RUSCALLEDA SENSATIONS I
(sem fotos, por agora)
Nun, em egípcio, significa o princípio de todas as coisas. Ou pelo menos isso foi o que nos explicou o escanção (eu prefiro sommelier, mas Mr. Pinheiro é um purista da edição) sobre o nome do Penedès de 2005 que nos acompanhou durante almoço no Sant Pau. Ai, quem me dera ser crítica gastronómica e examinar prato a prato as maravilhas do escabeche de vinagre, o esplendoroso que estava o consomé de pato e choco ou as gargalhadas que nos provocou a sobremesa "e-mail" (com @rroba e tudo). Deixo isso ao Duarte Galvão e demais especialistas em comeres. Sim, a comida do restaurante da única mulher que tem 3 estrelas Michelin em Espanha é impressionante, soberba até, e merece cada estrelinha dada. Mas não é por isso que vale a pena viajar seiscentos quilómetros, de comboio e com direito a atrasos, uma sexta feira depois de trabalhar e a cabeça cheia de trabalho e reuniões soporíferas. Comer é um direito, um acto banal e físico, indispensável e obrigatório, mas o que nos fez descer das árvores e começar a mandar no mundo dos bichos foi a exigência do extraordinário, da nossa própria excelência. E ser teimosos. Naquela casa feita restaurante, com vistas para o Mediterrâneo mais azul, o mar da luz intensa e cálida, não só se come, desfruta-se no sentido mais concreto do termo: colhemos o fruto do amor aos sabores das coisas, da beringela, do pão feito lá, dessa manteiga que tira o soluço. E hoje, compradinha a Vanity Fair de Julho, a mesma que nos alerta sobre a África faminta no meio de anúncios de cremes anti-idade, celebro a necessidade do capricho pelo estômago e penso que o mundo seria um lugar melhor se em cada garfada puséssemos a vida e tentássemos deixar para amanhã as incomodidades dos dias que tantas vezes nos parecem infinitos. Talvez seríamos mais felizes se um arroz de lavagante nos lembrasse que o princípio de todas as coisas é o comer.
Etiquetas: caprichos, carmen ruscalleda, sant pau
