Este site foi concebido para ser visto num browser dentro dos limites da caducidade: infelizmente não é o caso do seu. Assim, a sua experiência de navegação será seriamente afectada. Sugerimos a instalação de um browser mais séc. XXI, se lhe for possível: http://www.mozilla.com/firefox . Mas qualquer outro serve.

Rititi

Rititi

INÍCIO

  • Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher

    25 DE NOVEMBRO – (*crónica publicada no DNa no dia 25 de Novembro de 2005)

    Mais actual que nunca: só este ano foram assassinadas em Espanha 63 mulheres

    No calendário da Igreja Católica recorda-se hoje que uma mulher foi morta em Alexandria no século IV. Pela brutalidade da sua morte e a convicção na defesa duma nova fé monoteísta canonizaram-na com o grau de mártir e hoje é considerada a padroeira da eloquência e dos filósofos, predicadores, solteiras, fiadeiras e estudantes deste mundo. Diz quem sabe que Catarina de Alexandria é das santas mais influentes no Paraíso Celestial, com poder suficiente para aconselhar Fernando III sobre a reconquista de Castela aos mouros e com direito a um quadro de Caravaggio pendurado no Thyssen—Bornemisza em Madrid. No dia 25 de Novembro de 1960 por ordem do ditador Rafael Leônidas Trujillo assassinaram na República Dominicana as irmãs Patria, Minerva y María Teresa Mirabal. Pertenciam à classe média alta do país, estavam casadas e só se opunham a um dos regimes mais sanguinários da América Latina. Trinta e nove anos depois a Assembleia-Geral da ONU, encarregue da redação do novo calendário das causas a não esquecer, declarou o dia 25 de Novembro como o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. As irmãs Mirabal são as mártires do século XX, ferido pela lucidez de quem repara que as aberrações cometidas foram contra seres semelhantes, em princípio.
    A resolução A/RES/134 foi o resultado «de um crescente movimento internacional para acabar com uma trágica epidemia que devasta as vidas de mulheres e raparigas, parte comunidades e é a barreira para o desenvolvimento de todas as nações». O alarme justifica-se: segundo a ONU 25% das mulheres do mundo foram violadas em algum momento da sua vida e 120 milhões sofreram mutilações genitais. Esta tragédia materializa-se todos os dias com o tráfico global de escravas sexuais, violação, maus-tratos físicos e psicológicos, repúdio familiar, mutilações, desprezo social e diferente consideração aos olhos da lei e só é possível devido à subsistência da noção de que uma mulher não é assim tão importante como o homem, equivalente talvez a um cão, quem sabe se tão cara como um carro desportivo ou mais inteligente que um rapaz de três anos. Não me julguem extremista: no momento em que alguém se sente no direito de proibir o voto a outro ser humano pelo simples facto de ter o período é porque tem a certeza que é superior pela graça de Deus, do músculo e com o beneplácito da sociedade que o educa e o aplaude. Quem bate numa mulher sabe que o pode fazer, que está legitimado para agarrá-la pelos cabelos, queimar-lhe os peitos, controlar-lhe a sexualidade. Ao violar uma desconhecida na rua não se impõe só o poder do punho: é o exercício de uma necessidade física que se pode satisfazer com qualquer uma. Porque não é humana. Só o objecto.
    A Lei Orgânica de Medidas de Protecção Integral contra a Violência de Género que entrou em vigor com a chegada ao governo espanhol dos socialistas considera sempre os homens agressores e as mulheres vítimas e confrontou Ongs, feministas de rua, linguistas, constitucionalistas e até o Conselho Geral do Poder Judicial em debates acesos em hora de máxima audiência televisiva. Então não éramos todos iguais perante a Lei? Pode ser alguém automaticamente culpado num caso de ofensas físicas só por ser homem? Quem defende os maridos contra as mentirosas, as perversas que vampirizam os amigos, ficam com a casa, a custódia do cão e a cobram pensão alimentar? Permaneceu o mal menor. Olha, paciência, disse Zapatero, e agora os juízes nem sabem onde arquivar as denúncias falsas por maus-tratos e os «afinal não era nada disso o que eu queria dizer, senhor Doutor, eu é que bebi uns copos a mais, fiquei ciumenta e decidi inventar esta história toda, não faça mal ao meu Zé». Ao discriminar positivamente um cidadão em relação a outro esta lei apresenta-se como «menos legal», injusta talvez para o resto do conjunto da sociedade enquanto abre excepções em função do sexo. Mas é essa mesma sociedade é a que ainda discrimina por sexos, por géneros. A masculinidade não é sinónimo de psicopatia nem o ódio ao sexo feminino é exclusivo da masculinidade. É só uma consequência social.
    Sociedade não é só o ente abstracto que vemos nas estatísticas anuais, os dados macroeconómicos ou os índices inflacionistas anunciados pelos governos. Por sociedade deve-se entender cada relação matrimonial, laboral, a educação dos filhos, o tratamento das avós, o piropo à menina que passa por uma obra, o apalpar o rabo a uma mulher no metro, a divisão das tarefas do lar, quem tem direito ao aumento do ordenado. Mais do que procurar a simples penalização de um acto violento instalou-se a urgência de tipificar um bem jurídico tão óbvio como a dignidade feminina, passível de protecção estatal, policial e legal, parte indispensável do ordenamento social. Na era do descobrimento do genoma, da aceleração de partículas e do Prémio Príncipe das Astúrias a António Damásio, pouco abona a favor do nosso mundo que ainda se debata a necessidade de igualar direitos. Não é uma questão de feminismo, sexismo, paranóia de senhoras desocupadas com sutiãs a mais no armário, mas sim do reconhecimento dos Direitos Humanos, elementares, como declara a resolução da ONU, para o desenvolvimento também económico das nações.
    Hoje, 25 de Novembro, Santa Catarina de Alexandria, Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher, as televisões lembrarão as violações, mutilações, os maus tratos, as lapidações. Mas não chega. Ao menos enquanto a mulher não for igual, um ser humano, e não essa coisa menor cuja vida é menos valiosa que um livro de cozinha.



    Por Rititi @ 2010/11/25 | 3 comentários »


    o filho da mae ha muito cliche por

    O FILHO DA MÃE

    Há muito cliché por desmontar no mundo da literatura actual, sobretudo quando toca a chamada «escrita feminina«. E falo porque sofro nas carnes o mito de ser a viva imagem da mulher moderna, desinibida e sem complexos que tecla o que lhe sai da alma durante a noite, apoiada unicamente no fumo do SG Ventil e um copo de gin tónico. Tudo mentira. A cronista verdadeiramente progressista, desbragada e valente não é a que escreve sobre sexo, drogas e música clássica, mas sim aquela que se atreve com o tema inominável, mais sagrado que o mistério da virgindade de Nossa Senhora ou o segredo do cabelo de Fátima Felgueiras: a sogra. Eu, como devem ter reparado, não passo de mais uma cronista conservadora, engraçada mas medrosa, daquelas que até poderiam mudar as mentalidades interplanetárias, mas a quem a vida e as suas circunstâncias coartam. No meu caso a circunstância chama-se marido, o filho da minha sogra. Aqui fica então: a minha sogra é uma santa. Ponto final.
    Não se deixem enganar; todos os textos que encontrarem publicados na imprensa nacional e estrangeira sobre A Sogra foram, são e serão escritos por vingativas divorciadas, solteiras empedernidas, mentirosas compulsivas ou mulheres que escondem as letras baixo um total anonimato. Porque mulher que preza o que tem em casa não se atreve a ridiculizar, satirizar ou desdenhar em palavras impressas a senhora que melhor cozinha do Universo, a virtuosa da agulha e o dedal, o ícone da pureza, bondade e candidez. Isso só se faz com as amigas mais íntimas e às escondidas de madrugada num bar sob os efeitos do álcool, o grande libertador das línguas castradas. Mãe só há uma, a dele e mais nenhuma, nem que seja uma bisbilhoteira insuportável, agarradinha aos ansiolíticos ou o cadáver putrefacto e hediondo de «Psycho». Entre o homem e a mãe dele aconselham a sabedoria popular e avós a não meter a colher, a orelha e as horas de productividade laboral. A relação do «filho-ele» com a mulher que o trouxe a este mundo cão e traidor só pode ser analisada desde a perspectiva do misticismo cristão, e nós, as esposas, namoradas ou amantes, devemos admitir que entre esses dois seres existe uma comunicação oculta ao melhor estilo de San Juan de la Cruz com o Altíssimo, sendo que a divindade neste caso é a mãe, a fonte inesgotável de vida, sapiência, a causa primeira e o fim de todas las coisas.
    Tony Soprano, o gangster mais deprimido da ficção por cabo, além de assassino implacável e moralmente corrupto também era um filho da mãe, mais concretamente de uma viúva dona das suas manias, chata como a potassa, intriguista e carente. Nada de novo no frente familiar, dirão. O que diferencia Livia Soprano de qualquer mãe de vizinho é o total desprezo pelos rebentos, o nojo físico que os filhos lhe provocam. «As crianças são animais, não muito diferentes dos cães». E para combater a inevitabilidade de vir a morrer sozinha num lar da terceira idade alcatifado e com aquecimento central, Livia não recorreu à chantagem emocional, a arma implacável das senhoras desocupadas – bastou-lhe com arquitectar o assassinato de Tony, o herdeiro macho do império mafioso de Nova Jérsei. Deixou o filho de a amar incondicionalmente, apesar da terrível verdade de saber que nunca foi querido? Acaso a velha passou fome, frio, foi obrigada a pedir à porta da igreja ou assistir como público ao Dia das Avós com o Manuel Luis Goucha na TVI? Morreu feliz, quentinha na cama. E Tony chorou-lhe.
    As mulheres temos uma relação esquizóide, mas realista, com as nossas mães. São elas o alvo dos terrores uterinos, o espelho do que seremos com a passagem dos anos e das rugas, o resumo da história da nossa vida. Não há fantasia possível na ligação com a mulher a quem devemos a vida e as contas do telefone: somos incapazes de as idololatrar sem sentir uma inveja infantilmente insana enquanto dormimos; sabemos que queremos ser como elas, mas sem as neuroses, as crises de meia-idade e o degenerar das ancas. A certeza da evolução do corpo e os genes partilhados fazem que as amemos sem mais histeria que a visita surpresa quando a casa não foi arrumada (conforme os gostos delas, pois não). Infelizmente os homens não têm ovários. Não telefonam à mãe do emprego com o digníssimo propósito de entregar o relatório diário sobre o jantar, a telenovela e as intrigas conjugais; estão incapacitados para o desfrute da fofoca e o mal-dizer na cozinha; desconhecem os prazeres da desaprovação feminina. Os gajos gostam da mãe porque sim. E isso é doentio. E perigoso.
    Só há uma saída para as que pretendem a perdurabilidade no ajuntamento livre de dois adultos: a falta de interesse por esse estranho caso de amor sem reservas ou porquês. Desentendam-se, mulheres, desliguem, partam para outra. Mesmo custando, finjam que não é inconcebível que um homem maduro que se comunica unicamente com a mãe à base de monossílabos e uma vez cada dois meses sinta por ela uma veneração absoluta com vinte e quatro horas de bateria e o GPS sempre ligado aos melhores satélites do mundo. Sogra? Eu cá não escrevo disso! Só se for da dele, que é absolutamente fabulosa e nunca chateia!

    ( crónica publicada no suplemento DNa, em Outubro de 2005)



    Por Rititi @ 2008/09/09 | 11 comentários »


    rititi no ar hoje pelas nove da manha

    RITITI NO AR

    Hoje pelas nove da manhã, os mais fiéis leitores poderão ouvir-me na Antena 1. Desde Madrid, na estação de Atocha, entre a memória dos corpos mutilados, a dor pela incompreensão e a necessidade de continuar vivo. Pelos que foram, pelos que serão, por nós. (Imagens no site da Antena 1)

    UM ANO
    (Texto publico no DNa em Março de2005, no primeiro aniversário do 11-M)

    Num ano há tempo para muita coisa: parir, mudar de casa e de penteado, deixar de fumar, começar a beber, perder umas eleições, ganhar a Taça dos Campeões, casar, dar a volta ao mundo, chorar por quem partiu, fundar um partido político, recordar. Num ano uma capital europeia restaura prédios, amplia a rede do metro, cria guetos, inaugura escolas, restringe a hora fecho de bares, recebe líderes mundiais. E Madrid, nesse ano, teve tempo para montar um casamento real, candidatar-se aos Jogos Olímpicos, fechar as ruas do centro ao trânsito, abrir as portas à legalização de emigrantes sem papéis e lamber as feridas.
    Há um ano dez bombas acordaram-me. A imagem de quatro comboios retorcidos em Atocha, estupidamente impedidos de chegar ao destino, levantaram-me da cama e acabaram com a ressaca de quem dormiu três horas porque preferiu ficar nos copos com os amigos e dançar samba num bar brasileiro a ser uma responsável profissional dos tempos modernos. Anestesiada com o cheiro de uma morte que poderia ter sido a minha, o dia 11 de Março de 2004 passei-o a olhar para um ecrã de computador carrasco, sessenta, oitenta e quatro cadáveres, centenas de feridos, notícias de telemóveis perdidos nas carruagens rebentadas que ninguém queria atender, cento e cinquenta mortos, pedaços de carne, linhas telefónicas impedidas, estás bem, sim Mãe, gosto muito de ti, lágrimas, muitas. Quem foi, porquê nós, não é justo. E os mortos que não paravam de aumentar, e as filas para doar sangue, e as mantas oferecidas pelos vizinhos da estação, e cidadãos anónimos que exerceram de psicólogos e amigos naquela macabra morgue improvisada num pavilhão de feira, e as manifestações espontâneas na Porta do Sol, e as gentes perdidas de dor nas ruas, desespero e fúria, e meu amor vamos para casa, hoje preciso de me agarrar a ti. E o medo de andar de metro, e a manifestação de dois milhões de pessoas debaixo da chuva. E dizer não. Nunca mais. Já chega.
    Espanha levantou estátuas em homenagem às cento e noventa e uma vítimas mortais e aos que ficaram amputados de filhos, irmãos ou amigos; aos voluntários o Alcalde da capital dedicou uma placa em mármore de sincero agradecimento nas portas do Ayuntamiento; aumentaram as câmaras de vídeo e guardas nos transportes públicos; institui-se uma comissão parlamentar para apurar responsabilidades políticas; prenderam-se maus da fita; caiu um governo mentiroso e renovou-se a Assembleia.
    E a capital voltou à vida e aos bares cheios, aos mendigos que elogiam as pernas das mulheres apressadas, ao trânsito impossível, aos saldos e à histeria para conseguir um vestido da colecção de Karl Lagerfeld para a H&M, ao emprego que não satisfaz mas paga a renda da casa, à gata com o cio e às estações do ano. Porque a vida deve continuar. Madrid, apesar de assustada, casou um Príncipe herdeiro com uma plebeia, e agora, a um ano das bombas e da morte, as conversas giram em torno à não gravidez da Princesa, à sua extrema magreza e aos sapatos que compra no Bairro de Salamanca. As páginas dos jornais discutem as amizades perigosas da Câmara Municipal com os construtores civis, Ronaldo dá tema a programas do coração com sórdidas histórias de cama envolvendo modelos com sede de fama e o Atlético de Madrid nunca mais ganha um jogo fora de casa. A Audiência Nacional, primus inter pares dos tribunais, abarrota com crimes sexuais, terroristas e financeiros, com o Emílio Botín a protagonizar um suposto escândalo bancário que nem a bolsa mexe, e até Bill Gates visitou a cidade numa visita relâmpago com funções de «marketing».
    Mas Madrid não esquece. Um ano depois, os feridos, os voluntários, os órfãos e os viúvos continuam a chorar as mágoas e a reclamar as indemnizações prometidas. Uma paragem abrupta do metro encolhe o coração e um incêndio num arranha-céus faz lembrar que o perigo está aí. Todas as semanas noticiam que mais um cabecilha do massacre do 11-M foi apanhado, até então mais um ser anónimo com direito a uma existência corriqueira num bairro de Madrid, namorada espanhola e cartão de residente. Ninguém está a salvo do medo de voltar a andar de comboio ou de perder um amigo.
    Porque fomos todos os madrilenos o alvo da infâmia cometida nesse dia que só prometia chuva, ressaca e banalidade. E madrilenos somos os que cá vivemos, equatorianos, moldavos, espanhóis «de toda la vida», os que viajam de comboio, ilegais e expatriados, donas de casa, meninos de colo, até executivos de passagem no aeroporto, universitários sem bolsa de estudos, portugueses emigrados, pedintes, bancários, médicos e putas da Calle Montera. Os assassinos que planearam durante anos o atentado não visaram aniquilar quem tem o poder de invadir países. A chantagem, o ódio e a cobardia escolheram como vítima o que representa o quotidiano, o crédito à habitação, as férias de verão e as eleições cada quatro anos – o nosso direito a escolher a existência que queremos viver, a possibilidade de fumar quando nos apraz, de amar e de dar vida. E há um ano Madrid optou por continuar em frente, às vezes com medo, outras com lágrimas a recordar uma dor que ainda não se foi embora, mas em frente.
    Num ano há tempo para muita coisa, sobretudo para não desistir da vida.



    Por Rititi @ 2008/03/11 | 2 comentários »


    bem me parecia que ja tinha escrito

    Bem me parecia que já tinha escrito sobre os cursos de formação

    To VIP or not to VIP (lá por 2005)

    Durante a segunda semana de Janeiro a capital do Reino das Espanhas recebeu os melhores cozinheiros do Mundo para que, numa coisa chamada Madrid-Fusion, os Grandes da Cozinha Desconstruída ensinassem o povão a fazer maravilhas com a varinha mágica. Hidrogénio líquido, canapés de sushi banhado em bacon caramelizado e caviar de melão, eis as propostas dos génios da comida pós-moderna para reconfortar os estômagos neste gélido Inverno polar. Por seiscentos euros o público teve direito a ser insultado por reutilizar o óleo das batatas, os donos dos restaurantes foram tratados como sopeiras por não decorarem os pratos conforme as novas leis da estética gastronómica e a plebe em geral babou-se pelas iguarias que os Mestres Masculinos das Panelas cozinharam em cima do cenário.
    Mas tenho a dizer que não pus lá os pés, fiquei-me por casa. Também não compareci à concorrida Festa da Sidra que o Javier deu em minha honra para comemorar a minha fabulosa entrada na trintena. Adeus às armas e aos copos de plástico. Porque agora sou uma mulher nova, uma Fénix renascida das cinzas dos meus cigarros, um milagre da ciência e dos cursos de auto-ajuda. Finalmente posso garantir que me transformei no que sempre sonhei ser: Xena, a Princesa do conhecimento interior!
    Claro que para chegar a esta nova etapa de férreo autocontrolo metafísico contei com a ajuda inestimável do Departamento de Recursos Humanos da minha empresa. Os funcionários dos Recursos Humanos são como o padrinho abastado que nunca tive, como a tia-avó do Brasil que faz de mim a herdeira de dois prédios restaurados e sem inquilinos na Lapa. Ralam-se de tal maneira pela minha realização pessoal, para que nada me falte no meu caminho para o êxito, que não só me negam uma subida no ordenado (com o intuito de que não o desperdice em banalidades como comprar uma casa ou beber uísque de quinze anos – ninharias, enfim…), como me inscrevem em todos os cursos de formação que aparecem no mercado. No espaço de um ano melhorei o meu inglês (finalmente falo-o tão bem como jura o meu Curriculum Vitae); decifrei os obscuros e misteriosos segredos que encerram as fórmulas de Excel; acedi ao fascinante mundo das Bases de Dados; e compreendi, depois de tantos anos, quem diria, o significado de dogmas de fé como benchmark, cost-to-income, I+D, e como estar overweight sem pesar cem quilos.
    Mas a verdadeira razão desta minha metamorfose de Peter Pan em Mary Poppins deve-se à maior invenção desde os tempos em que os romanos decidiram passar as leis civis a escrito: a derradeira Acção de Formação para o Desenvolvimento Humano. O último grito no mundo dos cursos para motivar executivos que têm medo de triunfar: porque as pessoas não sabem, mas no fundo ninguém quer ter sucesso profissional. Graças a estas magníficas sessões com direito a formador cativante, top senior e que me tratou como a uma camarada na luta contra a preguiça, fiquei a saber que a minha vida não tinha sentido.
    Andava perdida, desperdiçando os anos moços e saudáveis que Deus me deu na procura inútil da Felicidade e da Diversão. Horas de produtividade foram esbanjadas nos bares de Madrid e na cama com o meu marido, por achar que a vida era para ser gozada. Ignorava que os seres humanos estamos destinados a ganhar dinheiro para ter êxito, para que falem de nós e para influenciar. Para ter Poder. Mas claro, não tinha permitido que a minha Vontade Interior Positiva se revelasse livremente, a VIP, essa força mágica que nos faz esquecer o ócio e nos empurra para as delícias do trabalho sacrificado. Deslumbrada, jurei nunca mais me desviar dos passos da VIP, e agora os meus dias são passados no gratificador mundo da labuta árdua e da ocultação da euforia.
    Confesso que a imagem do formador cativante e top senior a passear cheio de vitalidade pelo estrado de microfone na mão e a exortar os executivos assistentes a libertar a VIP oculta de cada um, era bastante parecida à dos escritores de livros de auto-ajuda que aparecem nos filmes americanos. O top senior comportava-se como um guru da guerra anti-tabaco; como se fosse o exaltado Presidente da Associação pela Castidade e Pureza. Os lemas, os de sempre: «Tu és o teu pior inimigo», «A força vem de dentro», bla, bla, bla. Só que a nova versão ao estilo psicologia Arlequim da fórmula socrática «Conhece-te a ti mesmo» apenas serve se o fim da peregrinação interior for o Sucesso e um carro da empresa.
    Sendo sincera, ando a pensar em abandonar minha Vontade Interior Positiva, esquecer as palestras do persuasivo formador top senior e dedicar-me ao que mais prazer me dá: Viver. Porque a mim a máscara da executiva-agressiva que trabalha doze horas ao dia e que controla os instintos naturais graças a um estrito conhecimento introspectivo não me assenta bem. Falta-me sobriedade, por muito que os livros de auto-ajuda, os gurus da Felicidade de Plástico, os sermões de telepredicadores e os vendedores do Desenvolvimento Interior digam o contrário. E porque como diz o sábio escritor espanhol José Luis Sampedro «nadie me amarga a mí el placer de vivir. Esos señores de negro no me van a fastidiar». Tem 87 anos e da vida deve perceber alguma coisa.



    Por Rititi @ 2007/09/24 | 4 comentários »


    o cantinho da hooligang de perna de pau

    O cantinho da hooligang ©

    De Perna de Pau no Passeio dos Melancólicos

    Madrid, Paseo de la Castellana: arranha-céus que da altura dos seus trinta andares observam a cidade, vaidosos no domínio das finanças e dos dinheiros da pátria; palácios senhoriais que se resistem a ficar no passado, albergando bancos e consultoras internacionais; tascas, bares e discotecas que exercem como montras de novíssimas tendências: seis quilómetros de demonstração de poder económico, social e arquitectónico. E lá ao fundo, ergue-se, sobranceiro, o Estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, clube de clubes, vinte e nove vezes campeão da Liga e nove da Liga dos Campeões, fábrica de vencedores, firmamento onde brilham estrelas-deuses com fama interplanetária e fortunas asquerosamente inquantificáveis. O Real Madrid até parece uma central eléctrica, porra, tal a maneira de brilhar das estrelas, dos carros das estrelas, das jóias das estrelas, dos contratos publicitários das estrelas, das barbies recauchutadas que se passeiam com as estrelas… Glamour associado a golos, reinvenções futebolísticas para o século XXI.
    Quando uma emigrante procura desesperadamente a verdadeira e rápida integração social, o futebol é o caminho mais rápido. E eu decidi, com a inocência de quem considera o fora de jogo um dogma de fé, ser sócia do Real Madrid porque, claro, não há clube mais perfeito que o que nunca perde. Como se pode apreciar, esta era a primeira vez que me decidia a pôr os pés no Clube dos Amantes Incondicionais e Fanáticos da Bola. Mas para uma portuguesa habituada aos eternos fiascos da selecção nacional, viciada na saudade e na sardinha assada com pimentos, tanta ostentação de riqueza até parece mal. Que mania esta de querer ganhar tudo, bolas, que falta de humildade ante a hecatombe do empate, que cagança, nem que Figo, Ronaldo e Beckham mijassem Chanel n.º 5. Não rima sobranceria com lusitanidade.
    Desolada com a ideia de nunca poder vir a ser confundida com uma indígena, por pouco me entregava ao vício do bagaço português se não fosse a visão tenebrosa que a Marisol teve do futuro que me esperava: deitada no sofá, cantando fados de garrafa na mão, a gata Lucrécia alcoolizada por osmose, e o meu coração destroçado por nunca encontrar um clube de futebol pelo qual derramar lágrimas ao domingo. Num acto de generosidade incomparável, a gestora da higiene do meu lar abriu-me as portas à luz da Verdade, justificando pela primeira vez os dois contos que lhe pago à hora. Com a promessa de permitir a minha assimilação com os locais, a minha mulher-a-horas convidou-me para um jogo de futebol. Só que o protagonista do espectáculo era o outro clube de primeira divisão da capital: o Atlético de Madrid.
    Equipada com cachecol branco e vermelho, boné a condizer e um «bocadillo de calamares» oleoso dentro do casaco, acompanho a Marisol à bola. As primeiras vezes devem ser inesquecíveis, diz-me a boazona da Marisol, e obriga-me a aprender o hino do Atlético em dó menor. «Yo me voy al Manzanares, al estádio Vicente Calderón, donde acuden a millares los que gustan del futbol de emoción». Pura poesia. A paisagem urbana a caminho do estádio ganha as tonalidades do bairro operário onde se enquadra. Os grandiosos edifícios financeiros são substituídos por blocos de cimento próprios da classe média-baixa; em vez de executivos apressados avistam-se grupos de donas-de-casa com bandeiras e senhores de fatos de treino e rádio pegado à orelha. Fábricas à volta, um rio ao longe e uma paragem obrigatória para abastecer a alma de cerveja.
    Entre pevides e goladas rápidas para não chegar tarde ao jogo, tento explicar aos outros clientes que também vão mascarados de gelado Perna de Pau que realmente não há diferenças entre um clube e outro, que afinal o Real e o Atlético são fruto da mesma necessidade de pertencer a uma comunidade maior que grita anonimamente por penalties que não existem. Não tenho amor à vida, pelos vistos. Patética a imagem de uma portuguesa escondida na casa de banho dos homens a fugir da fúria de centenas de «colchoneros». Ser «atlético», explicam-me depois de ter pago uma rodada para sossegar as hostes enraivecidas, é uma maneira de sentir que parece não ter explicação no mundo da lógica dos incrédulos futeboleiros.
    É sentir-se de Madrid sem a arrogância da Castellana, é entender que a vida pode ter mais derrotas que vitórias e que até sabe melhor assim. É esperar que um dia nos toque a sorte grande para poder mandar o patrão às urtigas e levar a patroa a jantar fora a um sítio finório. É ser estranho em terra de ricos mas orgulhoso de que nunca falte o pão na mesa. É pensei, o mais próximo de Portugal que podia estar. Afinal, depois de tanto tentar ser uma verdadeira madrilena, encontrei um clube de futebol que poderia ser da minha terra, aqui no centro da capital de Espanha e cujo estádio tem como morada o Passeio dos Melancólicos. Só não vê as pistas quem não tem olhos.
    O Atlético, mais uma vez, perdeu o jogo em casa. Nem os gritos da tal «afición», nem a esperança de um dia poder ganhar outra vez uma taça, valeram. Mas ganhou uma nova sócia. Portuguesa, emigrante, mas do Manzanares, Atleti, Atleti, Atlético de Madrid…

    (crónica publicada no DNa em Fevereiro de 2005 e dedicada agora ao Francisco José Viegas)



    Por Rititi @ 2007/07/27 | Sem comentários »


    heroinas de plastico post em transito

    HEROÍNAS DE PLÁSTICO
    (post em trânsito)


    Victoria Beckham estava um dia sossegada na sua mansão de cristal da Boémia e pilares forrados em ouro quando reparou que há muito tempo que ninguém falava dela. Ora bolas, que chatice. E sendo como é uma gurua da comunicação, chamou a si a imprensa e abriu a boca. A mulher é, no mínimo, um génio: bastou-lhe conceder uma única entrevista para voltar como a Rainha do Vazio Mental à ribalta do mundo do papel cor-de-rosa, sendo colocada de seguida nos cabeçalhos dos jornais e com o nome posto na boca de intelectuais de renome, pedagogos, editores de jornais e tertulianos vários. Para merecer tamanho protagonismo a fêmea com a cara mais encerada da Europa simplesmente teve de anunciar ao mundo que nunca, em toda a sua genial e completa existência, jamais, ever, leu um livro. Porque é uma canseira ser mãe, uma fêmea fabulosa, magra e depilada e, aliás, ser a imperturbável esposa cornuda de um dos homens mais desejados do universo da publicidade. Se esta mulher não é um génio da auto-promoção, então vive no eterno Mundo da Fantasia, junto da Cindelera e da Bela Adormecida.
    E claro, perante tamanha declaração de interesses vitais, o Verão espanhol parou, escandalizado ficou o povo, horrorizados gelaram os cérebros da imprensa nacional: burra, frívola ou irresponsável pelo modelo que representa para milhões de adolescentes, a coitada foi vilipendiada, assobiada e com o nome transformado em sinónimo da estupidez mais profunda. Imagino o pasmo de Lady Becham ante tanta indignação popular: afinal onde está o mal de nunca ter pegado num calhamaço como Guerra e Paz? Acaso foi-lhe exigida a leitura das Memórias de Adriano quando a seleccionaram para integrar essa experiência kitsch e malcheirosa chamada Spice Girls, a embaixada da pirosice britânica de finais do século XX? Para quê tanta histeria, se nunca necessitou da leitura de Borges para se casar com o futebolista mais loiro do Manchester United e juntar em tempo recorde uma das fortunas mais colossais das terras de Sua Majestade? Se fechar os olhos, até consigo vislumbrar uma doce e estilizada Vicky, impávida e serena na Gucci da Calle Serrano num domingo qualquer, perguntando-se qual a urgência de ter um livro na mão se a vida se resolve a golpes de cartão de crédito. Isto tudo se a sua massa encefálica conseguir emitir um juízo de valor sem criar um curto-circuito no sistema nervoso.
    Pouco me surpreende que esta Barbie recauchutada tenha alergia à literatura em geral, e se amanhã partilhar com o comum dos mortais que desconhece quem seja Cristóvão Colombo, Adolf Hitler ou até Jesus Cristo, mais não posso que confirmar o óbvio. Não que seja burra, o que não é necessariamente mau porque de mulheres parvas está farta de rezar a História, mas sim que para encher capas de revistas, ser recebida pela Rainha Isabel II, imitada pelas crianças com cultura de supermercado, perseguida por fotógrafos, basta ser podre de rica. Mais, nem lhe é obrigatório ser especialmente bonita, nem a rainha da elegância, ou doar umas massas de vez em quando aos meninos de África. Basta-lhe ser co-titular das contas do marido, ir a desfiles de alta-costura e gastar euros obscenamente.
    Sem ofício mas com toda a classe de benefícios, a «cheerleader» da nova aristocracia iletrada é o paradigma duma classe de mulheres que apesar de viver no absoluto desprezo pelo conhecimento, o estudo e o pensamento crítico, são amadas, invejadas e proclamadas pelos media como novos ícones a imitar. Não são assim tão poucas. E que agora os profetas da cultura de massas se escandalizem, mais não aponta a hipócrita cegueira em que estamos metidos. Os novos ídolos femininos das adolescentes são analfabrutas totais, personagens de telenovela que se roçam em horário nobre, ignorantes absolutas que passam os dias nas compras para deleite dos paizinhos dos menores telespectadores; em Espanha aplaudem-se mais as mulheres que vendem o seu passado que as cientistas peritas em genética; Britney Spears pare em directo… Victoria Beckham é só uma consequência deste encolher de ombros geral perante a estupidez no feminino.
    Para rematar a famosa entrevista, a «Spice Posh» confessa, de coração na mão, que adoraria ser mãe de uma menina: «para lhe pintar as unhas, maquilhá-la e ir às compras». Prevejo para potencial criatura de Deus uma infância rodeada de bonecas Versace, sapatinhos Dior, mini-ferraris e uma original permanente aos três anos, altura em que dará o primeiro exclusivo à Hello! Aos doze será apresentada em sociedade com vestido de Dolce & Gabbana do braço de Elton John, aos dezasseis namorará com o filho de um magnata do petróleo, e com vinte e três antecipo-lhe duas depressões, uma cura de desintoxicação de toxinas porcinas e um casamento frustrado. De Geografia, Álgebra, Gramática, Filosofia ou Física, pouquinho lhe auguro. Atrás, no escuro da História, ficaram as figuras de Leonor de Aquitânia, Cristina de Suécia ou Marie Curie. «Quem?», perguntaria Victoria Beckham. Pois é. Bem-vindas sejam, senhoras e senhores, as novas rainhas do mundo moderno, as heroínas de plástico.

    (Crónica publicada no DNA em 2005)


    Por Rititi @ 2007/07/20 | 5 comentários »


    amores diferentes direitos iguais

    AMORES DIFERENTES, DIREITOS IGUAIS
    (Crónica publicada no DNA em Julho de 2005)

    Aprovada a legalização dos matrimónios homossexuais, alterado o Código Civil e exterminados com muita pena minha os conceitos «marido e mulher» do discurso legal, bem-vindos sejam ao Território Zapatero, o país mais moderno da Europa, o paraíso da tolerância e do respeito à diferença. O Presidente do Governo está feliz, gays e lésbicas abraçam-se e fazem planos de boda, com bolo de noiva e avós chorando à mistura, e eu abro uma garrafa de Möet Chandon para comemorar a banalização de relações e amores tão normais quanto o meu. Desmistifica-se com a legalidade o que deveria ser do foro estritamente privado – enquanto ninguém tem nada a ver com quem dorme o vizinho – e acaba-se de uma vez por todas com a estupidez de não se poder herdar, pagar impostos em conjunto ou ter direito a onze dias úteis de férias de casamento nas Maldivas com tudo incluído. E mais útil ainda: ser gay deixa de ser um lobby, uma razão de exclusão e a desculpa perfeita para fazer o ridículo nos bares chunga-chunga a dançar Rafaela Carrá. A partir do dia 30 de Junho, em Espanha só sente discriminado sexualmente quem tem a cabecinha mal arrumada e problemas de cama por resolver.
    E pronto, aqui deveria acabar esta converseta sobre formas de viver. Uma vez ratificada pelo Rei, a alteração da instituição familiar já está nas ruas e cada um pode seguir com o seu rame-rame do costume, tentando ser um bom pai, não mentir à mulher e não conduzir com os copos. Todos, claro, excepto a Conferência Episcopal, o Foro Español de la Família e o Partido Popular, os Temíveis Anjos Vingadores e Guardiães da Família. Da tradicional, claro. Da deles. Uma manifestação multitudinária no dia 18 de Junho juntou os defensores da tradição e dos valores que «importam», pondo a família em maiúscula e as crianças na frente, com bandeiras de Espanha e carinha de pena.
    Aos bispos é normal que lhes repugne a relação de dois paneleiros reconhecida pelas instituições do Estado, tendo em conta o Catecismo da Igreja Católica, a sua concepção da homossexualidade e os dois mil anos de existência. Esquecem-se que a lei não os condena a celebrar este tipo de matrimónios – civis e sem efeito perante a lei de Deus – e que Espanha é um estado laico, aconfessional e que já não é obrigatório ser baptizado. Esquecem-se que nem todos os católicos partilham esta visão rígida do amor ou que até existem gays que acreditam que Maria foi virgem e Cristo o Filho de Deus.
    Já o Foro da Família, cuja página na Internet proclama o direito dos meninos a terem só um pai e uma mãe, não se insurge contra os gays nem a regularização da sua união sempre que não se lhe chame «matrimónio», porque «matrimónio» é coisa de homem “contra” mulher para fazer filhos. Mais nada. E por causa de uma palavra reúne adeptos, distribui panfletos e manifesta-se em massa? É esta a razão para pôr menores de idade a quarenta graus à sombra segurando cartazes, obrigando-os a usar máscaras em plena onda de calor sufocante às seis da tarde, acusando Zapatero de atacar a família, de impedir que um homem e uma mulher se casem? «La família SI importa». Uma palavra que põe a instituição em vias de extinção, porque não é concebível que dois Zé Antónios criem um bebé sem que este não acabe num hospício, numa clínica de desintoxicação ou na prisa por vender heroína à porta de colégios. O amor, que é a base de qualquer matrimónio, só é possível se heterossexual e vocacionado para a procriação.
    E o PP? Que faz o único partido de direita com assento no parlamento nacional ao lado de cartazes como «No al desmadre, queremos padre y madre»? Proteger as criancinhas indefesas, coitadas. Mesmo que o líder Mariano Rajoy se tenha desmarcado à última da hora, o partido apoiou a manifestação, segurou bandeiras e bramou pela defesa da família com pai, mãe e avozinha que trate da Matilde e do Lourenço, gritando que os direitos dos não-gays estão a ser pisados, que é um retrocesso e que, além de imoral, esta lei é anticonstitucional. Não haverá militantes de direita que sejam panilas? Ser gay é só coisa de esquerdalhos anti-clericais papa-meninos? A opção sexual estará condicionada pela cor política? Pelos visto, nesta Espanha, sim.
    Um dos líderes do Foro da Família, talvez com o cérebro a ferver pelo calor do verão madrileno, queixava-se da legalização do divórcio (sim, o divórcio, não estão a ler mal), que tão desprotegida deixa a família: «oxalá não existisse». Numa só frase ficaram desmascaradas as hipocrisias, as razões encapotadas, os menininhos a chorar e as vozes politicamente correctas: o que uniu Igreja, ONG’s e os líderes do segundo maior partido espanhol foi o terror à normalização de atitudes que, pela sua moral, são reprováveis e deveriam manter-se, se não ilegais, pelo menos na clandestinidade, como se não existissem. Negando o óbvio não se escandalizam as mentes puras. Olhos que não vêm, coração que não sente – e as fufas, os panascas, os infelizes, os mal amados, os infiéis, as maltratadas, as fartas do marido, o senhor de cinquenta anos que descobre a atracção sexual pelo trolha musculado das obras, esses, que se escondam, que não falem, que tudo se mantenha como estava. Não mudando, não questionando e evocando a liberdade. A deles, claro.
    E agora, se me dão licença, vou lá abaixo dançar «I will survive» na Gay Parade. Porque é muito mais divertido celebrar com música a equiparação legal de outros modelos de família e de amor, a queixar-me porque o mundo não é o mesmo que há trinta anos, quando as mulheres nem podiam votar e os homossexuais eram presos. Este ano, a Festa do Orgulho Gay, já não reivindica direitos, mas comemora o crescimento democrático e a legalização do que sempre existiu.



    Por Rititi @ 2007/07/01 | 5 comentários »


    15 de maio sao isidro este tipo de

    15 DE MAIO, SÃO ISIDRO

    “Este tipo de manifestações de fé não pode ser unicamente reduto do tal paganismo que prevaleceu na Europa após o desmembramento do império romano, da mutação das divindades rurais em santidades cristãs. A mistura de fervor religioso com a alegria nos festejos do Verão e do regresso dos emigrantes à terra só é susceptível de suceder em lugares onde a temperatura média é superior aos trinta graus e a religião dominante permite escolher santidades mais próximas ao quotidiano. As festas das aldeias continuam a honrar as Nossas Senhoras da Anunciação, da Saúde, da Ajuda, dos Remédios, dos Afligidos ou dos Pés Descalços e as efemérides do Santo António e do São João são em Portugal os momentos altos da vida social nas duas maiores cidades do nosso país. E entre as festarolas, os arraiais, o vinho tinto, a sardinha assada e os jogos de espingardas retorno por uns dias à devoção pela minha padroeira favorita, Santa Rita, a divindade total, muito mais poderosa que São Judas Tadeu e especialista nas causas impossíveis, daquelas tão complicadas que nem com uma simples oração se chega lá. A vida não está fácil e é sempre bom ter uma aliada entre o panteão de santos em vigor.”
    (Excerto da crónica Misticismo Estival publicada no DNa em Setembro de 2005)



    Por Rititi @ 2007/05/15 | 4 comentários »