AI, SE FALTASSE SÓ O SENTIDO DE HUMOR
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AI, SE FALTASSE SÓ O SENTIDO DE HUMOR
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Levanto-me às sete da manhã e em meia hora tomo banho, penteio-me de cu para o ar com um secador que aquece mais que seca, escondo as olheiras, borbulhas e marcas da vida debaixo de uma capa de cinco centímetros de maquilhagem aerodinâmica, tira-nódoas e com bífidus activo engrupida pela menina da perfumaria que vai todos os anos de cruzeiro graças às fortunas que me deixo na loja, mascaro-me de executiva sexy e no entanto agressiva com um vestido estrategicamente situado a cinco centímetros do joelho, mais a minha meia de seda, o meu colar de pérolas e o meu anel xxl, saio de casa com os saltos a saltarem-me dos pés e a mala pendurada do pescoço, apanho dois autocarros onde leio religiosamente o El País ou a Coure, dependendo da temperatura ambiente, sento-me na secretária às oito e de enfiada, sem passar pela casa de partida, atendo clientes, faço negócios, dou uma volta à agenda, engulo sapos, o que vem sendo trabalhar em definitiva, até às duas e meia, hora em que volto a apanhar dois autocarros, desta vez o vestido enrugado, a meia toda paridinha e o El País de almofada para os calos, chego a casa onde almoço, com um bocado de optimismo, as sobras do dia ou da semana anterior e às quatro da tarde vou buscar o meu filho. As tardes são dele e para ele. Reduzi horário, reduzi salário, reduzi almoços de trabalho, reduzi reuniões inúteis, e, desta já estava à espera, reduzi qualquer hipótese de aumento, promoção, reconhecimento ou palmadinha nas costas. Mas, repito, desta já estava à espera. Como também não me surpreendeu ter sido banida da agenda social, dos bares nocturnos, das festas com gente gira e magra e alta. Foi parir e adeus à fabulosa Rititi que era divertidíssima e culta e pelos visto gira e cómica e mordaz, a alma das festas, o máximo. Foi parir e chaué, assim, sem uma explicaçãozita, um desculpa lá mas afinal as tuas festas, lembras-te, aquelas a que sempre íamos, às do monte, às do apartamento, às dos teus anos, às da primavera, às do cozido, às do caralhotafoda eram uma seca imensa. De rainha da festa a rainha da fralda, eis um verdadeiro caso de redução social, que se agrava ainda mais quando se toca o tema da carreira. Porque aqui, caros leitores, fiéis seguidores e amantes do universo rititiniano, ai, aqui a vossa ídola ficou reduzida a uma dona de casa. Condescendência é pouco, agora sou uma pária laboral, como se o fabuloso mundo dos lucros, das viagens de trabalho e dos saltos em trapézio não me correspondessem por ter parado um bocadinho, por esta decisão de querer partilhar os primeiros passos, primeiros dentes, primeiros anos. Desci automaticamente à segunda divisão, às das cobardes, às das que desistiram de ser tudo, como se fosse obrigatório ser uma super mãe, super trabalhadora, super apressada, super magra, super despachada, super mártir de uma ideia de super mulher incansável e cumpridora de todas as obrigações possíveis, sem dormir, sem comer, fazendo sacrifícios em nome do feminismo universal. Trabalhar duas horas menos em nome de um filho que só é pequenino uma vez é sinónimo de desleixo profissional, pessoal e moral e isto, amigos, não o dizem só as entidades patronais, não, são as mulheres as que recriminam esta decisão pessoal como uma traição à causa da mulher perfeita, ao biquini, ao descobrimento da pílula, ao direito ao voto e ao aborto, ao Sex and the City e aos milhares de anos de luta de sexos. Claro. A ministra de Defesa, a grávida sinónimo da paridade de Zapatero, pariu e seis semanas depois já estava a comandar o exército espanhol. A Vice Presidenta Fernández de la Vega, a mulher mais importante de Espanha e a bandeira da igualdade entre sexos é solteira, não tem filhos e fala com normalidade dos sacrifícios pessoais que obviamente uma mulher tem que fazer para corresponder aos desafios que lhe são propostos. A escolhida para ser Ministra de Igualdade é uma solteira de trinta anos. Se eu trabalhasse dez horas, tivesse três empregos, dois telemóveis, uma criada interna, não comesse nem dormisse nem cagasse, se visse o meu filho a partir das oito da noite em nome de uma carreira e do êxito profissional, então mereceria todos os louvores, aplausos, o reconhecimento dos meus pares, seria uma mulher modelo, a super mãe, a super gaja. Mas não. Agora sou uma sopeira. A conciliação familiar, que por sorte está legislada e é motivo para processar empresas, chefes e pôr a mexer os sindicatos, é uma teoria bonita mas à que convém, pelo bem da reputação de cada uma de nós, nunca acolher-se. Passámos de exigir direitos de igualdade, paridade e o caneco à obrigação social de renunciar a eles. E isto, desculpem-me a franqueza, é a maior filha da putice que nos podia ter caído em cima.
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MACHISTA NÃO É SÓ QUEM BATE NA MULHER
Cara Ana de Amsterdam, tem toda a razão. A minha estupidez genética (sabe, sou mulher) e total incapacidade de apreender qualquer informação digna de ser vomitada num artigo da imprensa escrita obriga-me a escrever sobre idiotices, banalidades da vida mundana. Deve ser o hábito de ser aplaudida como a uma vaca que acabou de ganhar o primeiro prémio na feira Agropecuária de Beja, não me leve a mal: cá em casa é assim, cada vez que abro a boca atiram-me moedas de dez cêntimos que vou amealhando para comprar mais uma Hola, a minha bíblia vital.
Suplico-lhe, porfavorporfavor, que tenha compaixão de mim, pois não passo de uma fútil rapariga a quem os ovários, as mamas e a obrigação de pôr máquinas a lavar negaram a profundidade para dissertar sobre temas verdadeiramente importantes e publicáveis. Graças a Deus existem homens que escrevem nas revistas, e nos blogues, e nos livros – sabe-se lá a rebaldaria de sentimentos que esta merda não seria. E graças a Deus que temos por cá mulheres como a estimada Ana, que nos lembra ao resto do gajedo que a futilidade não nos é permitida, que escrever (e ser paga por isso) sobre sapatos ou filhos é para donas de casa mentais, sopeiras que não ouvem músicas em francês, analfabrutas sem acesso aos cursos de mestrado na Universidade Nova e que só seremos respeitadas quando nos comportarmos como homens e aprendamos a mijar de pé e a escrever sobre grandes assuntos da Humanidade (quem sabe se crónicas sobre futebol e charutos não nos dignifiquem). Só não lhe perdoo a comparação com as cadelinhas: tive uma rafeira chamada Leidi que era muito mais inteligente que maior parte dos bloggers que poluem a internet pátria, por muito Coetze que leiam. Bom Ano.
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