de respeito. A mulher que eu quero ser já sou, e gosta de se olhar todos os dias para o espelho, logo de manhã com as ramelas pegadas, nua e sem mais vaidade que a de um corpo que se gasta com o uso diário de estar viva e querer ser mais feliz.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Já começou o Castigo Divino?




Sismo abala Lisboa e Sul do país

Domingo, Fevereiro 11, 2007

Respostas aos elogios blogosféricos em campanha pela Vida



Alaska y Dinarama -A quien le importa

Esta ignorante empírica, histérica, um aborto mal feito, a vergonha de Portugal, de um marido humilhado em público e de qualquer mulher decente por causa do linguajar vulgar, deshonesta, menina da noite, esta gajinha hipócrita e egoísta que não aceita o corpo que Deus lhe deu, filha da puta, aliteração chapitôniana de mulher (esta achei especialmente boa), dona de um ódio viperino que urge regorgitar, cocainómana, amargurada com a vida, feminista passadista e rebarbativa que nem sabe o que é ser mulher, feto de cegonha, esta rameira que ficou grávida num estado de profunda bebedeira só tem uma coisinha a dizer: fodei-vos!

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

E hoje faço 32 anos


(La Terromoto de Alcorcón)

Taime gous bai, sou eslouli. Nem por isso. Mas sou muito feliz. E além disso ganhei uma bicicleta.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Rita Player foi actualizado!!



O melhor DJ da blogosfera, o Grande Kid Bongo, está de volta, e com ele Kaiser Chiefs, Beck, The Strokes, Artic Monkeys, Muse e uma carrada de GUITARRADAS IMBERBES. Digam lá: "No meu A3 é que esta chinfrineira não tocava!"

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

TENTATIVA DE SOTAQUE BRASILEIRO



A garota mais lindona do país tropicau mi pergunta, ué, si eu tenho segredinhos. Oba, eles mi sobram, mulé!

- Ocê sabia qui passo horrores vendo filme di morto, espírita e assombrado? Nem consigo ir ao banheiro sozinha: penso qui demônio maligno vai sair do espelho pra mi levar pro mais escuro dos inferno; imagino cadáveres dentro do chuveiro, lagartos saindo do wc. Triste, bem sei, mas é bem pior roubar qui dizer verdade.

- Uma veiz, sendo moleca, encontrei uma revista de muléris nua na casa de um amigo dos meus papais. Desmaiei, imagina, não de ver tanto pêlo escuro no meio da entriperna daquela goiaba com cara de fome, mais de pensar qui a minha passarinha si iria transformar em algo muito parecido a um animau pré-histórico.

- Num deveria contar este segredo, pois uma diva assim como a genti, querida Ticcia, deve estar por cima de todo defeito físico. Mas ocê pergunta e não dá pra mentir a istrela da nete como tu: tenho um calo no pé isquerdo que me istá matando de dor, dente traseiro cariado e um cabelo qui pra estar de espetáculo na foto precisa de arranjo semanal. Nada di mau: defeitos em nóis dão charme e pitadinha de humor na poesia.

Querida, tentei falar assim como ocê, mas isto, sem trópico nem cachaça, mi faz sentir bem ridícula (olha, outro segredo!)

Etiquetas: , ,

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

ÉRAMOS POUCOS...


e chegou o blog da Victoria Beckham.

Não percam este brilhante exercício de literatura em estado puro (People in the street have been calling out things like "Welcome Home, we're so excited you're here"), as fotos da blogger no seu jete-sete privado, as confissões sobre as compras em LA, a nova colecção de óculos e calças...
Um must e a dignificação definitiva da blogosfera. Sim, porque isto está cheio de gente feia.

Domingo, Fevereiro 04, 2007

FIM DE SEMANA NA CASA DA MAMÃ


(Con las manos en la masa, mítico programa culinário da minha memória post-infantil)

Muito mimo, muito amor e o saldo final na mala do carro de regresso à capital: um painho, uma linguiça, dois pães alentejanos, cinco queijinhos de ovelha, um saco com couve para o caldo verde (já ao lume, nestes momentos), um taparuere com cachola (nham, nham, sangue de porco e rodelas de laranja), quatro maços de SG Ventil, saladinha de feijão frade com a sua cebola, o seu atum, a sua salsa e temperadinha a rigor, massa de pimentão (ai, que entrecosto que cai amanhã...), poejos para a sopa de cação que vou fazer para os meus anos e um molho de agriões. Porque uma gaja nunca é grande em casa da mãe.

Sábado, Fevereiro 03, 2007

RITITI EDUCA O POVAO



Estrella Morente - Zambra

Mulher de raça, voz divinal, talento e juventude. Este é o flamenco que vale a pena estudar, comprar e adorar.

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

Rui Pelejão, querido, tenta só uma vez



«Porque há coisas que não se dizem, que deveriam ficar para a eternidade no martírio íntimo de se ter de viver para sempre com um segredo que a ninguém lhe deveria interessar porque, afinal, o aborto é coisa de mulheres. Como a violação. Como a violência doméstica. Assim foi sempre. E recordando todas as barbaridades que ouvi e li nos últimos meses, assim deveria continuar a ser para essa tão boa gentinha indignada com a publicidade dada a um segredo que todos partilhávamos. As mulheres voltarão a ser discretas, a não levantar a voz, suportando nas ancas, como se espera de nós, a casa e os seus pesares..»

Conversa de Gajas, na Atlântico deste magnífico mês.

Pronter, já estou aqui


(imagem
daqui)

O povo unido e o caneco.