Quarta-feira, Abril 23, 2008

E HOJE EM MADRID, A NOITE DOS LIVROS



E conferências de Juan Gelman e Michel Houellebecq e concertos grátis e livrarias abertas até à meia noite e programação infantil nas bibliotecas e concursos de poesia sms e livros, muitos livros, com descontos, de segunda mão, gastos e assinados pelos autores, à venda nas praças, à porta das lojas e nas ruas, porque é nas ruas que Madrid vive, se expande, de copo na mão e livro na outra, a falar, a trocar umas ideias, a festejar. Por sorte, vivo numa cidade que usa qualquer pretexto para sair à rua. E o livro é uma belíssima razão para celebrar com os amigos, que raio.

Adenda:
Hoje, também foi a entrega do Prémio Cervantes Juan Gelman:



"Para San Agustín, la memoria es un santuario vasto, sin límite, en el que se llama a los recuerdos que a uno se le antojan. Pero hay recuerdos que no necesitan ser llamados y siempre están ahí y muestran su rostro sin descanso. Es el rostro de los seres amados que las dictaduras militares desaparecieron. Pesan en el interior de cada familiar, de cada amigo, de cada compañero de trabajo, alimentan preguntas incesantes: ¿cómo murieron? ¿Quiénes lo mataron? ¿Por qué? ¿Dónde están sus restos para recuperarlos y darles un lugar de homenaje y de memoria? ¿Dónde está la verdad, su verdad? La nuestra es la verdad del sufrimiento. La de los asesinos, la cobardía del silencio. Así prolongan la impunidad de sus crímenes y la convierten en impunidad dos veces." (o discurso completo no El País)

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Terça-feira, Março 11, 2008

RITITI NO AR

Hoje pelas nove da manhã, os mais fiéis leitores poderão ouvir-me na Antena 1. Desde Madrid, na estação de Atocha, entre a memória dos corpos mutilados, a dor pela incompreensão e a necessidade de continuar vivo. Pelos que foram, pelos que serão, por nós. (Imagens no site da Antena 1)

UM ANO
(Texto publico no DNa em Março de2005, no primeiro aniversário do 11-M)

Num ano há tempo para muita coisa: parir, mudar de casa e de penteado, deixar de fumar, começar a beber, perder umas eleições, ganhar a Taça dos Campeões, casar, dar a volta ao mundo, chorar por quem partiu, fundar um partido político, recordar. Num ano uma capital europeia restaura prédios, amplia a rede do metro, cria guetos, inaugura escolas, restringe a hora fecho de bares, recebe líderes mundiais. E Madrid, nesse ano, teve tempo para montar um casamento real, candidatar-se aos Jogos Olímpicos, fechar as ruas do centro ao trânsito, abrir as portas à legalização de emigrantes sem papéis e lamber as feridas.
Há um ano dez bombas acordaram-me. A imagem de quatro comboios retorcidos em Atocha, estupidamente impedidos de chegar ao destino, levantaram-me da cama e acabaram com a ressaca de quem dormiu três horas porque preferiu ficar nos copos com os amigos e dançar samba num bar brasileiro a ser uma responsável profissional dos tempos modernos. Anestesiada com o cheiro de uma morte que poderia ter sido a minha, o dia 11 de Março de 2004 passei-o a olhar para um ecrã de computador carrasco, sessenta, oitenta e quatro cadáveres, centenas de feridos, notícias de telemóveis perdidos nas carruagens rebentadas que ninguém queria atender, cento e cinquenta mortos, pedaços de carne, linhas telefónicas impedidas, estás bem, sim Mãe, gosto muito de ti, lágrimas, muitas. Quem foi, porquê nós, não é justo. E os mortos que não paravam de aumentar, e as filas para doar sangue, e as mantas oferecidas pelos vizinhos da estação, e cidadãos anónimos que exerceram de psicólogos e amigos naquela macabra morgue improvisada num pavilhão de feira, e as manifestações espontâneas na Porta do Sol, e as gentes perdidas de dor nas ruas, desespero e fúria, e meu amor vamos para casa, hoje preciso de me agarrar a ti. E o medo de andar de metro, e a manifestação de dois milhões de pessoas debaixo da chuva. E dizer não. Nunca mais. Já chega.
Espanha levantou estátuas em homenagem às cento e noventa e uma vítimas mortais e aos que ficaram amputados de filhos, irmãos ou amigos; aos voluntários o Alcalde da capital dedicou uma placa em mármore de sincero agradecimento nas portas do Ayuntamiento; aumentaram as câmaras de vídeo e guardas nos transportes públicos; institui-se uma comissão parlamentar para apurar responsabilidades políticas; prenderam-se maus da fita; caiu um governo mentiroso e renovou-se a Assembleia.
E a capital voltou à vida e aos bares cheios, aos mendigos que elogiam as pernas das mulheres apressadas, ao trânsito impossível, aos saldos e à histeria para conseguir um vestido da colecção de Karl Lagerfeld para a H&M, ao emprego que não satisfaz mas paga a renda da casa, à gata com o cio e às estações do ano. Porque a vida deve continuar. Madrid, apesar de assustada, casou um Príncipe herdeiro com uma plebeia, e agora, a um ano das bombas e da morte, as conversas giram em torno à não gravidez da Princesa, à sua extrema magreza e aos sapatos que compra no Bairro de Salamanca. As páginas dos jornais discutem as amizades perigosas da Câmara Municipal com os construtores civis, Ronaldo dá tema a programas do coração com sórdidas histórias de cama envolvendo modelos com sede de fama e o Atlético de Madrid nunca mais ganha um jogo fora de casa. A Audiência Nacional, primus inter pares dos tribunais, abarrota com crimes sexuais, terroristas e financeiros, com o Emílio Botín a protagonizar um suposto escândalo bancário que nem a bolsa mexe, e até Bill Gates visitou a cidade numa visita relâmpago com funções de «marketing».
Mas Madrid não esquece. Um ano depois, os feridos, os voluntários, os órfãos e os viúvos continuam a chorar as mágoas e a reclamar as indemnizações prometidas. Uma paragem abrupta do metro encolhe o coração e um incêndio num arranha-céus faz lembrar que o perigo está aí. Todas as semanas noticiam que mais um cabecilha do massacre do 11-M foi apanhado, até então mais um ser anónimo com direito a uma existência corriqueira num bairro de Madrid, namorada espanhola e cartão de residente. Ninguém está a salvo do medo de voltar a andar de comboio ou de perder um amigo.
Porque fomos todos os madrilenos o alvo da infâmia cometida nesse dia que só prometia chuva, ressaca e banalidade. E madrilenos somos os que cá vivemos, equatorianos, moldavos, espanhóis «de toda la vida», os que viajam de comboio, ilegais e expatriados, donas de casa, meninos de colo, até executivos de passagem no aeroporto, universitários sem bolsa de estudos, portugueses emigrados, pedintes, bancários, médicos e putas da Calle Montera. Os assassinos que planearam durante anos o atentado não visaram aniquilar quem tem o poder de invadir países. A chantagem, o ódio e a cobardia escolheram como vítima o que representa o quotidiano, o crédito à habitação, as férias de verão e as eleições cada quatro anos – o nosso direito a escolher a existência que queremos viver, a possibilidade de fumar quando nos apraz, de amar e de dar vida. E há um ano Madrid optou por continuar em frente, às vezes com medo, outras com lágrimas a recordar uma dor que ainda não se foi embora, mas em frente.
Num ano há tempo para muita coisa, sobretudo para não desistir da vida.

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Sábado, Dezembro 08, 2007

HÁ DEZEMBRO SEM NATAL


Venus do espelho. National Gallery, Londres

As Fábulas de Velázquez. Só no Prado.

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Domingo, Novembro 04, 2007

DOMINGOS EM MADRID: A ampliação do Museu do Prado



Federico de Madrazo, La condesa de Vilches


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Terça-feira, Maio 15, 2007

15 DE MAIO, SÃO ISIDRO



"Este tipo de manifestações de fé não pode ser unicamente reduto do tal paganismo que prevaleceu na Europa após o desmembramento do império romano, da mutação das divindades rurais em santidades cristãs. A mistura de fervor religioso com a alegria nos festejos do Verão e do regresso dos emigrantes à terra só é susceptível de suceder em lugares onde a temperatura média é superior aos trinta graus e a religião dominante permite escolher santidades mais próximas ao quotidiano. As festas das aldeias continuam a honrar as Nossas Senhoras da Anunciação, da Saúde, da Ajuda, dos Remédios, dos Afligidos ou dos Pés Descalços e as efemérides do Santo António e do São João são em Portugal os momentos altos da vida social nas duas maiores cidades do nosso país. E entre as festarolas, os arraiais, o vinho tinto, a sardinha assada e os jogos de espingardas retorno por uns dias à devoção pela minha padroeira favorita, Santa Rita, a divindade total, muito mais poderosa que São Judas Tadeu e especialista nas causas impossíveis, daquelas tão complicadas que nem com uma simples oração se chega lá. A vida não está fácil e é sempre bom ter uma aliada entre o panteão de santos em vigor."
(Excerto da crónica Misticismo Estival publicada no DNa em Setembro de 2005)

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Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

MADRID E OS REIS

«Fea, pobre y portuguesa. ¡Chúpate esa!». Assim se mofava o povo de Madrid quando conheceu o nome da que seria a segunda mulher do rei Fernando VII, Isabel de Bragança. Filha do nosso João VI e sobrinha do seu próprio marido, Isabel não só era conhecida pela carência de beleza, formosura, bom gosto, elegância, graça ou inteligência, como também pela majestade da sua realíssima cornamenta. Uma desgraça, enfim, essa nossa delegação diplomática no país vizinho. Por sorte para a pobre senhora e para a imagem de Portugal, em três anos morreu, deixando o rei sem descendência e na obrigação de arranjar outra herdeira de pedrigree nobiliário, talvez mais apta para a reprodução e as lides de cama e que não causasse nos súbitos liberais monumentais ataques de riso na Praça de Oriente. Escolheu o monarca, fazendo gala do bom senso de quem só frequenta bordéis e corridas de touros, uma criança de quinze anos, alemã e virgem, com fantasmagóricas versões sobre as obrigações conjugais ensinadas por freiras apocalípticas e cuja performance na noite de núpcias roçou por momentos uma hilariante escatologia, misturando a adoração do Terço, espasmos, lençóis urinados e um rei histérico exigindo por carta ao Papa uma solução a tanta falta mística de coito: «¡O yo jodo de una vez con esa pazguata o que el Santo Padre anule mi matrimonio!». Esta também morreu. Sem filhos. Fernando 3 – Elas O.
E os madrilenos ficaram órfãos de uma monarca a quem dedicar operetas de escárnio, pasquins com caricaturas e filhos ilegítimos. Porque Madrid foi, é e será essa tia solteirona, sempre perto do alcoolismo, seca, bem vestida e com idade suficiente para falar mal dos outros. Madrid não respeita coroas, mas não pode viver sem elas. Fernando VII finalmente encontrou uma rainha à altura, que lhe deu duas filhas e se apoderou da regência do país. Graças a Maria Cristina, Madrid desfrutou da estrambótica figura de Isabel II, rainha, segundo o historiador José Luis Comellas: «desenvuelta, castiza, plena de espontaneidad y majeza, en el que el humor y el rasgo amable se mezclan con la chabacanería o con la ordinariez, apasionada por la España cuya secular corona ceñía y también por sus amantes». No universo mental do português actual, esta Isabel seria o resultado de clonagem do Alberto João Jardim, o Telmo-recruta e a doce irmã Lúcia. E Madrid vibrou com esta rainha, adolescente na cabeça e com o apetite sexual herdado no sangue borbón. Valle-Inclan desejou-lhe o exílio, o povo contava-lhe os amantes enquanto depositava naquela benfeitora com pouco alcance intelectual as esperanças democráticas de um país que ainda aprendia a brincar aos parlamentos. Quando Madrid se fartou de folhetins e de uma corte onde habitavam bruxas, santeiros e um rei paneleiro bastou-lhe expulsar Isabel II para os confins do esquecimento colectivo. «Y se armó la Gorda». Ou seja, a República.
Desde que Madrid é capital das Espanhas não há geração de poetas, pintores, músicos, dramaturgos, talhantes e condutores de coches com ou sem motor que não tenham feito da Monarquia motivo de chacota. As crónicas do Rei Enfeitiçado, as aventuras da Duquesa de Alba, a alcunha de «Pepe Botella» ao irmão de Bonaparte, a depressão de Afonso XIII: a cidade não resiste a uma boa cusquice, à zombaria mais ácida proporcionada pela por vezes excessiva proximidade dos monarcas que não tinham pudor algum em exibir dramas familiares, infidelidades e vícios demasiado niveladores. Lady Di, ao lado destes reis e respectivos consortes, amantes, conselheiros, desvio de dinheiros públicos, corrupção e bastardos, mais se parecia a Maria Von Traap, aquela noviça armada em agitadora social nos Alpes. O génio de Madrid, como o da nossa tia alcoolizada, recai no sentido de humor, na gargalhada sarcástica que teorizou a Zarzuela, reiventou o chotis e caracteriza anualmente os quadros de Goya como mais uma tradição popular irremediável. A Joaquin Sabina, poeta da movida dos oitenta rentabilizado pelas discográficas e saudosista da República, não se lhe caíram os anéis por partilhar mesa e talheres com os actuais Príncipes de Astúrias e em conjunto com os intelectuais menos monárquicos da cidade publicou um poema corrosivo, inteligente e carinhosíssimo em honra da futura rainha: «Las faltas de ortografía que desdeña la poesía a mí me la ponen dura, y esa zeta de Letizia es la falta y la delizia de una carizia madura».
Esta desvergonha tão castiça, esta sobranceria popular de quem tem os reis ao virar da esquina e que fez que Madrid idolatrasse uma rainha como Isabel II e fizesse da vida de José I uma galhofa constante, é um dos rasgos mais encantadores da capital desta Espanha em mutação constante, favorecido pela tradição da taberna, de passar o dia na rua, dos passeios pelo centro e da vida fora de casa. Enquanto os madrilenos sobreviverem ao complexo do centro comercial alcatifado e sem ruídos, a ousadia estabelecerá as normas de protocolo com uma casa real que se precisa com poder de encaixe e próxima do quotidiano dos madrilenos. Sem convulsões, mas com lucidez. «¿Por qué carajo te escribo? First of all porque estoy vivo y no me pienso morir», cantava Sabina a Letizia. Em outras palabras, porque assim é Madrid.

(uma das minhas crónicas favoritas publicadas no DNA)

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