VIDA DE PRENHA - A SÉRIE INEVITÁVELAi, que complexa é esta vida da prenha e deste corpo que de repente já não me pertence. Que se desenganem as moçoilas parideiras, uma grávida nunca é a verdadeira dona do seu corpo, quanto mais do útero e do que lhe vai crescendo lá dentro. Olhem para mim, uma noite era essa gaja boazuda que fazia a prova do predictor e ao dia seguinte passei a engrossar as filas das mulheres-incubadoras, esses seres abstractos portadores de vida e portanto sujeitos a análise (ao sangue, ao mijo, à tensão, à tesão e ao peso) e ao escrutínio dum povão que poderá não ter acabado a quarta classe e jurar a pés juntos que Judeia é um centro Comercial algures no Feijó, mas que domina como um Licenciado em Medicina Cum Laude na Univeridade de Harvard o sempre fascinante (?) tema da prenhez da outra.
Não há quem se resista a dar uma opiniãozinha baseada em princípios fundamentais como o empinanço da barriga, a qualidade da pele do cu, o crescimento das unhas, a posição da Lua e dos satélites de Marte em relação à folhagem do Passeio do Prado ou o resultado de uma equação que mete o número do sapato, as quartas-feiras do ano e a idade da bisavó quando engendrou o décimo filho. A ciência é fodida, mas todos sabem mais que o meu ginecologista, coitado do home, nem sei porque insisto em pagar-lhe. E não importa a relação, a intimidade, o grau de parentesco que os outros tenham comigo, sempre há alguma coisita a dizer, mais uma sentença a cagar, em voz alta, com público e à procura de outros peritos na gravidez alheia que confirmem tamanhas certezas. Se a minha barriga é redonda, é menina, e se é bicuda também, porque o importante são os tornozelos, os pulsos e o branco dos olhos, e quanto pesas já, porque estás gorda, é melhor andares muito, mas não nades que ainda tens alergias e se és alérgica ao presunto o melhor é congelar, mas pouco, ou muito, porque depende, mas as meias que sejam de grávida por causa das varizes, e as calças que não te apertem e tem cuidado com as estrias, posso tocar, e senão também toco, e não podes fazer madeixas, nem depilar-te a cera quente, nem vás ao ginásio, nem à sauna, e não comas sushi, nem ostras, e as saladas lava-as com lixívia, e vê lá se usas creme para a barriga, e que marca, e como o espalhas, que não seja o mesmo das mamas, porque as mamas, estás cá com umas mamas, ai Rititi, que grandes estão as tuas mamas, toquem toquem...
Ai, as mamas. Só o tema (e o tamanho) das mamas poderia alimentar o meu blogue (e metade do continente africano) até ao nascimento do Rititi-Boy. Mas atendendo ao que sempre foram, não entendo tamanha preocupação: era inevitável que atingissem esta dimensão de hipermercado lácteo. Meus queridos amigos/colegas/familiares em terceiro grau: não se ralem que eu não caio de boca. E até dizem que já inventaram os aparelhos chamados sutiãs que dão muito jeito nestes casos determinados. E aliás, a única pessoa interessada neste tema não só não se queixou como parece estar bastante satisfeito com a evolução da coisa.
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