Sábado, Junho 07, 2008

E COMO CADA 4 ANOS



Lá está o triste Portugal em frente à televisão de plasma à espera dum novo D. Sebastião que expulse os malvados espanhóis, o défice orçamental, a ASAE e os donos do pérfido Euribor. Este ano a promessa de glória, progresso e orgulho nacional chama-se Cristiano Ronaldo, um rapaz sem estudos mas boas pernas e namoradas com ar de putéfias que vive num castelo construído por Souto Moura numa ilha de névoa e chuvas. Já podem ir pendurando a bandeirinha pátria com o logo do bes na janela, que começa a parvoreira.

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Terça-feira, Maio 27, 2008

É PORTUGAL UM PAÍS DE GENTE ESTÚPIDA?

Não? Então que caralho de inquérito é este no Correio da Manhã?

» VOCÊ DECIDE
Cristiano Ronaldo pode sofrer com Núria por perto?


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Domingo, Dezembro 30, 2007

Voltei a Madrid.
Depois do Natal em Espinho, bacalhau cozido, passagem por Lisboa, capital às escuras, esburacada, capital de casas frias, húmidas, sem aquecimento porque a luz está cara e não há para isolamento nas janelas, capital do comércio tradicional à beira da extinção sempre por culpa do governo que não proíbe as grandes superfícies, capital deprimente de um país de deprimidos. Sim, Portugal é um país afogado numa depressão da que não se quer curar, numa depressão que curte e da que se orgulha. Olhei durante uma semana para a televisão do meu país e vi programas para o povo apresentados por mamalhudas analfabetas especializadas em entrevistar famílias de desdentados que se queixam de casas a cair de podres, telejornais feitos de entrevistas de rua a um povão que se queixa da subida do euribor, comentaristas políticos que se queixam da crise do BCP, o líder da oposição que se queixa porque não pode controlar a Caixa Geral de Depósitos. A queixa é líder de audiências na televisão portuguesa.
E que faz o Governo na quadra natalícia com o povo neste estado? Brindá-lo com mensagens de esperança? Não, fecha serviços de urgências no interior abandonado do país na véspera de Natal, manda cartas de penhora de contas, proibe fumar, ameaça com a ASAE (notazinha mental - não me fodam pá: enquanto toda a Europa premia o produto artesanal e manda levar no cu os burocratas de Bruxelas, neste meu país gerido por atrasados mentais penalizam-se os métodos tradicionais e os meios de subsistência centenários), deixa que as iluminações natalícias de Lisboa sejam patrocinadas pelo Santander. E avisa que a coisa só vai melhorar graças ao esforço do Governo. No discurso natalício do Primeiro Ministro não se ouve uma palavra de agradecimento pelo sacrifício das economias familiares, uma voz de ânimo, força, estamos quase lá! Que arrogante, este pequeno Sócrates que se pensa o fazedor de tratados só porque consta no título o nome de Lisboa, só porque se abraça ao namorado da Carla Bruni, só porque trata por tu o Zapatero.
Sim, voltei a Madrid, fugida de uma Lisboa que sempre amei e que agora me dá urticárias. Não posso com tanta queixa feita cancro de nós, não posso com este rame-rame obrigatório, com este modo de viver que recompensa a lamúria. Tenho pena e queria desejar-vos Bom Ano, que sejais felizes, mas só se me ocorre pedir-vos para desligar a televisão. Saiam à rua, encham os bares, obriguem os donos dos restaurantes a ligarem o aquecimento, iluminem as ruas de Lisboa com as luzes das vossas árvores de Natal, fujam dos centros comerciais e levem os vossos filhos aos jardins, namorem nos bancos dos parques e esqueçam que somos uma campanha publicitária chamada a Costa Oeste de Europa. Somos um país de gente pouco alegre, bem sei, mas também não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho.

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Terça-feira, Dezembro 25, 2007

ENFARDANDO


ovos moles de Aveiro

O Blogue, a autora, a família Barata Silvério e até Mr Pinheiro encontram-se em estado de clandestinidade total: sobre a mesa da sala, queijo artesanal da Serra da Estrela (ilegal), sericaia de Elvas e ameixas rainha cláudia (ilegal), rabanadas de leite (ilegal), ovos moles de Aveiro (ilegal). Para o próximo Natal, ou passamos a consoada a dieta gay, light e higienicamente embalada e pasteurizada ou então estamos todos na prisa com os inspectores da ASAE. Controladinhos e bem asseados, isso é que é importante.

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Terça-feira, Setembro 04, 2007

Mais professores

Eu, trabalhadora do sector privado, em público me flagelo. Mas que querem que vos diga, pá? Entendo a vossa raiva: não há trabalho para todos os professores, salários merdosos, deslocações injustas, projecto de cabrões a encherem as saulas de aula, pais reboleiros, mães incapazes, temário que trata os alunos como anormais... Mas como acham que o resto do povo se ganha a vida? A chorar? Eu emigrei para outro país, sou paga por cumprimento de objectivos, trabalho que nem uma puta e raras vezes almoço em menos de quinze minutos, o seguro de saúde custa-me o olho do cu, tenho clientes que parecem deficientes mentais e chefes a quem sem qualquer remorso apagaria um cigarro num olho e se amanhã prescindirem de mim não tenho sequer a oportunidade de voltar a ser readmitida. A maioria dos meus amigos têm contratos precários e férias é mentira, as empresas estão-se a cagar se as mulheres têm filhos e a resposta habitual para uma licença de parto é o mobbing ou como se caralho se chame à filha da putice do machismo que reina em quase todas as empresas privadas.
Que a vida é puta já todos sabíamos, mas ver manifestações de "coitadismo" dia sim e dia também só porque nada é garantido, já chateia. A sério que percebo a indignação de tantos bons profissionais, mas gostaria que tentassem ver como é a vida dos outros que não é que "fiquem de fora" é que nem sequer conseguem arranjar trabalho.

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Quinta-feira, Junho 14, 2007

32

Lucía, Celia, Rosario, Olimpia, Rita, Marcia del Carmen, a mulher de Benito Paz, uma alicantina de 33 anos, Noelia, Angelina, Julia, Gina, C.K.V, uma idosa de 74 anos, e assim até 32, que se diz depressa, foram as mulheres caídas desde Janeiro nesta Espanha que amanhã comemora com discursos e homenagens no Parlamento os 30 anos de Democracia. 32 irmãs, filhas, mães, namoradas ou desposadas, todas elas assassinadas por amor, porque antes morta que ver-te nos braços de outro, porque sem ti não sei viver, porque a culpa não é minha, porque estavas a pedi-las, porque, puta dum caralho, a mim ninguém me põe fora de casa. 32 mortas à martelada, queimadas com gasolina, esfaqueadas, atropeladas, atiradas pela janela, esvaziadas de vida depois de despojadas de dignidade. 32 casos de polícia, fulana de tal, de 45 anos, foi encontrada morta em sua casa, estava em processo de divórcio, blablabla, os vizinhos sabiam da história de violência familiar, os filhos estão desolados, o homem tentou suicidar-se. 32 notícias repetidas no início do telejornal, boa noite, mais uma vítima de terrorismo doméstico, entrevista ao ministro, ao chefe de polícia, ao maltratador redimido e à especialista em assuntos de género, resumo da lei integral e mudanças previstas. 32 mulheres foram mortas em Espanha por homens que se acharam sempre proprietários de um pedaço de carne, estes são os dados.
Em Portugal não há dados, não existem números oficiais. Em Portugal primeiro a mulher suicida-se, depois veremos se foi assassinada. Em Portugal há comissões, telefones de apoio à vítima, reuniões de peritos e uma lei que ninguém aplica. Em Portugal as mulheres que aparecem mortas no chão da cozinha com uma faca no peito não abrem noticiários, não são tema para ninguém. Porque no Portugal da Ota, do Cristiano Ronaldo, do túnel do Marquês, do Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional, da licenciatura do Sócrates, das sete maravilhas do mundo - dos temas de merda - a violência doméstica é conversa de feministas doidas, um assunto que não deve preocupar ninguém porque já se solucionará sozinho, porque tem a ver com a educação, porque há gajas que até gostam de levar, porque o matrimónio é sacrifício, porque se não saem de casa é porque não querem, porque ninguém tem a ver com a vida dos outros, porque a quem lhe importa o barulho da casa do lado com o euribor a subir, porque sempre foi assim. Isto é Portugal, um paízinho da treta que se acha importante porque tem auto-estradas, festivais de rock e um multibanco que funciona, mas que ignora tudo o que não seja capa de jornal, como as mulheres espancadas, mutiladas e mortas por aberrações de homens que sabem que têm todo o poder para desfazer vidas porque se está tudo a cagar, porque a quem lhe importa quantas caem, vítimas, de tanto desprezo. Se é intolerável 32 mulheres mortas, mais indigna saber que em Portugal nem sequer há números.

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Quinta-feira, Maio 17, 2007

PRÉMIO VAI AO CU A TI: O ESTADO PORTUGUÊS, EM GERAL

É o que dá viver em Madrid e não ser fufa, a minha atenção dispersa-se, oyes. Vai daí e leio no Arte da Fuga que o Estado português exclui o sangue dos homossexuais dos bancos de sangue, porque pelos vistos os maricas são demasiado badalhocos, chupapiças, pouco fiáveis, de risco. Pergunto-me se as fufas também entram nestes "homossexuais". Já agora, como é que os tira-sangue sabem quem um gajo é gay? Será que põem à traição canções da Barbra Streisand? Há um inquérito de discotecas favoritas? Quem falar da Doris Day não entra? Só dúvidas que matormentam, coño.
Aproveito a oportunidade para propor ao Estado português uma lista de indesejáveis a quem proibir dar a veia, mais de acordo com a realidade da nossa querida pátria.
- Camionistas
- Engravatados que só vão "beber um copo" ao Elefante Branco
- Senhoras entediadas que gostam muito do professor de ténis
- Pais respeitáveis que combinam com amigas do chat
- Porteiros de discoteca
- Estudantes do programa Erasmus
- Papa meninos do Parque Eduardo VII
- Metade do Bairro Alto um sábado
- Gajas que vão a despedidas de solteira
- Os strippers das despedidas de solteira

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Quarta-feira, Maio 02, 2007

COISAS BOAS DO MEU PORTUGAL



Portugal, um retrato social, de António Barreto. Um preciosidade de série, tão honesta que até dói. Aquilo somos mesmo nós: agora isto é um fartote de sexo para toda a gente, os putos saem até de madrugada, todos os meses temos direito a um macro-festivail pop/rock/indie/pimba, há centros comerciais, ócio para o povo, somos modernos, somos europeus! E livres! E capitalistas! Entre tanta eforia um jovem com dois brincos confessava num bar que não votava porque não percebe nada dessas coisas e que a relação com a mãe dele era fluída porque lhe podia pedir sempre tudo. Uma operária textil não sabia se estava sindicalizada nem quanto durava o seu contrato de trabalho. Sim, há carros novos em todos os passeios de Lisboa, há ATL na escolas, há bichas na zara e acordos colectivos de trabalho. Só que parece que não sabemos como é que isto nos foi cá parar às mãos, parece que vivemos de emprestado. Espero que o programa do António Barreto seja visto por muita gente, que se edite em DVD, que as pessoas falem dele nos cafés. É bom ver por uma vez um programa de televisão que nos questiona e sem procurar um culpado lá fora, sem nos vitimizar.

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