Querido Blogue,
Leio pelas revistas da pós-modernidade que o Natal é uma bosta. Parece que é fino desprezar por pouco ecológico o festival de luzes do centro, que enjoar o calor da família em volta de uma mesa cheia de comida denota superioridade intelectual, que é de elevados passar a Noite na sopa dos pobres ou a sofrer lendo Paul Auster ( Eis uma razão superdigna para nunca ser de esquerdas). Sinceramente, já não há parrocha para estes cagões, para estes forretas sentimentais, seres hediondos mutilados de sentimentos genuínos que infelizmente criam tendência entre um povão cheio de cartões de crédito mas tão falto de referências vitais. Olhem para a blogosfera: o must é estar-se a cagar para o Natal. Que horror proletário.
Que quero eu então para o Natal? Amor no Mundo. Não, não estou a brincar às miss mundos: basta olhar para o povo que nos rodeia, reparar na carência efectiva de afectos, de quanto precisa a caixeira do supermercado desse “chega para cá, ó Maria, que eu quero te dizer uma coisa”. Não duvido que noventa por cento dos problemas da Humanidade se resolveriam com um par de quecas semanais. De peso, sim. Mas claro, o amor é fodido e nem toda a gente está preparada para ser digna dele, mas não faria mal à gentalha que entorpece o nosso quotidiano tentar ser menos tacanha no amor. Muito adora o povão celebrar com árvores, luzes e quinhentos euros em prendas idiotas o nascimento de Cristo, mas não me parece que ninguém se lembre da mensagem básica do discurso que lhe atribuem: “amem-se uns aos outros”, que não quer dizer que amemos o vizinho do 3-A com quem só nos cruzamos no elevador uma vez por semana. Também não é preciso exagerar. Amar-se uns aos outros é não deixar que o nosso marido vegete no sofá enquanto nos depilamos na casa de banho, é não dedicar o ócio a pastar em frente às montras nos centros comerciais, não permitir que os filhos sejam criados pela Play Station, é querer que os nossos velhos tenham um fim de vida digno.
O que eu quero para o Natal? Que os amantes se encontrem na cama, que sempre haja esperança de gostar de alguém.
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