Bem me parecia que já tinha escrito sobre os cursos de formação
To VIP or not to VIP (lá por 2005)
Durante a segunda semana de Janeiro a capital do Reino das Espanhas recebeu os melhores cozinheiros do Mundo para que, numa coisa chamada Madrid-Fusion, os Grandes da Cozinha Desconstruída ensinassem o povão a fazer maravilhas com a varinha mágica. Hidrogénio líquido, canapés de sushi banhado em bacon caramelizado e caviar de melão, eis as propostas dos génios da comida pós-moderna para reconfortar os estômagos neste gélido Inverno polar. Por seiscentos euros o público teve direito a ser insultado por reutilizar o óleo das batatas, os donos dos restaurantes foram tratados como sopeiras por não decorarem os pratos conforme as novas leis da estética gastronómica e a plebe em geral babou-se pelas iguarias que os Mestres Masculinos das Panelas cozinharam em cima do cenário.
Mas tenho a dizer que não pus lá os pés, fiquei-me por casa. Também não compareci à concorrida Festa da Sidra que o Javier deu em minha honra para comemorar a minha fabulosa entrada na trintena. Adeus às armas e aos copos de plástico. Porque agora sou uma mulher nova, uma Fénix renascida das cinzas dos meus cigarros, um milagre da ciência e dos cursos de auto-ajuda. Finalmente posso garantir que me transformei no que sempre sonhei ser: Xena, a Princesa do conhecimento interior!
Claro que para chegar a esta nova etapa de férreo autocontrolo metafísico contei com a ajuda inestimável do Departamento de Recursos Humanos da minha empresa. Os funcionários dos Recursos Humanos são como o padrinho abastado que nunca tive, como a tia-avó do Brasil que faz de mim a herdeira de dois prédios restaurados e sem inquilinos na Lapa. Ralam-se de tal maneira pela minha realização pessoal, para que nada me falte no meu caminho para o êxito, que não só me negam uma subida no ordenado (com o intuito de que não o desperdice em banalidades como comprar uma casa ou beber uísque de quinze anos – ninharias, enfim...), como me inscrevem em todos os cursos de formação que aparecem no mercado. No espaço de um ano melhorei o meu inglês (finalmente falo-o tão bem como jura o meu Curriculum Vitae); decifrei os obscuros e misteriosos segredos que encerram as fórmulas de Excel; acedi ao fascinante mundo das Bases de Dados; e compreendi, depois de tantos anos, quem diria, o significado de dogmas de fé como benchmark, cost-to-income, I+D, e como estar overweight sem pesar cem quilos.
Mas a verdadeira razão desta minha metamorfose de Peter Pan em Mary Poppins deve-se à maior invenção desde os tempos em que os romanos decidiram passar as leis civis a escrito: a derradeira Acção de Formação para o Desenvolvimento Humano. O último grito no mundo dos cursos para motivar executivos que têm medo de triunfar: porque as pessoas não sabem, mas no fundo ninguém quer ter sucesso profissional. Graças a estas magníficas sessões com direito a formador cativante, top senior e que me tratou como a uma camarada na luta contra a preguiça, fiquei a saber que a minha vida não tinha sentido.
Andava perdida, desperdiçando os anos moços e saudáveis que Deus me deu na procura inútil da Felicidade e da Diversão. Horas de produtividade foram esbanjadas nos bares de Madrid e na cama com o meu marido, por achar que a vida era para ser gozada. Ignorava que os seres humanos estamos destinados a ganhar dinheiro para ter êxito, para que falem de nós e para influenciar. Para ter Poder. Mas claro, não tinha permitido que a minha Vontade Interior Positiva se revelasse livremente, a VIP, essa força mágica que nos faz esquecer o ócio e nos empurra para as delícias do trabalho sacrificado. Deslumbrada, jurei nunca mais me desviar dos passos da VIP, e agora os meus dias são passados no gratificador mundo da labuta árdua e da ocultação da euforia.
Confesso que a imagem do formador cativante e top senior a passear cheio de vitalidade pelo estrado de microfone na mão e a exortar os executivos assistentes a libertar a VIP oculta de cada um, era bastante parecida à dos escritores de livros de auto-ajuda que aparecem nos filmes americanos. O top senior comportava-se como um guru da guerra anti-tabaco; como se fosse o exaltado Presidente da Associação pela Castidade e Pureza. Os lemas, os de sempre: «Tu és o teu pior inimigo», «A força vem de dentro», bla, bla, bla. Só que a nova versão ao estilo psicologia Arlequim da fórmula socrática «Conhece-te a ti mesmo» apenas serve se o fim da peregrinação interior for o Sucesso e um carro da empresa.
Sendo sincera, ando a pensar em abandonar minha Vontade Interior Positiva, esquecer as palestras do persuasivo formador top senior e dedicar-me ao que mais prazer me dá: Viver. Porque a mim a máscara da executiva-agressiva que trabalha doze horas ao dia e que controla os instintos naturais graças a um estrito conhecimento introspectivo não me assenta bem. Falta-me sobriedade, por muito que os livros de auto-ajuda, os gurus da Felicidade de Plástico, os sermões de telepredicadores e os vendedores do Desenvolvimento Interior digam o contrário. E porque como diz o sábio escritor espanhol José Luis Sampedro «nadie me amarga a mí el placer de vivir. Esos señores de negro no me van a fastidiar». Tem 87 anos e da vida deve perceber alguma coisa.
Etiquetas: crónicas do Dna