Sexta-feira, Abril 13, 2007

Imaculada Concepção

Por ela enfrentaram-se correntes doutrinais, levantaram-se edifícios e talharam-se obras de arte; é fonte de inspiração para Cantatas de Bach, romarias populares e fenómenos extraordinários com velinhas na Avenida da Liberdade; exemplo de caridade e amor, a essência da maternidade. Maria. Nunca houve mulher que contribuísse mais para a discussão filosófica no Ocidente e nenhuma mulher mereceu mais devoção que ela. Pura, virgem e imaculada. Mas também caridosa, auxiliadora, mística, dolorosa, reconciliadora ou milagrosa. E a mulher que se espera sejamos todas as que viemos depois. Concordarão que não é propriamente fácil sobreviver a um modelo destes. E não me leiam aqui como uma iconoclasta radical de esquerda, sou só realista. Como alcançar tamanha virtude num mundo pejado de excessos carnais, publicidade erótica na televisão e incentivos à evasão fiscal? Não se nos terá exigido demais ao género feminino? Não poderiam ter escolhido Maria Madalena, pecadora, mas arrependida apesar de tudo?
Comemora-se este ano o 150º aniversário do Dogma da Imaculada Conceição. Quase dois milénios demorou a Igreja Católica em oficializar algo que toda a gente já sabia: que Maria, mais que virgem, estava limpa de pecado original, livre do fardo de depender do perdão pela oração e pelos actos caridosos que nos redimem ao final dos nossos dias. Segundo a doutrina dogmática Maria nasceu sem a oportunidade de errar, incapaz de gerar ódio, impossibilitada pela graça divina para a mesquinhez ou a preguiça: nunca mentiria, nunca desejaria o alheio, seria infalível nos pensamentos, virtuosa e magistral no dom de amar e compadecer-se das misérias alheias. Magnífica. Mais além do culto mariano, indispensável para a crença católica, o conceito abstracto de Maria sempre me ultrapassou. Não pelo facto de ela própria ter sido concebida sem pecado no seio de Santa Ana, ou que tivesse aceitado a maternidade de Cristo sem a menor dúvida, ou que toda a vida a tenha dedicado a Deus. Mas sim pelo que essa mulher, como exemplo de comportamento, significou para todas nós. Todos aqueles maiúsculos atributos passaram culturalmente para as fêmeas do mundo, como se esse fosse o nosso fim último: ser mães impecáveis, serenas mulheres, impassíveis ante a morte, obedientes - e virgens, como não.
Eu não posso, nem sei se me apetece, ser assim. Quero-me imperfeita, com a minha dose de pecado original e, sobretudo, com liberdade total para me enganar, para fazer merda da grossa, se me permitem. Claro está que Deus nunca me escolheria para sua Esposa Celestial, pois são demasiados os vícios aos que me habituei desde muito novinha e poucos dos que tenha renegado ao longo da vida. Não houve confessor a quem não aldrabadasse a troco de uma penitência mais benévola e até sou pessoa para preferir por vezes a inveja infantil à caridade sem contemplações. A minha humanidade, tão pouco venerável nas ressacadas manhãs de domingo, não atribui ao meu quotidiano qualidades metafísicas, dignas para recordar quando tiver netos, antes pelo contrário: recorro facilmente à blasfémia oral quando perco o autocarro e a paciência; entre os meus desportos favoritos encontram-se os nobres prazeres de comer, beber e fumar e raramente pratico a caridade. Até a figura maternal de Maria me parece estranha: a candura supostamente feminina, o gesto delicado ou a abnegação não cabem no meu historial familiar onde as mulheres sempre olharam para a morte nos olhos e à vida esperam-na com as mãos nas ancas, insubornáveis e nunca menores. Antes mulheres que mães e nunca concebidas sem o pecado do amor carnal.
Do quotidiano de Maria pouco se pode deduzir do Novo Testamento, enquanto que o Antigo se fica por profecias sobre a estirpe da mulher (para alguns Maria) que se inimistará com a serpente (claramente Satanás). As qualidades humanas desta mulher, a celestial beleza ou a impecabilidade são conceitos posteriores de homens, santos ou não, que desenharam para sempre o destino do culto mariano e do modelo para o resto da humanidade feminina. Altamente interessantes e curiosas são as teorizações de alguns Pais da Igreja sobre a absoluta pureza de Maria: «isenta de todo defeito» (Typicon S. Sabae) ou «incorrupta, virgem, imune pela graça de toda a mancha de pecado» (Ambrósio). As doutrinas escolásticas que se seguiram continuaram a aprofundar a natureza da concepção de Maria, a falta de culpa no corpo que acolheu o Messias e os artistas plásticos fizeram o resto: imagens de uma beleza intacta, a substância da feminilidade, pele branca, compaixão no olhar. Talvez fosse assim Maria - caridosa, auxiliadora, mística, dolorosa, reconciliadora, milagrosa. Mas quero acreditar que no retrato da imaculada virgem sem rugas que me pintaram também cabe a mulher arrojada, corajosa, velha, com dúvidas e ciúmes, mãe chata, trabalhadora incansável, reivindicativa, péssima cozinheira, mas excelente bailarina, com calos e varizes, leitora de poemas, valente e apaixonada. Porque um modelo precisa de ser humano e mais quando é um dogma de fé.

(crónica publicada no DNA)

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Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

MADRID E OS REIS

«Fea, pobre y portuguesa. ¡Chúpate esa!». Assim se mofava o povo de Madrid quando conheceu o nome da que seria a segunda mulher do rei Fernando VII, Isabel de Bragança. Filha do nosso João VI e sobrinha do seu próprio marido, Isabel não só era conhecida pela carência de beleza, formosura, bom gosto, elegância, graça ou inteligência, como também pela majestade da sua realíssima cornamenta. Uma desgraça, enfim, essa nossa delegação diplomática no país vizinho. Por sorte para a pobre senhora e para a imagem de Portugal, em três anos morreu, deixando o rei sem descendência e na obrigação de arranjar outra herdeira de pedrigree nobiliário, talvez mais apta para a reprodução e as lides de cama e que não causasse nos súbitos liberais monumentais ataques de riso na Praça de Oriente. Escolheu o monarca, fazendo gala do bom senso de quem só frequenta bordéis e corridas de touros, uma criança de quinze anos, alemã e virgem, com fantasmagóricas versões sobre as obrigações conjugais ensinadas por freiras apocalípticas e cuja performance na noite de núpcias roçou por momentos uma hilariante escatologia, misturando a adoração do Terço, espasmos, lençóis urinados e um rei histérico exigindo por carta ao Papa uma solução a tanta falta mística de coito: «¡O yo jodo de una vez con esa pazguata o que el Santo Padre anule mi matrimonio!». Esta também morreu. Sem filhos. Fernando 3 – Elas O.
E os madrilenos ficaram órfãos de uma monarca a quem dedicar operetas de escárnio, pasquins com caricaturas e filhos ilegítimos. Porque Madrid foi, é e será essa tia solteirona, sempre perto do alcoolismo, seca, bem vestida e com idade suficiente para falar mal dos outros. Madrid não respeita coroas, mas não pode viver sem elas. Fernando VII finalmente encontrou uma rainha à altura, que lhe deu duas filhas e se apoderou da regência do país. Graças a Maria Cristina, Madrid desfrutou da estrambótica figura de Isabel II, rainha, segundo o historiador José Luis Comellas: «desenvuelta, castiza, plena de espontaneidad y majeza, en el que el humor y el rasgo amable se mezclan con la chabacanería o con la ordinariez, apasionada por la España cuya secular corona ceñía y también por sus amantes». No universo mental do português actual, esta Isabel seria o resultado de clonagem do Alberto João Jardim, o Telmo-recruta e a doce irmã Lúcia. E Madrid vibrou com esta rainha, adolescente na cabeça e com o apetite sexual herdado no sangue borbón. Valle-Inclan desejou-lhe o exílio, o povo contava-lhe os amantes enquanto depositava naquela benfeitora com pouco alcance intelectual as esperanças democráticas de um país que ainda aprendia a brincar aos parlamentos. Quando Madrid se fartou de folhetins e de uma corte onde habitavam bruxas, santeiros e um rei paneleiro bastou-lhe expulsar Isabel II para os confins do esquecimento colectivo. «Y se armó la Gorda». Ou seja, a República.
Desde que Madrid é capital das Espanhas não há geração de poetas, pintores, músicos, dramaturgos, talhantes e condutores de coches com ou sem motor que não tenham feito da Monarquia motivo de chacota. As crónicas do Rei Enfeitiçado, as aventuras da Duquesa de Alba, a alcunha de «Pepe Botella» ao irmão de Bonaparte, a depressão de Afonso XIII: a cidade não resiste a uma boa cusquice, à zombaria mais ácida proporcionada pela por vezes excessiva proximidade dos monarcas que não tinham pudor algum em exibir dramas familiares, infidelidades e vícios demasiado niveladores. Lady Di, ao lado destes reis e respectivos consortes, amantes, conselheiros, desvio de dinheiros públicos, corrupção e bastardos, mais se parecia a Maria Von Traap, aquela noviça armada em agitadora social nos Alpes. O génio de Madrid, como o da nossa tia alcoolizada, recai no sentido de humor, na gargalhada sarcástica que teorizou a Zarzuela, reiventou o chotis e caracteriza anualmente os quadros de Goya como mais uma tradição popular irremediável. A Joaquin Sabina, poeta da movida dos oitenta rentabilizado pelas discográficas e saudosista da República, não se lhe caíram os anéis por partilhar mesa e talheres com os actuais Príncipes de Astúrias e em conjunto com os intelectuais menos monárquicos da cidade publicou um poema corrosivo, inteligente e carinhosíssimo em honra da futura rainha: «Las faltas de ortografía que desdeña la poesía a mí me la ponen dura, y esa zeta de Letizia es la falta y la delizia de una carizia madura».
Esta desvergonha tão castiça, esta sobranceria popular de quem tem os reis ao virar da esquina e que fez que Madrid idolatrasse uma rainha como Isabel II e fizesse da vida de José I uma galhofa constante, é um dos rasgos mais encantadores da capital desta Espanha em mutação constante, favorecido pela tradição da taberna, de passar o dia na rua, dos passeios pelo centro e da vida fora de casa. Enquanto os madrilenos sobreviverem ao complexo do centro comercial alcatifado e sem ruídos, a ousadia estabelecerá as normas de protocolo com uma casa real que se precisa com poder de encaixe e próxima do quotidiano dos madrilenos. Sem convulsões, mas com lucidez. «¿Por qué carajo te escribo? First of all porque estoy vivo y no me pienso morir», cantava Sabina a Letizia. Em outras palabras, porque assim é Madrid.

(uma das minhas crónicas favoritas publicadas no DNA)

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