Há muito cliché por desmontar no mundo da literatura actual, sobretudo quando toca a chamada «escrita feminina«. E falo porque sofro nas carnes o mito de ser a viva imagem da mulher moderna, desinibida e sem complexos que tecla o que lhe sai da alma durante a noite, apoiada unicamente no fumo do SG Ventil e um copo de gin tónico. Tudo mentira. A cronista verdadeiramente progressista, desbragada e valente não é a que escreve sobre sexo, drogas e música clássica, mas sim aquela que se atreve com o tema inominável, mais sagrado que o mistério da virgindade de Nossa Senhora ou o segredo do cabelo de Fátima Felgueiras: a sogra. Eu, como devem ter reparado, não passo de mais uma cronista conservadora, engraçada mas medrosa, daquelas que até poderiam mudar as mentalidades interplanetárias, mas a quem a vida e as suas circunstâncias coartam. No meu caso a circunstância chama-se marido, o filho da minha sogra. Aqui fica então: a minha sogra é uma santa. Ponto final.
Não se deixem enganar; todos os textos que encontrarem publicados na imprensa nacional e estrangeira sobre A Sogra foram, são e serão escritos por vingativas divorciadas, solteiras empedernidas, mentirosas compulsivas ou mulheres que escondem as letras baixo um total anonimato. Porque mulher que preza o que tem em casa não se atreve a ridiculizar, satirizar ou desdenhar em palavras impressas a senhora que melhor cozinha do Universo, a virtuosa da agulha e o dedal, o ícone da pureza, bondade e candidez. Isso só se faz com as amigas mais íntimas e às escondidas de madrugada num bar sob os efeitos do álcool, o grande libertador das línguas castradas. Mãe só há uma, a dele e mais nenhuma, nem que seja uma bisbilhoteira insuportável, agarradinha aos ansiolíticos ou o cadáver putrefacto e hediondo de «Psycho». Entre o homem e a mãe dele aconselham a sabedoria popular e avós a não meter a colher, a orelha e as horas de productividade laboral. A relação do «filho-ele» com a mulher que o trouxe a este mundo cão e traidor só pode ser analisada desde a perspectiva do misticismo cristão, e nós, as esposas, namoradas ou amantes, devemos admitir que entre esses dois seres existe uma comunicação oculta ao melhor estilo de San Juan de la Cruz com o Altíssimo, sendo que a divindade neste caso é a mãe, a fonte inesgotável de vida, sapiência, a causa primeira e o fim de todas las coisas.
Tony Soprano, o gangster mais deprimido da ficção por cabo, além de assassino implacável e moralmente corrupto também era um filho da mãe, mais concretamente de uma viúva dona das suas manias, chata como a potassa, intriguista e carente. Nada de novo no frente familiar, dirão. O que diferencia Livia Soprano de qualquer mãe de vizinho é o total desprezo pelos rebentos, o nojo físico que os filhos lhe provocam. «As crianças são animais, não muito diferentes dos cães». E para combater a inevitabilidade de vir a morrer sozinha num lar da terceira idade alcatifado e com aquecimento central, Livia não recorreu à chantagem emocional, a arma implacável das senhoras desocupadas - bastou-lhe com arquitectar o assassinato de Tony, o herdeiro macho do império mafioso de Nova Jérsei. Deixou o filho de a amar incondicionalmente, apesar da terrível verdade de saber que nunca foi querido? Acaso a velha passou fome, frio, foi obrigada a pedir à porta da igreja ou assistir como público ao Dia das Avós com o Manuel Luis Goucha na TVI? Morreu feliz, quentinha na cama. E Tony chorou-lhe.
As mulheres temos uma relação esquizóide, mas realista, com as nossas mães. São elas o alvo dos terrores uterinos, o espelho do que seremos com a passagem dos anos e das rugas, o resumo da história da nossa vida. Não há fantasia possível na ligação com a mulher a quem devemos a vida e as contas do telefone: somos incapazes de as idololatrar sem sentir uma inveja infantilmente insana enquanto dormimos; sabemos que queremos ser como elas, mas sem as neuroses, as crises de meia-idade e o degenerar das ancas. A certeza da evolução do corpo e os genes partilhados fazem que as amemos sem mais histeria que a visita surpresa quando a casa não foi arrumada (conforme os gostos delas, pois não). Infelizmente os homens não têm ovários. Não telefonam à mãe do emprego com o digníssimo propósito de entregar o relatório diário sobre o jantar, a telenovela e as intrigas conjugais; estão incapacitados para o desfrute da fofoca e o mal-dizer na cozinha; desconhecem os prazeres da desaprovação feminina. Os gajos gostam da mãe porque sim. E isso é doentio. E perigoso.
Só há uma saída para as que pretendem a perdurabilidade no ajuntamento livre de dois adultos: a falta de interesse por esse estranho caso de amor sem reservas ou porquês. Desentendam-se, mulheres, desliguem, partam para outra. Mesmo custando, finjam que não é inconcebível que um homem maduro que se comunica unicamente com a mãe à base de monossílabos e uma vez cada dois meses sinta por ela uma veneração absoluta com vinte e quatro horas de bateria e o GPS sempre ligado aos melhores satélites do mundo. Sogra? Eu cá não escrevo disso! Só se for da dele, que é absolutamente fabulosa e nunca chateia!
( crónica publicada no suplemento DNa, em Outubro de 2005)
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