ACHO QUE ESTA CRÓNICA ANTIGA FAZ SENTIDO HOJEFEMINISTA, EU? «Porque tu, no fundo, és uma feminista». Ser contra o maltrato, a mutilação genital, a burka e a descriminação salarial não faz de mim senão uma pessoa sensata e consciente dos problemas concretos do que se poderia chamar o «meu género» e não uma exaltada activista dos direitos femininos. Aliás, nem todas as mulheres estamos feitas para o feminismo (pelo menos para o conceito estereotipado e antipatriarcal). É um exercício duro, que implica o ensaio diário da desconfiança contra o meio, está mal visto pelos argumentistas de séries de televisão e – recordando o histórico visual das grandes líderes - provoca miopia, daltonismo, crescimento acelerado de pelugem na sovaqueira e flacidez nas até agora consideradas zonas eróticas femininas. São demasiados os inimigos das feministas, demasiadas as causas da opressão, demasiadas as razões para estar sempre de punho levantado e um único culpável pela desigualdade salarial, social, económica, legal, familiar, legislativa, laboral, física, educativa e sexual. Razões, bem vistas as coisas, não nos faltam para a vingança concreta e dolorosa, mas acontece que o alvo favorito das feministas é tão precioso como indispensável: o macho. E a mim, sinceramente, custa-me acreditar nas bondades de um mundo sem homens, sem futebol, sem pugilismo e sem revistas de automóveis.
E entre as dúzias de razões que me afastam do feminismo está a falta de autocrítica a que fica reduzida este movimento, que mais facilmente prefere sentir-se vítima que reconhecer que muitos dos perigosos preconceitos machistas são transmitidos pelas mães, incapazes por educação, riqueza ou valentia de inculcar o conceito de igualdade entre os sexos. Os grandes pecados do feminismo são a excessiva condescendência com os nossos medos – uterinos ou não – e o constante apelo à maternidade para rebaixar os homens ao nível do fornecedor da semente. As fêmeas somos uma espécie de deusas da vida enquanto eles, coitados, não passam de garrafas de espermatozóides em busca de um lar. Por não falar do rumo que nos últimos tempos têm tomado alguns sectores do feminismo, que sacam as unhas para demandar o que consideram um retorno à real essência do feminino: o importante e menosprezado acto de parir. Um horror. Senão reparem. Parece ser que à «mulher de verdade» já não lhe basta com trabalhar doze horas como executiva terminator, andar sempre impecável sobre uns saltos assassinos, saber combinar cozinha japonesa com a tradição alentejana, estar casada com um Ken qualquer de classe média-alta, votar esquerda e a favor do aborto, ter três filhos poliglotas e um Audi na garagem. Atrás ficou a paridade social e a luta de sexos. Porque agora as feministas lembraram-se que afinal o que aflige a mulher é o preconceito médico, científico e até social, incapaz de entender que ter filhos é tão natural como a vida mesma, a água que corre pelos rios e o canto dos passarinhos. A classe médica, esses fascistas de bata branca, só pretende despachar o parto o mais rapidamente possível para ir jogar golf com as suas amantes as enfermeiras, fazendo uso de instrumentos medievais de tortura como o poldro obstétrico, a sala do hospital ou o corte vaginal.
No verão de 2006 a jornalista espanhola
Rosa Montero chamava a atenção desta terrível realidade na sua coluna do suplemento de domingo do El País, indignada pelo «trauma, pesadelo e sensação de maltrato» a que estão subtemidas as mulheres em Espanha e na América Latina (imagino que Portugal também entre no seu estudo de países terceiro-mundistas e brutais para as parturientes). Lá fora, na Europa civilizada, vitaminada, multicultural e oxigenada as mulheres parem naturalmente num lugar cómodo (a casa, uma tenda de campanha hippie, rodeada de baleias) e : «enquanto dura a dilatação as mães podem mexer-se cómodamente y fazer uso dos meios naturais para paliar a dor: tomar banho, receber uma massagem, sentar-se em grande bolas de borracha». O parto, imaginem, pode demorar horas (dias!), até que o bebé, se a natureza, Deus ou a massagista quiserem, nasça (vivo ou morto, com ou sem paralisia cerebral) e a mãe, essa vaca, tenha sofrido as maiores barbaridades porque em nenhum momento é aceitável a anestesia. Morte à Medicina Moderna! Viva o Matriarcado! E se a criança morrer, que caramba, a mulher pode conceber mais! Ou não é para isso que estamos?
A mulher, concebida como uma égua, um animal, um ser menor sem curso universitário, sem cartão de contribuinte, sem compromissos sociais, sem horários, sem direitos adquiridos, é assim que a tratam estas desocupadas defensoras da suposta feminilidade natural e real. A mulher despojada de dois mil anos de civilização, reduzida à úbere e trasladada à caverna dos Cromagnon. Este é o feminismo de que renego e que não faz favor nenhum às mulheres que exigimos a paridade salarial, efectivas medidas que permitam a conciliação da vida laboral e familiar, o fim dos abusos de poder físico e sexual ou a discriminação de carácter religioso ou cultural. Feminista eu? Assim, não.
(publicado na Revista Atlântico, Novembro de 2006)