Quarta-feira, Outubro 14, 2009

AI, SE FALTASSE SÓ O SENTIDO DE HUMOR

É fatal como destino: cada vez que escrevo sobre Portugal, uma horda de ofendidos inunda-me a caixa de comentários com impropérios e desejos de morte lenta e dolorosa. Porque o português não aceita críticas à nação, mesmo que a nação seja uma puta que fode mal e cobra caro. Portugal, graças aos campeonatos de futebol, à banalização do hino e a uma retorcida e não poucas vez inconstitucional manipulação da bandeira, passou de país a mito. Portugal já não é só um lugar, um sítio um gajo nasce mas sim um estado espírito que devemos partilhar todos os portadores de BI, um grupo sanguíneo metafísico, o tal genoma. Falar mal de Portugal é, portanto, trair-nos a todos, um desafio ao nosso ser ancestral, ao Viriato, ao pastel de Belém, à merda dos cães nas ruas, ao fado e à Soraia Chaves. Lamento, mas é preciso ser muito pequenino da cabeça para ficar ofendido depois de ver o vídeo da Maitê Proença. O que me ofende e me envergonha é tanto provincianismo encapotado. Digam-me: qual é o problema que alguém goze com a inaptidão para os computadores de um suposto técnico da informática? Só porque é brasileira? Acaso o número da porta da casa de Sintra não estava ao contrário? Maitê, depois de pedir desculpa, fica-se com uma reflexão: "acho que está faltando humor nas pessoas". Fosse só isso, cara Maitê. O que falta nessa gente tão indignada e sofrida é autocrítica, toneladas de humildade, vergonha na cara e viajar, mas viajar bem longe mesmo. Eu, que querem que vos diga, até achei simpático e inonfesivo o vídeo, mas deve ser porque vivo há muito tempo fora dessa placenta mística chamada Portugal. Cambada de menstruadas, é o que é.

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Domingo, Junho 07, 2009

Alguém apresente uma mulher de jeito ao Pedro Lomba, sff.
(ou simplesmente uma mulher, vá lá)

"Para as mulheres, não existem abstracções. Por exemplo, não existe o Homem mas homens concretos e mulheres concretas. Existe o pai, o irmão ou, desculpem o termo, o companheiro; nunca o membro insípido e distante da espécie. Depois, reparem que as mulheres, que nunca fizeram muitas revoluções, nunca fizeram, sobretudo, revoluções inúteis. "

Talvez deveria mandar um mail a perguntar ao rapaz e jurista o conceito de revolução. Deve ser uma coisa assim muito masculina, em abstracto, filosófica. Mas prefiro perder o meu tempo a rever Kill Bill.

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Quarta-feira, Maio 06, 2009

Levanto-me às sete da manhã e em meia hora tomo banho, penteio-me de cu para o ar com um secador que aquece mais que seca, escondo as olheiras, borbulhas e marcas da vida debaixo de uma capa de cinco centímetros de maquilhagem aerodinâmica, tira-nódoas e com bífidus activo engrupida pela menina da perfumaria que vai todos os anos de cruzeiro graças às fortunas que me deixo na loja, mascaro-me de executiva sexy e no entanto agressiva com um vestido estrategicamente situado a cinco centímetros do joelho, mais a minha meia de seda, o meu colar de pérolas e o meu anel xxl, saio de casa com os saltos a saltarem-me dos pés e a mala pendurada do pescoço, apanho dois autocarros onde leio religiosamente o El País ou a Coure, dependendo da temperatura ambiente, sento-me na secretária às oito e de enfiada, sem passar pela casa de partida, atendo clientes, faço negócios, dou uma volta à agenda, engulo sapos, o que vem sendo trabalhar em definitiva, até às duas e meia, hora em que volto a apanhar dois autocarros, desta vez o vestido enrugado, a meia toda paridinha e o El País de almofada para os calos, chego a casa onde almoço, com um bocado de optimismo, as sobras do dia ou da semana anterior e às quatro da tarde vou buscar o meu filho. As tardes são dele e para ele. Reduzi horário, reduzi salário, reduzi almoços de trabalho, reduzi reuniões inúteis, e, desta já estava à espera, reduzi qualquer hipótese de aumento, promoção, reconhecimento ou palmadinha nas costas. Mas, repito, desta já estava à espera. Como também não me surpreendeu ter sido banida da agenda social, dos bares nocturnos, das festas com gente gira e magra e alta. Foi parir e adeus à fabulosa Rititi que era divertidíssima e culta e pelos visto gira e cómica e mordaz, a alma das festas, o máximo. Foi parir e chaué, assim, sem uma explicaçãozita, um desculpa lá mas afinal as tuas festas, lembras-te, aquelas a que sempre íamos, às do monte, às do apartamento, às dos teus anos, às da primavera, às do cozido, às do caralhotafoda eram uma seca imensa. De rainha da festa a rainha da fralda, eis um verdadeiro caso de redução social, que se agrava ainda mais quando se toca o tema da carreira. Porque aqui, caros leitores, fiéis seguidores e amantes do universo rititiniano, ai, aqui a vossa ídola ficou reduzida a uma dona de casa. Condescendência é pouco, agora sou uma pária laboral, como se o fabuloso mundo dos lucros, das viagens de trabalho e dos saltos em trapézio não me correspondessem por ter parado um bocadinho, por esta decisão de querer partilhar os primeiros passos, primeiros dentes, primeiros anos. Desci automaticamente à segunda divisão, às das cobardes, às das que desistiram de ser tudo, como se fosse obrigatório ser uma super mãe, super trabalhadora, super apressada, super magra, super despachada, super mártir de uma ideia de super mulher incansável e cumpridora de todas as obrigações possíveis, sem dormir, sem comer, fazendo sacrifícios em nome do feminismo universal. Trabalhar duas horas menos em nome de um filho que só é pequenino uma vez é sinónimo de desleixo profissional, pessoal e moral e isto, amigos, não o dizem só as entidades patronais, não, são as mulheres as que recriminam esta decisão pessoal como uma traição à causa da mulher perfeita, ao biquini, ao descobrimento da pílula, ao direito ao voto e ao aborto, ao Sex and the City e aos milhares de anos de luta de sexos. Claro. A ministra de Defesa, a grávida sinónimo da paridade de Zapatero, pariu e seis semanas depois já estava a comandar o exército espanhol. A Vice Presidenta Fernández de la Vega, a mulher mais importante de Espanha e a bandeira da igualdade entre sexos é solteira, não tem filhos e fala com normalidade dos sacrifícios pessoais que obviamente uma mulher tem que fazer para corresponder aos desafios que lhe são propostos. A escolhida para ser Ministra de Igualdade é uma solteira de trinta anos. Se eu trabalhasse dez horas, tivesse três empregos, dois telemóveis, uma criada interna, não comesse nem dormisse nem cagasse, se visse o meu filho a partir das oito da noite em nome de uma carreira e do êxito profissional, então mereceria todos os louvores, aplausos, o reconhecimento dos meus pares, seria uma mulher modelo, a super mãe, a super gaja. Mas não. Agora sou uma sopeira. A conciliação familiar, que por sorte está legislada e é motivo para processar empresas, chefes e pôr a mexer os sindicatos, é uma teoria bonita mas à que convém, pelo bem da reputação de cada uma de nós, nunca acolher-se. Passámos de exigir direitos de igualdade, paridade e o caneco à obrigação social de renunciar a eles. E isto, desculpem-me a franqueza, é a maior filha da putice que nos podia ter caído em cima.

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Sexta-feira, Abril 24, 2009

Nesta minha vida de andar para trás e para a frente, de saltar fronteiras muito antes de saber de continentes, tradições e regimes políticos, neste ter aprendido a falar em duas línguas ao mesmo tempo, a ter a dois países como pátria e a entender as profundezas de cada um com mais curiosidade que histeria nacionalista, nesta interferência de gente que se descruza na vida de cada um com os seus amigos, gostos, livros, escolhas, devoções e canções favoritas, uma gaja vai aprendendo que não há verdades absolutas, que mesmo que em casa se faça vudu com a fotografia do presidente da Conferência Episcopal espanhola sabemos que às vezes rezar à nossa Senhora do Carrapito até ajuda mais do que as teorias higiénicas do laicismo poderão alguma vez legislar, que desgraçadamente não podemos dinamitar centros comerciais, campos de futebol, Felgueiras e os estúdios da TVI até porque as nossas avós seguem religiosamente as telenovelas cada tarde até bem entrada a madrugada, e aliás, acontece que há gente para tudo, porra, até daquela que tem ataques suicidas quando o Real Madrid empata, não muda de carro desde 1983, quadros de grandes empresas que só lêem livros escritos por apresentadoras de televisão, mães cujo momento alto dia é quando acendem o chribiti de erva assim que deitam os filhos, casais publicamente felizes que se encornam alarvemente e gente que apreciamos e pela que sentimos respeito e admiração social, moral e intelectual que caça perdizes, coelhos, tordos, veados, gamos e javalis nos seus tempos livres, por não falar daqueles que praticam matanças (recordo que ilegais) de porcos com um golpe seco na garganta do bicho que entretanto roja sangue e guincha e sofre horrores sem anestesia e sem que a ninguém, mais além dos burocratas de Bruxelas, lhe pareça incomodar, tal a quantidade de chouriço, morcelas e toucinhos que se enchem os corredores dos hipermercados periféricos, e sobretudo que há mais vida além da suposta burguesia urbana que é de esquerda quando lhe convém defender direitos abstractos e sobretudo longínquos, e por muito confrangedor que lhe possa parecer a esta gente que se imolaria para defender a integridade física do touro, as pessoas que enchemos as praças não somos energúmenos, analfabetos, nem filhos deficientes fruto de casamentos entre tios idosos e sobrinhas boazonas, que duvido que Vargas Llosa, Lorca, o meu pai ou o Joaquim Grave estejam ao nível dos inquisidores do séculos XVI e o que me parece ainda mais triste, de tão patético, é ver a estes iluminados dos direitos dos animais a atingirem orgasmos intelectuais com as declarações, toscas e pouco fluidas, mas profundamente honestas, de gente que vive de e para o touro, que conhece o animal melhor que qualquer organização ecologista sediada em Londres porque precisamente vive com ele no campo, sofre a falta de chuva e a escassez das pastagens, assiste nos partos, está presente na escolha e sorteio das reses para as praças de touros, transporta o animal até ao ruedo e o acompanha durante e depois da morte, quando o animal é esquartejado e enviado aos talhos. Não é desonesto, é directamente estúpido, mas isto sou, claro, que não fui ungida pela sensibilidade do amor ao animal. Deve ser isso.

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Domingo, Janeiro 06, 2008

MACHISTA NÃO É SÓ QUEM BATE NA MULHER

As mulheres, duas ou três que por lá andam (na revista Atlântico) escrevem umas coisitas sobre a vida mundana. (...) E os homens atlânticos aplaudem-nas como cãezinhos, neste caso cadelinhas, amestradas que brilham com os seus truques de circo. Bravo.

Cara Ana de Amsterdam, tem toda a razão. A minha estupidez genética (sabe, sou mulher) e total incapacidade de apreender qualquer informação digna de ser vomitada num artigo da imprensa escrita obriga-me a escrever sobre idiotices, banalidades da vida mundana. Deve ser o hábito de ser aplaudida como a uma vaca que acabou de ganhar o primeiro prémio na feira Agropecuária de Beja, não me leve a mal: cá em casa é assim, cada vez que abro a boca atiram-me moedas de dez cêntimos que vou amealhando para comprar mais uma Hola, a minha bíblia vital.
Suplico-lhe, porfavorporfavor, que tenha compaixão de mim, pois não passo de uma fútil rapariga a quem os ovários, as mamas e a obrigação de pôr máquinas a lavar negaram a profundidade para dissertar sobre temas verdadeiramente importantes e publicáveis. Graças a Deus existem homens que escrevem nas revistas, e nos blogues, e nos livros – sabe-se lá a rebaldaria de sentimentos que esta merda não seria. E graças a Deus que temos por cá mulheres como a estimada Ana, que nos lembra ao resto do gajedo que a futilidade não nos é permitida, que escrever (e ser paga por isso) sobre sapatos ou filhos é para donas de casa mentais, sopeiras que não ouvem músicas em francês, analfabrutas sem acesso aos cursos de mestrado na Universidade Nova e que só seremos respeitadas quando nos comportarmos como homens e aprendamos a mijar de pé e a escrever sobre grandes assuntos da Humanidade (quem sabe se crónicas sobre futebol e charutos não nos dignifiquem). Só não lhe perdoo a comparação com as cadelinhas: tive uma rafeira chamada Leidi que era muito mais inteligente que maior parte dos bloggers que poluem a internet pátria, por muito Coetze que leiam. Bom Ano.

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Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Querido Blogue,

E depois se a miúda morreu por causas acidentais, um golpe na cabeça, overdose de barbitúricos, estupidez parental, malícia ou falta de jeito? E depois se a piquena, a quem o povão, bêbedo pela estúpida sensação de proximidade, com lagriminha pronta para o depoimento para o telejornal da noite trata por Maddie, a menina mais linda da Inglaterra, a do olho com a marca da campanha mundial onde habitam futebolistas, escritores best-sellers e até o Papa de Roma, não foi raptada, nem presa de máfias de órgãos, nem vítima de um sádico algarvio que a desfez em mil pedaços? E depois se foi a mãe, o pai ou os até os dois, que diferença haveria com outras meninas mortas, com as outras crianças afogadas com a almofada, estranguladas, envenenadas, esfaqueadas pelas mãos que as deveriam amar? Quem distingue entre uma loirinha de classe média inglesa e o piolhento do bairro da lata, entre a desaparecida num resort de luxo tudo incluído do pretenso primeiro mundo e os que nada podem meter à boca? Até quando teremos que suportar esta histeria de verão, um simples caso de polícia que, de tão manuseado pelas televisões, opinadores de meio pelo e gentalha à porta da igreja, relações públicas que engordam as contas bancárias de tanto chupar o sangue de uma criança e porta-vozes de ministérios e polícias que vociferam provas que já não o são, não passa de uma nauseabunda exposição de uma desgraça enorme mas igual a tantas outras inomináveis barbaridades que se cometem todos os dias? A estas alturas, com os media e vozes entendidas, juristas, pediatras e psicoanalistas a espalhar sem o mínimo de pudor tamanha miséria, vendo este cúmulo de desvergonha, sinto tanto asco que a minha esperança no ser humano, em geral, perde-se. Acabou-se a fé nesta merda toda. Cambada de anormais estamos feitos. Todos.

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Terça-feira, Maio 22, 2007

OUTRAS MANIFESTAÇÕES DE ALEGRIA POSSÍVEIS


(no el País)

Ashia, a líder do lenço: Alá guarde para sempre o grande Ahmadineyad!
Coro exaltado: Alá é grande!
Ashia, a líder do lenço: O Profeta que o guie no seu caminho contra a devassidão!
Coro, a transpirar fé: E Maomé o seu único profeta!
Ashia, a líder do lenço: Pois Ahmadineyad, na sua grande sabeduria, persegue a vestimenta indecorosa!
Coro, doido: Que livres nos sentimos mascaradas de Batman!

Ashia, a líder do lenço: Amemos os homens das "patrulhas morais", santos que prendem as libertinas que mostram o cabelo e não se vestem de preto!
Coro, todas solteiras: Ainda bem que os homens é que sabem!
Ashia, a líder do lenço: Queimemos a roupa da Zara!
Coro, a cuspir na foto do dono da Inditex: É pecado mostrar o ombro!
Ashia, a líder do lenço: Os tops, os vestidos e as calças justas provocam violações!
Coro, a lamentar: E fazem-nos mais gordas!
Ashia, a líder do lenço: A Vogue é impura!
Coro, atónito: Não sabemos o que isso é!
Ashia, a líder do lenço: Alá é grande!
Coro, exausto: Outra vez?

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