Reuniões às seis da tarde para analizar curvas de resultados, almoços de "trabalho" que demoram três horas e meia garrafa de uisque, subchefinhos de secção para quem a produtividade é sinónimo de olhar para o computador até à hora de jantar, sessões de graxa ao superior no bar da esquina, pequenos almoços que duram uma digestão, sim, que bonito é trabalhar em Espanha, país onde ninguém parece ter filhos porque se os tem devem ser educados por criadas internas, por umas avós escravas, ou então pelas mães que tiveram que escolher fazer um intervalo nas carreiras. Claro. Não saquem já o punho feminista, não queimem ainda os sutiãs, calma aí ao ovário combativo, amigas, porque isto não é uma declaração, é uma queixa, é uma pena, é um asco que nenhum Ministério de Igualdade, nenhuma Comissão Nacional de Horários, nenhum decreto poderá mudar até não chegar à chefia uma mãe* que goste de brincar com os filhos, de os ajudar com os deveres, de lhes dar banho e o beijo de boas noites, educar, estar presente, ser mãe. E sem renunciar à carreira. E sem deixar trabalho para amanhã. E sem estar ausente. Porque é possível, desculpem lá. Basta chegar antes, não perder tempo em cafés e cigarros e comentários sobre o jogo do Famalicão contra o Recreativo de Espinho, porque é possível almoçar sem chegar com um hálito assassino, porque de casa vem-se comido e mijado, porque vai-se ao escritório para trabalhar e não para comparar pilinhas, porque há tempo para tudo, até para subir no escalão, na carreira e na categoria sem ter que lamber cus e rir as piadas idiotas em reuniões inúteis sempre marcadas a horas impróprias e porque conciliar não é fingir que não se têm filhos. Sim, é preciso que sejam as mulheres a mudar, porque já vimos que com os gajos a mandar o horário laboral dura dez horas no mínimo; e é preciso que sejam mães porque de nada me serve uma chefa que é incapaz de entender que não preciso de duas horas de almoço e que posso muito bem fazer parte do meu trabalho em casa. É preciso que a flexibililidade não seja entendida como desleixo, que não importa o número de horas em que o cu está acomodado no escritório mas sim o que se faz nesse tempo e que um empregado satisfeito produz mais e melhor. Também não se trata da famosa paridade de ZP porque já vimos que a maioria das ministras de Zapatero nunca tiveram filhos porque "era impossível conciliar carreira e família" (sic), por não falar da Ministra de Defesa, para quem conciliar filho e trabalho significa interromper a baixa maternal às 12 semanas de parir.
Eu não sou chefa e, graças à minha opção de reduzir horário e salário (ah pois, claro), nunca passarei deste estado intermédio de "empregada de" até ao ano 2048. Como não estarei presente nas importantíssimas reuniões onde a equipa debaterá as brilhantes ideias da direcção para incrementar o número de clientes, como não terei tempo para ouvir as graçolas dos meus chefes, como estarei fora do ambiente corporativo e da gravata sem filhos, não verei uma subida no ordenado, não contarão comigo para esses fascinantes projectos que impliquem sair do escritório às oito da noite, mesmo que dê ao litro desde as oito da manhã até às três da tarde, ininterruptamente, sem comer, sem fumar um cigarro, sem perder tempo. Tempo que preciso para estar com o meu filho, para gozar dele, para ser mãe, que para isso o tive.
* pois não, também há pais que sofrem. Desculpem lá.