Domingo, Julho 29, 2007

AVISO URGENTE: PROCURO AMIGOS COM PISCINA.



Duvido que sobreviva a outro dia de piscina pública madrilena. Demais para o meu body, tú, a visão de pelos púbicos a saírem de fatos de banho, varizes por todos os lados, tatuagens com erros ortográficos, ordinarice e mau gosto aos quilos, famílias com lancheiras e sandes de courato, engate com o socorrista e demais comportamentos típicos da classe operária. Lamento, mas não nasci eu para amar assim tanto o povão em geral.

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MAIS ATLETI


Simão em lágrimas na despedida do Benfica

Sem chegar, como o Bernardo Pires de Lima, à demissão colchonera, só posso dizer ante tanta emoção choraminguinhas do Simão, que se este ser vai começar assim a temporada mais vale torcer já o tornozelo e deixar a afición sossegada. Como se não nos bastassem todas as desgraças, a falta de pontaria, a demolição do Calderón, ainda temos que levar com paneleirices. Qué coñazo de tío, la virgen...

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Sexta-feira, Julho 27, 2007

O cantinho da hooligang ©



De Perna de Pau no Passeio dos Melancólicos

Madrid, Paseo de la Castellana: arranha-céus que da altura dos seus trinta andares observam a cidade, vaidosos no domínio das finanças e dos dinheiros da pátria; palácios senhoriais que se resistem a ficar no passado, albergando bancos e consultoras internacionais; tascas, bares e discotecas que exercem como montras de novíssimas tendências: seis quilómetros de demonstração de poder económico, social e arquitectónico. E lá ao fundo, ergue-se, sobranceiro, o Estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, clube de clubes, vinte e nove vezes campeão da Liga e nove da Liga dos Campeões, fábrica de vencedores, firmamento onde brilham estrelas-deuses com fama interplanetária e fortunas asquerosamente inquantificáveis. O Real Madrid até parece uma central eléctrica, porra, tal a maneira de brilhar das estrelas, dos carros das estrelas, das jóias das estrelas, dos contratos publicitários das estrelas, das barbies recauchutadas que se passeiam com as estrelas... Glamour associado a golos, reinvenções futebolísticas para o século XXI.
Quando uma emigrante procura desesperadamente a verdadeira e rápida integração social, o futebol é o caminho mais rápido. E eu decidi, com a inocência de quem considera o fora de jogo um dogma de fé, ser sócia do Real Madrid porque, claro, não há clube mais perfeito que o que nunca perde. Como se pode apreciar, esta era a primeira vez que me decidia a pôr os pés no Clube dos Amantes Incondicionais e Fanáticos da Bola. Mas para uma portuguesa habituada aos eternos fiascos da selecção nacional, viciada na saudade e na sardinha assada com pimentos, tanta ostentação de riqueza até parece mal. Que mania esta de querer ganhar tudo, bolas, que falta de humildade ante a hecatombe do empate, que cagança, nem que Figo, Ronaldo e Beckham mijassem Chanel n.º 5. Não rima sobranceria com lusitanidade.
Desolada com a ideia de nunca poder vir a ser confundida com uma indígena, por pouco me entregava ao vício do bagaço português se não fosse a visão tenebrosa que a Marisol teve do futuro que me esperava: deitada no sofá, cantando fados de garrafa na mão, a gata Lucrécia alcoolizada por osmose, e o meu coração destroçado por nunca encontrar um clube de futebol pelo qual derramar lágrimas ao domingo. Num acto de generosidade incomparável, a gestora da higiene do meu lar abriu-me as portas à luz da Verdade, justificando pela primeira vez os dois contos que lhe pago à hora. Com a promessa de permitir a minha assimilação com os locais, a minha mulher-a-horas convidou-me para um jogo de futebol. Só que o protagonista do espectáculo era o outro clube de primeira divisão da capital: o Atlético de Madrid.
Equipada com cachecol branco e vermelho, boné a condizer e um «bocadillo de calamares» oleoso dentro do casaco, acompanho a Marisol à bola. As primeiras vezes devem ser inesquecíveis, diz-me a boazona da Marisol, e obriga-me a aprender o hino do Atlético em dó menor. «Yo me voy al Manzanares, al estádio Vicente Calderón, donde acuden a millares los que gustan del futbol de emoción». Pura poesia. A paisagem urbana a caminho do estádio ganha as tonalidades do bairro operário onde se enquadra. Os grandiosos edifícios financeiros são substituídos por blocos de cimento próprios da classe média-baixa; em vez de executivos apressados avistam-se grupos de donas-de-casa com bandeiras e senhores de fatos de treino e rádio pegado à orelha. Fábricas à volta, um rio ao longe e uma paragem obrigatória para abastecer a alma de cerveja.
Entre pevides e goladas rápidas para não chegar tarde ao jogo, tento explicar aos outros clientes que também vão mascarados de gelado Perna de Pau que realmente não há diferenças entre um clube e outro, que afinal o Real e o Atlético são fruto da mesma necessidade de pertencer a uma comunidade maior que grita anonimamente por penalties que não existem. Não tenho amor à vida, pelos vistos. Patética a imagem de uma portuguesa escondida na casa de banho dos homens a fugir da fúria de centenas de «colchoneros». Ser «atlético», explicam-me depois de ter pago uma rodada para sossegar as hostes enraivecidas, é uma maneira de sentir que parece não ter explicação no mundo da lógica dos incrédulos futeboleiros.
É sentir-se de Madrid sem a arrogância da Castellana, é entender que a vida pode ter mais derrotas que vitórias e que até sabe melhor assim. É esperar que um dia nos toque a sorte grande para poder mandar o patrão às urtigas e levar a patroa a jantar fora a um sítio finório. É ser estranho em terra de ricos mas orgulhoso de que nunca falte o pão na mesa. É pensei, o mais próximo de Portugal que podia estar. Afinal, depois de tanto tentar ser uma verdadeira madrilena, encontrei um clube de futebol que poderia ser da minha terra, aqui no centro da capital de Espanha e cujo estádio tem como morada o Passeio dos Melancólicos. Só não vê as pistas quem não tem olhos.
O Atlético, mais uma vez, perdeu o jogo em casa. Nem os gritos da tal «afición», nem a esperança de um dia poder ganhar outra vez uma taça, valeram. Mas ganhou uma nova sócia. Portuguesa, emigrante, mas do Manzanares, Atleti, Atleti, Atlético de Madrid...

(crónica publicada no DNa em Fevereiro de 2005 e dedicada agora ao Francisco José Viegas)

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Quarta-feira, Julho 25, 2007

Os casamentos são para o verão.
O convite



A estas alturas da história uma gaja só se pode considerar ser social se a meados de Maio já tem no mínimo cinco convites para bodas várias pendurados no frigorífico. Ex-colegas da faculade, a filha da porteira, esse gajo com quem bebiamos copos nesse tempo em que amanhã não havia que trabalhar, o primo em segundo grau do marido que vive no Luxemburgo e a quem nunca ninguém lhe viu a fuça, maltosa do trabalho, un puto coñazo, com todas as letras e a ruina total das férias, porque o povo quer casar no verão que é quando está bom tempo e as gajas podem ir todas descascadonas e com os pés à mostra dentro de horrendas sandálias prateadas. De convites de papel amarelo sépia com letras góticas aos modernaços que imitam maços de tabaco, os nubentes têm um mundo de possibilidades para anunciar ao mundo o feliz acontecimento que normalmente acontece numa quinta no cu de judas e sem táxis à vista lá para o interior do país. Agosto, saltos altos, Lavacolhos de Cima e centenas de desconhecidos mascarados de finos, que perspectiva fascinante, oyes.
Mas o que me deixa fora de mim, de boca aberta e com uma desculpa perfeita para poder baldar-me ao casamento é o último grito em convites: o número da conta bem escarrachapado entre o nome dos pais, dos filhos e da igreja, porque toda a gente é católica mesmo que nunca tenha ouvido uma missa na puta da vida. Mostrar o número de conta no convite é objectivamente mau, pirosão e triste, obsceno até, que queres que te diga e eu fico sempre com a sensação que estou a ser chulada por uns gajos que até podem ser meus amigos da alma mas que parece que aproveitam o casamento para comprar a televisão de plasma e a carrinha familiar. O que a gente precisa é de dinheiro, pois tá bem, mas que me expliquem quando se perderam as formas e o sentido comum e por que carga de água agora tudo se mede em euros. Juro que o que me apetece é oferecer um dálmata de porcelana, só para foder e para se deixarem de merdas.
(Continua que ainda não jantei)

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Segunda-feira, Julho 23, 2007

ISTO TAMBÉM É A RITITI
(sim, já estou na fase nostálgica)


Héroes del Silencio - Flor Venenosa

no encuentro palabras para decirlo
y a veces siento
que el pensamiento
es un idioma de signos ... sin sentido.
no siempre entiendo qué sucede conmigo
zarandeándome voy
hasta que caigo
terriblemente borracho.
tan solo déjame estar
un momento a solas.
tan solo déjame en paz.
este intervalo de tiempo
que siempre he estado perdiendo.
quizás en este precioso momento
pueda ser ...
como tú, como tú, como tú, como tú ...
prefiero explotar de tanto alcohol
con tu jarabe de flor venenosa,
y vender a una madre
por otra copa.
tan solo déjame estar
un momento a solas.
tan solo déjame en paz.
este intervalo de tiempo
que siempre he estado perdiendo.
quizás en este precioso momento
pueda ser ...
como tú, como tú, como tú, como tú ...

ISTO TAMBÉM É A RITITI


Héroes Del Silencio - Mar Adentro (1993)

y por fin he encontrado el camino
que ha de guiar mis pasos,
y esta noche me espera el amor
en tus labios.
de cada mirada, por dios,
ardía el recuerdo en mi interior,
pero ya he desechado
por siempre la fruta podrida.
en la prisión del deseo estoy.

y aunque deba cavar en la tierra
la tumba que sé que me espera,
jamás me vio nadie llorar así.
¡que termine un momento precioso
y le suceda la vulgaridad!
y nadar mar adentro
y no poder salir.
en la prisión del deseo estoy
junto a ti.

y por fin he encontrado el camino
que ha de guiar mis pasos,
y esta noche me espera el amor
en tus labios.
de cada mirada, por dios,
ardía el recuerdo en mi interior,
y nadar mar adentro
y no querer salir.
en la prisión del deseo estoy.
en la prisión del deseo estoy
junto a ti.
en la prisión del deseo estoy
junto a ti.

EU NEM SEI QUE TE DIGA

"Nuestros vecinos alegan razones prácticas, nada viscerales, para seguir siendo un Estado libre", escreveu ontem Miguel Mora, o correspondente do El País em Portugal na página 2. Assim. "Los portugueses ya no odian ni miran a los españoles con el rencor y los prejuicios de otros tiempos (..) y, aunque su economía depende en gran medida del comercio con España y adoran ir a Zara o El Corte Inglés, antes muertos que renunciar a la patria y la bandera para convertirse en una comunidad autónoma y fundirse en un país de 55 millones de habitantes llamado Iberia". Estúpidos de nós. Aliás, o grande tema dos debates parlamentares neste momento em Portugal é: "Portugal, até quando?" ou "Eu até curtia ser espanhol, mas agora renovei o BI e não me calha lá muito bem". O gajo percebeu perfeitamente a mentalidade portuguesa, não há dúvida. De facto, somos portugueses porque nos dá jeito, básicamente, ter um IVA a 21 por cento e uma crise do caralho. Mas em qualquer momento poderemos vir a mudar opinião e então, os dez milhões de portugueses que por razões prácticas continuamos presos a um estado soberano, iremos bater à porta do Juan Carlos, grande amigo do nosso Portugal, pedir-lhe que nos mude a certidão de nascimento e que nos faça espanhóis para poder comer calamares e gajas maquilhadas em Torremolinos. Porque a gente, no fundo, nem sabe muito bem como veio cá parar, se foi a cegonha ou se fomos cagados, o que é ter sentimento nacional, uma língua própria, uma fronteira, história e cozidos com farinheira. "Hoy, en el siglo XXI y gracias a la única ideología rampante (el mercado libre), España y Portugal están, paradójicamente o no, más unidos que nunca. (....). Pero ha sido tanto tiempo de desprecio mutuo que la idea sigue excitando a las personas." Concretamente ele. Uma reportagem a toda página sobre as reacções às cagadas de Saramago, que para Miguel Mora é o portavoz de um país de idiotas pobres que se casam com espanhóis e vão parir a Badajoz e que teimam em continuar independentes por razões prácticas. E não lhe dou um prémio vai ao cu a ti porque visto o panorama ainda me sequestram o blogue.

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Domingo, Julho 22, 2007

EL JUEVES, NA PRISA



El juez de la Audiencia Nacional Juan del Olmo ha ordenado, a petición de la Fiscalía General del Estado, retirar de los quioscos y prohibir la difusión del último número de la revista satírica El Jueves por un supuesto delito de injurias a La Corona. (20 de Julho no El País)

Como as injúrias ao sucessor da Coroa podem dar prisa, segundo a Constituição espanhola, e esta capa do El Jueves é, segundo o juiz Del Olmo, "claramente denigrante y objetivamente infamante", a polícia foi à redacção da revista, deu-se ordem de sequestro de todos os números e a página web foi fechada. Punto pelota, coño hombre ya, e assim se protege a dignidade da Casa Real, o cumprimento das regras democráticas e põe-se ordem neste país sem respeitinho por nada, sem norte, sem valores, ah pois, que alguém tem que parar esta rebaldaria! Que pouca vergonha, uma caricatura dos príncipes a foderem numa revista de humor... Mas quem se acham que são estes gajos? Humoristas?
Tiene cojones la cosa, sequestar uma revista a estas altura do campeonato, quando cada vez mais gente se questiona o papel e os custos da Monarquia, a figura do Príncipe, a nítida falta de empatia de Letizia com o povão e há mais contribuintes que se perguntam porque Espanha não pode ser uma república, um país sem rei e sem férias de barcos em Maiorca, caçarias na Romenia, baptizados reais e uma família numerosa paga por todos. A instituição sagrada em Espanha não é a Monarquia, é o Jueves e os seus trinta anos de humor, umas vezes ordinarote, com falta de gosto e pouco inteligente. E tocando o El Jueves, toca-se na liberdade de expressão e retornamos mais uma vez às caricaturas de Maomé, aos limites do humor e à suposta evolução de Europa onde tudo deve ser criticável, risível e motivo de troça pública. Sequestar uma revista porque o alvo da sátira é a Família Real obriga a repensar um modelo democrático que permite o insulto ao Papa mas que prende quem desenhar a Letizia de quatro, mesmo que seja (e é) claramente denigrante y objetivamente infamante". Fraco favor lhe fez à Casa Real o juiz Del Olmo, sem dúvida o mais republicano de todos os espanhóis.
Adenda: Mais capas polémicas de El Jueves

(E já que estão com a mão na massa, o juiz, o ministério público e os valedores da moral pública e das boas maneiras à mesa poderiam castigar, multar e perseguir todas as bestas que se enriquecem diariamente com o escárnio do outro, a mentira descarada e a pura difamação. Assim de repente lembro-me de pelo menos dez programas de televisão e uma mão cheia de revistas de vendas milionárias).

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Sexta-feira, Julho 20, 2007

HEROÍNAS DE PLÁSTICO
(post em trânsito)


Victoria Beckham estava um dia sossegada na sua mansão de cristal da Boémia e pilares forrados em ouro quando reparou que há muito tempo que ninguém falava dela. Ora bolas, que chatice. E sendo como é uma gurua da comunicação, chamou a si a imprensa e abriu a boca. A mulher é, no mínimo, um génio: bastou-lhe conceder uma única entrevista para voltar como a Rainha do Vazio Mental à ribalta do mundo do papel cor-de-rosa, sendo colocada de seguida nos cabeçalhos dos jornais e com o nome posto na boca de intelectuais de renome, pedagogos, editores de jornais e tertulianos vários. Para merecer tamanho protagonismo a fêmea com a cara mais encerada da Europa simplesmente teve de anunciar ao mundo que nunca, em toda a sua genial e completa existência, jamais, ever, leu um livro. Porque é uma canseira ser mãe, uma fêmea fabulosa, magra e depilada e, aliás, ser a imperturbável esposa cornuda de um dos homens mais desejados do universo da publicidade. Se esta mulher não é um génio da auto-promoção, então vive no eterno Mundo da Fantasia, junto da Cindelera e da Bela Adormecida.
E claro, perante tamanha declaração de interesses vitais, o Verão espanhol parou, escandalizado ficou o povo, horrorizados gelaram os cérebros da imprensa nacional: burra, frívola ou irresponsável pelo modelo que representa para milhões de adolescentes, a coitada foi vilipendiada, assobiada e com o nome transformado em sinónimo da estupidez mais profunda. Imagino o pasmo de Lady Becham ante tanta indignação popular: afinal onde está o mal de nunca ter pegado num calhamaço como Guerra e Paz? Acaso foi-lhe exigida a leitura das Memórias de Adriano quando a seleccionaram para integrar essa experiência kitsch e malcheirosa chamada Spice Girls, a embaixada da pirosice britânica de finais do século XX? Para quê tanta histeria, se nunca necessitou da leitura de Borges para se casar com o futebolista mais loiro do Manchester United e juntar em tempo recorde uma das fortunas mais colossais das terras de Sua Majestade? Se fechar os olhos, até consigo vislumbrar uma doce e estilizada Vicky, impávida e serena na Gucci da Calle Serrano num domingo qualquer, perguntando-se qual a urgência de ter um livro na mão se a vida se resolve a golpes de cartão de crédito. Isto tudo se a sua massa encefálica conseguir emitir um juízo de valor sem criar um curto-circuito no sistema nervoso.
Pouco me surpreende que esta Barbie recauchutada tenha alergia à literatura em geral, e se amanhã partilhar com o comum dos mortais que desconhece quem seja Cristóvão Colombo, Adolf Hitler ou até Jesus Cristo, mais não posso que confirmar o óbvio. Não que seja burra, o que não é necessariamente mau porque de mulheres parvas está farta de rezar a História, mas sim que para encher capas de revistas, ser recebida pela Rainha Isabel II, imitada pelas crianças com cultura de supermercado, perseguida por fotógrafos, basta ser podre de rica. Mais, nem lhe é obrigatório ser especialmente bonita, nem a rainha da elegância, ou doar umas massas de vez em quando aos meninos de África. Basta-lhe ser co-titular das contas do marido, ir a desfiles de alta-costura e gastar euros obscenamente.
Sem ofício mas com toda a classe de benefícios, a «cheerleader» da nova aristocracia iletrada é o paradigma duma classe de mulheres que apesar de viver no absoluto desprezo pelo conhecimento, o estudo e o pensamento crítico, são amadas, invejadas e proclamadas pelos media como novos ícones a imitar. Não são assim tão poucas. E que agora os profetas da cultura de massas se escandalizem, mais não aponta a hipócrita cegueira em que estamos metidos. Os novos ídolos femininos das adolescentes são analfabrutas totais, personagens de telenovela que se roçam em horário nobre, ignorantes absolutas que passam os dias nas compras para deleite dos paizinhos dos menores telespectadores; em Espanha aplaudem-se mais as mulheres que vendem o seu passado que as cientistas peritas em genética; Britney Spears pare em directo... Victoria Beckham é só uma consequência deste encolher de ombros geral perante a estupidez no feminino.
Para rematar a famosa entrevista, a «Spice Posh» confessa, de coração na mão, que adoraria ser mãe de uma menina: «para lhe pintar as unhas, maquilhá-la e ir às compras». Prevejo para potencial criatura de Deus uma infância rodeada de bonecas Versace, sapatinhos Dior, mini-ferraris e uma original permanente aos três anos, altura em que dará o primeiro exclusivo à Hello! Aos doze será apresentada em sociedade com vestido de Dolce & Gabbana do braço de Elton John, aos dezasseis namorará com o filho de um magnata do petróleo, e com vinte e três antecipo-lhe duas depressões, uma cura de desintoxicação de toxinas porcinas e um casamento frustrado. De Geografia, Álgebra, Gramática, Filosofia ou Física, pouquinho lhe auguro. Atrás, no escuro da História, ficaram as figuras de Leonor de Aquitânia, Cristina de Suécia ou Marie Curie. «Quem?», perguntaria Victoria Beckham. Pois é. Bem-vindas sejam, senhoras e senhores, as novas rainhas do mundo moderno, as heroínas de plástico.

(Crónica publicada no DNA em 2005)

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Quarta-feira, Julho 18, 2007

PÁRA TUDO, QUE O BLOGUE DELA FAZ UM ANO HOJE


Pin-up de Earl MacPherson

Parabéns, querida Ticcia, mulher imperativa. Tu sabes como eu gosto de ti, do teu blogue de madame, do teu poema remilgado, do sotaque brasileiro, da tua foto de Itacaré, da criada intrometida e até da receita de gaspacho. É bom ter gajas assim como tu no mundo, lindeza.
Notinha deprimente de rodapé: aqui no outro do charco é verão, mas as minhas férias acabaram. É fodido ser pobre e mais ainda que me obriguem a a cumprir horário de escritório para poder pagar os litros de uisque que tenho que beber para esquecer que trabalho. É injusto, bem sei, pois eu, aqui onde se me lê, tenho um perfil de milionária chupa-fortunas que te cagas. Por favor, que alguém me retire da miséria laboral. Agradecida.

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Terça-feira, Julho 17, 2007

E ASSIM, CAROS AMIGOS, SE ESCREVE UMA CRÓNICA
Vuelve el hombre, pela Grande Elvira Lindo.

"Tengo la teoría de que Los Soprano ha generado, en el inconsciente erótico colectivo, un nuevo ideal como objeto de deseo: el hombre grande, bisóntico, que vuelve a casa lleno de secretos y que tiene el miembro dispuesto a satisfacer a las mujeres del mundo, a la santa y a las churris; el hombre que lleva una pistola en el bolsillo; el hombre que se cree italiano, aunque nunca haya estado en Italia, pero ha conservado milagrosamente los gestos de sus abuelos y una nostalgia por no se sabe qué; el engullidor de pasta, de canolis (que son como los piononos granadinos, pero cinco veces más grandes); el hombre de modales rudos en la mesa; el que se pone la servilleta para que el tomate no le manche la camisa impecable; el que va a misa, le da un beso a su señora a la salida y se larga a echar un quiqui con una periquita; el que hace donaciones a organizaciones solidarias; el que, como decía el poeta argentino Raúl González Tuñón cuando la madre se le muere, le pone luto a la guitarra. Esa clase de individuo, con semejante sex appeal, se ha impuesto. Es un gusto que comparten el mundo gay y el femenino. El mundo gay ya había dado un paso adelante, instituyendo la categoría de oso como canon de belleza. Oso, mucho pelo, mucha carne, promesa de gruñido y de mordisco. Nada de mariconadas. Gandolfini era, pues, la materialización de ese ideal."

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Sábado, Julho 14, 2007

CORRENTINHAS DE BARRIGA CHEIA


Calle 13 - La Jirafa

Ora então está uma gaja de férias e a malta não pára de lhe fazer perguntas. Ao preço que estão os cyber cafés faço um dois em um, respondendo aos pares ao João Villalobos e ao Maradona, curiosos que andam por saber se me alimento adequadamente e quando bebi as minhas últimas cinco imperiais respectivamente. Para os inefáveis da vida em Rosa-Cueca eis aqui as minhas últimas cinco refeições regadinhas com umas impiris bem fresquinhas:
1 - Sábado, 14 de Julho: Caña de Cruzcampo com lascas de foi-gras no restaurante Doscar em Badajoz. Depois almocei secreto de porco ibérico com vinho tinto de Rioja. No fim, chupito de licor de ervas e siesta debaixo do ar-condicionado.
2 - Sexta, 13 de Julho, dez da noite: Acho que duas imperiais de Sagres a acompanhar uma simpática sapateira no Clube Naval de Vila Real de Santo António. Vinho branco para a espetada de tamboril e dois uisques porque não eram horas ainda de ir para a cama.
3 - Sexta, 13 de Julho, três da tarde: Três ou quatros cañas de San Miguel com conquilhas e puntillitas no Chiringuito La Cabra em Isla Canela. De sobremesa, uma copita de orujo, três horas a ressonar na areia e testa e mamas queimadas.
4 - Quinta, 12 de Julho, nove da noite: Tasca Nuevo Simón, em Punta del Moral, três cañas e pimientos de padrón, ovas de choco, navajas a la plancha, revuelto de la casa e tortillitas de camarón. Essa noite, um jameson com vistas e xixi cama.
5 - Quinta, 13 de Julho, duas e meia da tarde. Sangria e sardinhas no restaurante La Gaviota em Isla Canela. Essa tarde, fui dormir para a piscina do hotel, onde uns atentos empregados y sus dry-martinis não me deixaram morrer à sede.
(Acabam-se os euros espanhóis e não me dá tempo a fazer mais linques. Passo esta corrente a quem tiver achado como eu que o gajo do vídeo é o pãozinho mais fofo deste verão. À vontade, gentes)

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Terça-feira, Julho 10, 2007

DE PORQUE DEIXEI O MEU MARIDO SOZINHO EM MADRID UMA SEMANA E FUI COM OS MEUS PAIS PARA A PRAIA




Aquí no hay playa - LOS REFRESCOS (1989)

Podéis tener Retiro, Casa Campo y Ateneo,
podéis tener mil cines, mil teatros, mil museos,
podéis tener Corrala, organillos y chulapas,
pero al llegar agosto, ¡vaya, vaya!,
aquí no hay playa.
¡Vaya, vaya!
No hay playa.
¡Vaya, vaya!
Podéis decir a gritos que es la capital de Europa,
podéis ganar la Liga, podéis ganar la Copa,
afirmaréis seguros que es la capital de España…
Podéis tener hipódromo, Jarama y Complutense
y , al lado, la Moncloa donde siguen los de siempre,
podéis tener el mando del imperio en vuestras manos,
pero al llegar agosto y el verano…
Podéis tener la tele y los 40 Principales,
podéis tener las Cortes, organismos oficiales,
el Oso y el Madroño, Cibeles, Torrespaña…
¡Escucha, Leguina!
Podéis tener Movida ¡hace tiempo!,
Movida promovida por el Ayuntamiento,
podéis rogar a Tierno
o a Barranco o al que haya,
pero al llegar agosto, ¡vaya, vaya!…
Aquí no hay playa

Quinta-feira, Julho 05, 2007

RITITI DE MINI FÉRIAS



Boazuda 1 - Então a Rititi vai para a praia, não?
Boazuda 2 - Uma semaninha só, a desgraçada.
Boazuda 1 - E o blogue fica sozinho?
Boazuda 2 - Uhm... Pelos vistos...
Boazuda 1 - Tens alguma ideia para dar vida a isto?
Boazuda 2 - Que tal uma festa sem roupa no jacuzzi?
Boazuda 1 - Só as duas?
Boazuda 2 - Bem, se tiveres um amigo que não se importe...

(E pronto, a casa já está oficialmente entregue aos bichos)

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Quarta-feira, Julho 04, 2007

MOMENTO GINA: MÚSICA PIROSA


La quinta estación - me muero

Adolfo, no meio de um ataque de soluços assassinos, aqui sai uma mostra da última moda em música hortera espanhola. Paixão incontrolável, wrestling, um refrão pegadiço, mariachis, mais não se pode pedir a um hit nesta Espanha tão fértil em hinos de discoteca de verão. Eu , confesso, não poderia viver sem música pirosa, sem essas canções de amores que sempre rimam e a Cadena Dial, a estação de rádio favorita da empregada da minha mãe, a nossa querida Pilar. Hip. Me muero por besaaaaarte, dormirme en tu booooooooca, me muero por deciiiiiirte que el mundo sequivoooooooca. Hip, e agora vou beber umas cañolas lá fora, que acho que é muito bom para o soluçame e, aliás, os bares de Madrid nunca me defraudam. Pode ser que ponham Rocío Durcal.

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Terça-feira, Julho 03, 2007

A ARTE DA FUGA, BACH E GLENN GOULD


E o Contraponto 14

Muitos parabéns, António e Adolfo, pelos três anos de blogue impecável. Não se me ocorreu melhor regalo de cumpleaños.

Domingo, Julho 01, 2007

AMORES DIFERENTES, DIREITOS IGUAIS
(Crónica publicada no DNA em Julho de 2005)

Aprovada a legalização dos matrimónios homossexuais, alterado o Código Civil e exterminados com muita pena minha os conceitos «marido e mulher» do discurso legal, bem-vindos sejam ao Território Zapatero, o país mais moderno da Europa, o paraíso da tolerância e do respeito à diferença. O Presidente do Governo está feliz, gays e lésbicas abraçam-se e fazem planos de boda, com bolo de noiva e avós chorando à mistura, e eu abro uma garrafa de Möet Chandon para comemorar a banalização de relações e amores tão normais quanto o meu. Desmistifica-se com a legalidade o que deveria ser do foro estritamente privado – enquanto ninguém tem nada a ver com quem dorme o vizinho – e acaba-se de uma vez por todas com a estupidez de não se poder herdar, pagar impostos em conjunto ou ter direito a onze dias úteis de férias de casamento nas Maldivas com tudo incluído. E mais útil ainda: ser gay deixa de ser um lobby, uma razão de exclusão e a desculpa perfeita para fazer o ridículo nos bares chunga-chunga a dançar Rafaela Carrá. A partir do dia 30 de Junho, em Espanha só sente discriminado sexualmente quem tem a cabecinha mal arrumada e problemas de cama por resolver.
E pronto, aqui deveria acabar esta converseta sobre formas de viver. Uma vez ratificada pelo Rei, a alteração da instituição familiar já está nas ruas e cada um pode seguir com o seu rame-rame do costume, tentando ser um bom pai, não mentir à mulher e não conduzir com os copos. Todos, claro, excepto a Conferência Episcopal, o Foro Español de la Família e o Partido Popular, os Temíveis Anjos Vingadores e Guardiães da Família. Da tradicional, claro. Da deles. Uma manifestação multitudinária no dia 18 de Junho juntou os defensores da tradição e dos valores que «importam», pondo a família em maiúscula e as crianças na frente, com bandeiras de Espanha e carinha de pena.
Aos bispos é normal que lhes repugne a relação de dois paneleiros reconhecida pelas instituições do Estado, tendo em conta o Catecismo da Igreja Católica, a sua concepção da homossexualidade e os dois mil anos de existência. Esquecem-se que a lei não os condena a celebrar este tipo de matrimónios – civis e sem efeito perante a lei de Deus – e que Espanha é um estado laico, aconfessional e que já não é obrigatório ser baptizado. Esquecem-se que nem todos os católicos partilham esta visão rígida do amor ou que até existem gays que acreditam que Maria foi virgem e Cristo o Filho de Deus.
Já o Foro da Família, cuja página na Internet proclama o direito dos meninos a terem só um pai e uma mãe, não se insurge contra os gays nem a regularização da sua união sempre que não se lhe chame «matrimónio», porque «matrimónio» é coisa de homem “contra” mulher para fazer filhos. Mais nada. E por causa de uma palavra reúne adeptos, distribui panfletos e manifesta-se em massa? É esta a razão para pôr menores de idade a quarenta graus à sombra segurando cartazes, obrigando-os a usar máscaras em plena onda de calor sufocante às seis da tarde, acusando Zapatero de atacar a família, de impedir que um homem e uma mulher se casem? «La família SI importa». Uma palavra que põe a instituição em vias de extinção, porque não é concebível que dois Zé Antónios criem um bebé sem que este não acabe num hospício, numa clínica de desintoxicação ou na prisa por vender heroína à porta de colégios. O amor, que é a base de qualquer matrimónio, só é possível se heterossexual e vocacionado para a procriação.
E o PP? Que faz o único partido de direita com assento no parlamento nacional ao lado de cartazes como «No al desmadre, queremos padre y madre»? Proteger as criancinhas indefesas, coitadas. Mesmo que o líder Mariano Rajoy se tenha desmarcado à última da hora, o partido apoiou a manifestação, segurou bandeiras e bramou pela defesa da família com pai, mãe e avozinha que trate da Matilde e do Lourenço, gritando que os direitos dos não-gays estão a ser pisados, que é um retrocesso e que, além de imoral, esta lei é anticonstitucional. Não haverá militantes de direita que sejam panilas? Ser gay é só coisa de esquerdalhos anti-clericais papa-meninos? A opção sexual estará condicionada pela cor política? Pelos visto, nesta Espanha, sim.
Um dos líderes do Foro da Família, talvez com o cérebro a ferver pelo calor do verão madrileno, queixava-se da legalização do divórcio (sim, o divórcio, não estão a ler mal), que tão desprotegida deixa a família: «oxalá não existisse». Numa só frase ficaram desmascaradas as hipocrisias, as razões encapotadas, os menininhos a chorar e as vozes politicamente correctas: o que uniu Igreja, ONG’s e os líderes do segundo maior partido espanhol foi o terror à normalização de atitudes que, pela sua moral, são reprováveis e deveriam manter-se, se não ilegais, pelo menos na clandestinidade, como se não existissem. Negando o óbvio não se escandalizam as mentes puras. Olhos que não vêm, coração que não sente - e as fufas, os panascas, os infelizes, os mal amados, os infiéis, as maltratadas, as fartas do marido, o senhor de cinquenta anos que descobre a atracção sexual pelo trolha musculado das obras, esses, que se escondam, que não falem, que tudo se mantenha como estava. Não mudando, não questionando e evocando a liberdade. A deles, claro.
E agora, se me dão licença, vou lá abaixo dançar «I will survive» na Gay Parade. Porque é muito mais divertido celebrar com música a equiparação legal de outros modelos de família e de amor, a queixar-me porque o mundo não é o mesmo que há trinta anos, quando as mulheres nem podiam votar e os homossexuais eram presos. Este ano, a Festa do Orgulho Gay, já não reivindica direitos, mas comemora o crescimento democrático e a legalização do que sempre existiu.

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