E COMO CADA 4 ANOS

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ENFARDANDO

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32
Lucía, Celia, Rosario, Olimpia, Rita, Marcia del Carmen, a mulher de Benito Paz, uma alicantina de 33 anos, Noelia, Angelina, Julia, Gina, C.K.V, uma idosa de 74 anos, e assim até 32, que se diz depressa, foram as mulheres caídas desde Janeiro nesta Espanha que amanhã comemora com discursos e homenagens no Parlamento os 30 anos de Democracia. 32 irmãs, filhas, mães, namoradas ou desposadas, todas elas assassinadas por amor, porque antes morta que ver-te nos braços de outro, porque sem ti não sei viver, porque a culpa não é minha, porque estavas a pedi-las, porque, puta dum caralho, a mim ninguém me põe fora de casa. 32 mortas à martelada, queimadas com gasolina, esfaqueadas, atropeladas, atiradas pela janela, esvaziadas de vida depois de despojadas de dignidade. 32 casos de polícia, fulana de tal, de 45 anos, foi encontrada morta em sua casa, estava em processo de divórcio, blablabla, os vizinhos sabiam da história de violência familiar, os filhos estão desolados, o homem tentou suicidar-se. 32 notícias repetidas no início do telejornal, boa noite, mais uma vítima de terrorismo doméstico, entrevista ao ministro, ao chefe de polícia, ao maltratador redimido e à especialista em assuntos de género, resumo da lei integral e mudanças previstas. 32 mulheres foram mortas em Espanha por homens que se acharam sempre proprietários de um pedaço de carne, estes são os dados.
Em Portugal não há dados, não existem números oficiais. Em Portugal primeiro a mulher suicida-se, depois veremos se foi assassinada. Em Portugal há comissões, telefones de apoio à vítima, reuniões de peritos e uma lei que ninguém aplica. Em Portugal as mulheres que aparecem mortas no chão da cozinha com uma faca no peito não abrem noticiários, não são tema para ninguém. Porque no Portugal da Ota, do Cristiano Ronaldo, do túnel do Marquês, do Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional, da licenciatura do Sócrates, das sete maravilhas do mundo - dos temas de merda - a violência doméstica é conversa de feministas doidas, um assunto que não deve preocupar ninguém porque já se solucionará sozinho, porque tem a ver com a educação, porque há gajas que até gostam de levar, porque o matrimónio é sacrifício, porque se não saem de casa é porque não querem, porque ninguém tem a ver com a vida dos outros, porque a quem lhe importa o barulho da casa do lado com o euribor a subir, porque sempre foi assim. Isto é Portugal, um paízinho da treta que se acha importante porque tem auto-estradas, festivais de rock e um multibanco que funciona, mas que ignora tudo o que não seja capa de jornal, como as mulheres espancadas, mutiladas e mortas por aberrações de homens que sabem que têm todo o poder para desfazer vidas porque se está tudo a cagar, porque a quem lhe importa quantas caem, vítimas, de tanto desprezo. Se é intolerável 32 mulheres mortas, mais indigna saber que em Portugal nem sequer há números.
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