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Rititi

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INÍCIO

  • “Esta coisa do feminismo”

    A Ana (aka Pipoca) escreveu um post onde lamentava certa histeria relativamente a uma foto que publicou no seu Instagram. Parece ser que a Ana é dona de umas cuecas que tinham uma etiqueta que recomedavam à “mãe” lavá-las à mão. Sempre gostei de pessoas que falam de cuecas em público, que querem. E antes que aproveitem a oportunidade que este meu blogue vos oferece para mandar vir com a Ana, gostaria também de vos comunicar que gosto muito da Ana, há carradas de anos, desde os tempos do mesosóico blogosférico. Pronto. A partir de aqui, queridas todas e todos (incluída tu, Ana), confesso-me que pertenço a esse “bando de histéricas” que não acha piadinha nehuma a esta suposta “cena querida e fofinha”. Que querem, já estou um bocado farta. Vejo uma marca de roupa mandar a “mãe” lavar as cuecas à mão e pergunto-me automaticamente se acha que a dona das propias não será amputada das mãos (ou não terá pai, um namorado ou uma empregada). Não, não vejo machismo em todo o lado, só noticio micro-machismos aparentemente insignificantes que não matam mas moem, que estão sempre aí, nos anúncios, nos jornais e blogues (ler a caixa dos comentários do blogue da Pipoca é, de facto, um autêntico exercício de contenção), na boquinha sobre o tamanho da saia da colega, na reprovação constante e diária. Há uns anos atrás a EDP fez um anuncio para a televisão com que toda a blogosfera feminina vibrou.  Um suposto elogio às mulheres, às mães, à fêmea essencial, em definitiva a todas essas burras de carga que se levantam de noite, trabalham, vão ao ginásio, passam pelo super mercado, chegam a casa (outra vez de noite), dão banho aos filhos, fazem os deveres com eles, servem de pé o jantar. Serão viúvas? Não, o marido está sentado no sofá. Isto é machismo? Sim. Está ao nível de escândalo da mutilação genital e do casamento de meninas-noivas no Afganistão? Não. Mas é machismo na mesma. “Insignificâncias como esta” perpetuam o papel da mulher presa à sua natureza de “servidora”, que a sociedade portuguesa, que é machista que dói, tanto gosta e tanto aplaude. Basta ver os ataques à Plataforma Maria Capaz no post da Pipoca. Portugal, repito, é um país machista, reaccionário, antigo. A maioria dos blogues maternais insistem no papel da mulher como única cuidadora, na conservadora dos valores ulteriores, imóvel  e conformista. Portugal, que não é Lisboa, é essa aldeia onde os cafés estão cheios de homens e as senhoras cuidam muito as suas palavras para continuarem a ser isso, senhoras, onde  as mães levam os meninos às casas de banho femininas e as cervejas são sempre servidas aos rapazes.

    Uma mulher é uma mulher é uma mulher. E por isso ganha menos que um homem. E não se importa. E por isso é condenada a ter dois trabalhos. E não se importa. E por isso diz ao filho que não faz falta que faça a cama e à filha que vá adiantando o jantar. E não se importa. E por isso compra cozinhas de brinquedo cor de rosa. E não se importa. E por isso acha horrores que raparigas se manifestem contra a barbearias que proíbem a entrada a mulheres mas não que as comparem com cães. E por isso acha super natural que uma marca de roupa interior mande a mães lavar as cuecas.

    O feminismo não tem batalhas melhor que outras, Ana.  “Essa coisa do feminismo” trata de poder escolher as batalhas que cada uma quer livrar: o aborto livre, a punição do assédio verbal, a denúncia dos micro machismos, a luta contra os estereótipos. Não sei quais são as tuas batalhas, nem me interessa, mas o que não te admito a ti nem a ninguém é que me insinuem, sequer, quais são as batalhas válidas. E, já agora, do último que preciso a estas alturas do campeonato é que uma puta de uma etiqueta me mande lavar umas cuecas.



    Por Rititi @ 2015/04/08 | 16 comentários »


    Micro Machismos

    Lá estão outra vez as gajas com a mania da igualdade; no Dia da Mulher nós oferecemos flores às nossas clientes; mulher bonita gosta de receber piropos; eu não sou nada machista mas; e para quê quer uma gaja entrar num barbeiro; eu até ajudo a minha mulher lá em casa; as mulheres são as piores chefas; não há quem as ature com o período; quando são mães as mulheres deixam de se comprometer com a empresa; as gajas são umas cabras umas para as outras; se dependesse do meu marido a casa nunca estaria arrumada; eu já sei o que as feministas querem; é muito válida para o emprego mas está a pensar ter filhos; se não gostas de ouvir bocas não te vistas assim; o meu pai nunca mudou uma fralda; ai filha tem paciência, já sabes como são os homens; o tamanho não importa; foi promovida porque dormiu com o chefe; não é decoroso que as grávidas andem de biquíni; abortar é um acto de egoísmo; já viste o mal vestida que ia a Hillary Clinton; tu tens é falta de peso; filho meu nunca precisará de fazer uma cama; gosta tanto de mim que não suporta que fale com outros homens; os filhos são das mães; se queres parecer séria veste uma saia mais comprida; criticas o corpo das modelos porque és gorda; a maternidade completa a mulher; isso é conversa de gajas; elas são marronas, eles inteligentes; os homens não choram; é fufa porque não arranjou gajo; com esse feitio ainda ficas para tia; antes as mulheres eram mais felizes; há mulheres que fazem trabalhos de homens; a baixa maternal são férias; com o que ganha o marido não percebo para quê trabalha; elas nem ligam assim tanto ao sexo; quero um filho para lhe ensinar a jogar à bola; o feminismo já não é necessário.



    Por Rititi @ 2015/03/10 | 9 comentários »


    Sobre o Feminismo

    Os Filhos são de Todos:

    “Maria Beatriz esforçou-se durante três semanas para marcar uma reunião com o sub-Secretário Adjunto do Ministério. Fez dezenas de telefonemas à secretária, escreveu e-mails tremendamente eloquentes onde explicava os pontos a tratar e a importância da reunião ao sujeito, soube que o tipo gostava de música clássica assim que lhe enviou as melhores entradas para o grande concerto do ano na Gulbenkian patrocinado pela sua empresa, fez mais telefonemas suplicantes à secretária, até que conseguiu a reunião para terça-feira às onze da manhã. Todo um êxito, fruto da persistência e da infinita paciência que a caracterizavam e que fez que o chefe da Maria Beatriz a elogiasse em frente a todos os seus colegas de secção. Um orgulho para a Maria Beatriz, trabalhadora exemplar, aplicada e responsável, que durante anos deu o calo na empresa para ser respeitada e promovida pelo seu esforço. Na terça-feira lá está ela no escritório, bem vestida com o melhor fato de calça e casaco que transmite a executiva eficiente que é, com os expedientes bem estudados para a importante reunião que tinha preparado durante várias noites, arranhando horas ao sono e sacrificando a harmonia familiar. E quando já está pronta para sair, de casaco vestido e discurso ensaiado, recebe um telefonema da escola do filho mais novo: o puto tem febre, delira, não pára de vomitar, por favor venha buscar a criança à escola que nós não damos conta do recado. Maria Beatriz nem acredita no que lhe está a acontecer. Liga ao marido, mas ele também tem um dia complicado e não pode sair do gabinete agora, adeus e um queijo da serra. Maria Beatriz, que não tem uma mãe nem uma sogra que a auxiliem, está a ver a vida a andar para trás. Telefona à empregada, que obviamente a manda dar uma volta ao bilhar grande, pois tem mais duas casas para fazer e não pode perder o ordenado livre de impostos do dia. Merda. Maria Beatriz recusa-se a faltar à reunião que tanto lhe custou conseguir e que tão importante é para a  empresa, para a sua carreira, para os seus objectivos, para o bónus de final do ano com o que pagaria as obras do quartos dos miúdos, e volta a telefonar ao marido, vá lá meu, não me lixes, caralho, eu depois vou para casa e trato do puto, levo-o ao médico, ajuda-me. Mas o marido tem um chefe novo, uma besta de trinta anos sem coração, que não parece emocionar-se com as vicissitudes de quem tem filhos e que lhe espeta um “então, a sua mulher, não pode resolver o problema?”, e Maria Beatriz faz o último malabarismo: procura na agenda o telefone da vizinha artista que trabalha em casa e pede-lhe o imenso favor de ir buscar o miúdo e jura-lhe que em duas horas estará em casa, suplica-lhe, promete que lhe arranjará o autoclismo ou um namorado de vinte anos, que cozinhará para ela durante um mês, o que ela quiser, com tal que vá buscar o miúdo à escola e a salve. Por sorte, a vizinha acede e lá vai a Maria Beatriz à reunião, não sem antes pedir autorização, desculpa e clemência ao chefe para depois ir para casa tratar do filho.

    A reunião foi um sucesso, ela seria a estrela da secção, a inveja das gajas do departamento de Contabilidade, o chefe iria promovê-la, finalmente iria mudar o quarto dos putos, mas em vez de estar orgulhosa pelo resultado obtido, Maria Beatriz não deixou por um minuto de se sentir culpada por não ter mandado o chefe, o trabalho e o sub-Secretário Adjunto do Ministério às urtigas e ter ido a correr socorrer o filho, levá-lo ao hospital, dar-lhe mimos e beijinhos e calor de mãe. E quando já está em casa com o computador ligado ao trabalho a responder a dezenas de mails e a atender os telefonemas fundamentais para a existência da Humanidade enquanto ouve a voz moribunda da criatura desde o sofá, Maria Beatriz não pode evitar pensar que esta coisa da conciliação, a igualdade dos géneros e o futuro brilhante das mulheres trabalhadoras que lhe prometeram é capaz de funcionar lá nos países nórdicos ou no Canadá onde as gajas dão de mamar até aos dez anos e há fraldários nas casas de banho dos homens, mas que no sul da Europa não passa de uma utopia que só existe no papel. Uma criança está doente e da escola ligam sempre à mãe, como se o puto tivesse nascido via inseminação artificial. O calendário escolar, com as suas férias da Páscoa, do Carnaval, do Natal, do Verão e da Festa do Unicórnio Transparente, perpetuam a ideia que as mães não têm mais nada que fazer que esperar os meninos à porta do colégio, ignorando que em casa trabalham todos e obrigando a malta a maquinar engenharias mais próprias de astrofísicos nucleares cada vez que alguém descobre um feriado inesperado a meio do mês de Março. A publicidade das fraldas, das papas, de biberons, da roupa infantil exibe imagens delirantes de meninos loiros e sorridentes e das suas adoráveis e não menos sorridentes mães, aparentemente as únicas responsáveis pelo bem-estar das criaturas. Os pais devem estar na bola, ou em reuniões na ONU ou a descobrir a cura do cancro. Ou seja, a gravidez não acaba no parto, estamos prenhas até os gajos saírem de casa. E no entanto, os horários de trabalho duram até o cair da noite, sem as empresas terem em conta que as escolas não são internados de onde as crianças saem já criadas com vinte e três anos e o curso acabado. Exigem-nos que nos esfolemos, que demos os nosso melhor, sempre até à última hora, como o mais esforçado anãozinho da mina, independentemente que tenhamos os putos doentes, que haja festa na escola, como se não tivéssemos filhos. Então, em que ficamos? Somos mães ou não?

    A pergunta não é esta. Não deveria. Enquanto exista só a maternidade e não a parentalidade, enquanto os filhos forem assunto só nosso, enquanto os chefes continuarem a perguntar “então, a sua mulher, não pode levar o miúdo ao médico?”, enquanto as escolas continuarem a fingir que nós temos que estar sempre disponíveis para três meses de férias, enquanto formos nós a quem se nos exige decidir se trabalhamos ou ficamos em casa, iremos sempre a reboque, exaustas, com a sensação que não chegamos, que falta sempre alguma coisa, com o peso na consciência de que deveríamos estar mais tempo com os filhos se nos dedicamos mais ao trabalho, ou então culpadas se não somos mais empenhadas na carreira, mais ambiciosas, derrotadas no final do dia porque não era assim que a coisa deviam ter saído. E isto não é justo. Nem para nós, nem para os filhos, nem para os pais das criaturas. E não chega já de nos martirizarmos como as protagonistas das telenovelas mexicanas? Porquê temos que suportar este peso, como se a culpa fosse nossa? E, sim, sempre haverá cadáveres no caminho. É uma questão só de pôr as coisas em perspectiva e de saber o que é importante. A carreira ou chegar a horas razoáveis para fazer os trabalhos de casa com os miúdos? E que tal o pai reduzir o horário de trabalho, que seja ela a pedir autorização para levar os putos ao médico? Não? Mudar às vezes é mais fácil do que parece, basta não esperar que que os grandes tratados do femininismo universal tratem da nossa vida.

    Maria Beatriz, no dia seguinte quando voltou ao trabalho, mesmo tendo tido uma reunião fabulosa, de ter conseguido um grande contrato para a empresa, de ter alcançado os objectivos propostos, foi repreendida pelo chefe. Não se deveria ter ido embora para casa. Estava a ser irresponsável. Todos na empresa tinham filhos e não por isso deixavam de estar comprometidos. Talvez não merecesse ser recompensada.  Só lhe faltou chamar-lhe cabra egoísta. Ouviu tudo. Respirou. Sorriu. E com um par de tomates telefonou para a empresa da concorrência e ofereceu os seus serviços, os seus contactos e um contrato milionário com o  Ministério. Tudo a troco de um horário laboral flexível que a deixasse ir buscar os filhos à escola sempre que estivessem doentes.”

    (publicado no meu “Manual de Instruções para Sobreviver  aos 40″, editado pela Cego Surdo e Mudo)

    E em dia quando tiver vagar (talvez no  autocarro ainda de noite quando vou trabalhar) escrevo sobre o Maria Capaz.



    Por Rititi @ 2014/12/21 | 5 comentários »


    A caricatura

    Não têm sido tempos fáceis para o universo feminino. Desde o Jessicaathaydegate, passando às fotos roubadas ao iCloud das famosas americanas, até à cara da miúda com problemas de auto-estima conhecida como Bridget Jones, o escrutínio mediático à mulher não nos deu ultimamente um descansinho que fosse, transformando assuntos menores, ou quanto menos privados, em protagonistas das nossas timelines e destaque nas secções de sociedade dos telejornais. Assusta-me a urgência com que todas as semanas temos de encontrar a notícia explosiva sobre uma mulher que se operou, virou gay, cortou a franja, sobreviveu heroicamente a um cancro ou é apontada a nova sensação das gordas sem complexos. A mofa à mutação facial da Renée não é gratuita. E não sendo recente tomou uma magnitude a roçar o pornográfico. O que antes se ficava num comentário anónimo à volta do café agora é amplificado por qualquer comentador anónimo, internauta, tuiteiro, blogger ou cronista, como se cada um de nós tivesse efectivamente direito a postar uma foto da cara da Renée, dizer que está maluca, que flipou, fazer um collage com as sucessivas injecções de botox, exagerando absurdamente a opinião sobre uma má decisão, talvez, mas uma decisão que é dela e que só a ela lhe afectará. Comentar a franja da Byoncé como se a nossa vida dependesse disso. Ir a correr ver os vídeos sexuais íntimos da Jennifer Lawrence (e achar que quem anda à chuva molha-se). Transformar o vestido de noiva da Angelina Jolie num assunto de estado. Os desgraçados dos meus Trambolhos são uns amadores comparados com o gossip desenfreado que nos invade. Uma coscuvilhice de facebook destinada a analisar, comentar, gozar e diminuir as mulheres, neste caso umas famosas que se põem a jeito, que se operam, que são notícia por estarem ali, na red carpet ou na capa de uma revista. O que se julga não é o carácter, nem a pessoa: é a caricatura. A caricatura que todas nós somos destinadas a ser, face à pressão, não já dos meios, mas dos comentadores histéricos em que todos nos estamos a transformar. Que a Renée Zellweger se tenha transformado numa personagem qualquer da Anatomia de Grey é só uma metáfora, a nossa metáfora de um mundinho de merda onde todos perdem uma boa oportunidade para ficarem calados e não parecerem uns cretinos.

     



    Por Rititi @ 2014/10/27 | 5 comentários »


    VIVA EU

    Todos os dias.



    Por Rititi @ 2013/03/08 | 7 comentários »


    Querido vizinho do andar de baixo:

    Vá-se foder. Desculpe-me lá a brusquidão logo assim de repente, mas acho que a nossa relação já não está para salamaleques e parece-bem a estas alturas do campeonato. É que, sabe, eu não sou propriamente apreciadora de tocamentos do (meu) grelo e muito menos em minha casa, às seis da tarde e quando já tive que levar com uma quantidade ingente de anormais e gente espancável lá na mina. Deve calcular que ter o senhor todos os dias a bater à minha porta à hora do lanche a queixar-se de que os meus filhos estão a fazer muito barulho não é a coisa que mais prazer me dê na vida. Vou-lhe explicar uma coisa, meu imbecil: os meus filhos têm 2 e 4 anos. Não sei que barulho acha que os meus filhos fazem ou podem fazer, mas com esta idade não superam, os dois juntos, os 40 quilos. Saltam? Correm pela casa? Cantam, berram, choram, gritam? Sim. E depois? Como deve calcular não vou proibir os meus filhos de brincar na sua própria casa só porque o senhor diz querer dormir a sesta. Lamento. Já se mudassem os móveis de sítio, era capaz de me irritar, porque me riscam o chão, não pela privação da sua sesta ÀS SEIS DA TARDE! Já pode subir todos os dias as escadas para se lamentar do insofrível tormento de ter duas crianças a fazer corridas na sala porque estou-me bem cagando. Mais me irrita que o senhor assobie (mal) à janela a-todas-as-horas-do-dia e lá por isso não lhe mando com um balde de merda em cima. E aproveitando este desabafo contra adultos com falta de chapadas não só na infância, também gostaria de mandar para o caralho a fufa-lésbica-homossexual-tanto-me-faz que foi ao concerto de música dos Balcãs para crianças e que achou que o meu filho de 4 anos não podia nem correr nem dançar nem cantar e por isso o agarrou do braço e o mandou para o chão. Eu percebo muita coisa, sabe sua vaca dum cabrão, mas não tenho a culpa que a senhora não tenha educação para se saber comportar em público. Arrependo-me, nem sabe quanto, de ter sido uma cidadã responsável altamente influída pelos valores da cultura do politicamente correcto e só ter lhe chamado a atenção ameaçando-a com telefonar para a polícia por maus tratos a uma criança quando o que devia ter feito era ter espancando a sua cabeça contra o palco uma e outra vez, até ter pedido desculpa ao meu filho. Agora, desde a distância, mando-a foder. Sim, foda-se. E que se fodam todos os queixinhas desta vida que acham que os meus filhos deviam ser uma espécie de bonecos imóveis, umas estátuas muito loirinhas e adoráveis que nem respiram do educadinhas que são só para não incomodar as sestas, os lanches nos cafés, as compras no supermercado. Fodam-se. Este meu grelo maternal já está um bocado farto da vossa intolerância às crianças disfarçada de superioridade moral, dessa vossa brutal estupidez que tentam justificar com princípios educacionais do arco da velha, apropriando-vos de um discurso que nem os vossos pais alguma vez se atreveram a usar porque tinham filhos que se portavam mal como a merda: vocês.



    Por Rititi @ 2013/02/27 | 15 comentários »


    Foder é que não

    Uma miúda linda (linda não, boa) prova o armário inteiro em frente ao espelho enquanto decide que de este ano não passa, que vai para a cama com o chefe que também é bom todos os dias e que lhe vai meter a mão ali mesmo, ai, uf, vozes orgásmicas, a ele que lhe ficam tão bem as t-shirts e que se lixem as de contabilidade, toma, toma, porque ela merece e tal e pronto, hoje vai para a cama com ele e até mais de uma vez, sim, ui, ufa, ufa. E claro, o twitter, essa fábrica de pensadores, falou da campanha da Desigual durante uma semana inteira. Machista, horrenda, simples clamaram uns, brilhante e valente, fabuloso, twitaram outros, entre textos de grande eloquência onde se debateram questões fundamentais para a humanidade como o papel da mulher na publicidade, a liberdade sexual, a promiscuidade e o sexo dos anjos. Por um lado uns perguntavam-se qual é o problema de ter uma gaja a dizer que vai foder com o chefe se a Axe faz campanhas sincera e orgulhosamente sexistas (um gajo banal borrifa-se de desodorizante e três dúzias de modelos russas tesudas brotam nuas por arte de magia dentro da cama dele). Por outro, questionavam se este é o ideal de mulher liberada, realizada e plena, cujo único fim parece ser ter sexo com um gajo só porque “está bueno”. Bem, para já este anúncio não tem a piada dos anúncios da Axe, que usa e abusa de gajas boas (sim), mas também da ironia na mensagem: sim és feio, magrelas e sem gracinha nenhuma, mas se usas a Axe vais continuar a ser feio e magrelas mas as gajas vão cair que nem tordos aos teus pés. Sim, o anúncio da Desigual é uma merda. Mas também é verdade que a miúda do espelho não diz que tem como único propósito na vida foder o chefe; talvez esteja a acabar o MBA, tenha três filhos, seja cirurgiã de renome internacional, sei lá, mas o caso é que esta noite especificamente o plano dela é mandar uma queca valente com o homem e já está. Ou seja, continuamos na mesma: uma gaja não poder ter sexo porque sim. Os machistas chamam-lhe puta e as feministas básica, ignorante e irresponsável e em ambos os casos pela mesma razão: uma mulher deve querer mais do que simples sexo. Amor, filhos, carreira, projecção, ambição e o caralho. Foder é que não. E muito menos falar disso.  O costume, depois de tantos séculos. Vamos bem, vamos.



    Por Rititi @ 2012/12/18 | 11 comentários »


    O aborto, outra vez

    Neste Agosto madrileno, quente e de ruas vazias, com os vizinhos na praia e os meus filhos no Alentejo, os dias passam lentos, como que desocupados, mesmo que às oito da manhã tenha já o cu sentado na secretária em frente ao monitor . Acontecem os dias de Agosto com os seus Jogos Olímpicos, a crise do euros e da dívida, da Síria, com mortos na televisão por tiroteios de loucos desfasados e com esse eterno incêndio que nunca se apaga e que cada ano vai incinerando o nosso futuro. Estamos adormecidos em Agosto, os que trabalhamos com a rotina dos autocarros e dos e-mails, os que estão de férias com os pés soltos, livres de saltos e das correrias dos pequenos almoços e dos colégios que fecham antes que o trabalho. E há quem se aproveite desta sonolência: especuladores, amantes, programadores de televisão e políticos. E há um político espanhol que tem a convicção que o verão nos aparvalha: chama-se Alberto Ruiz Gallardón e é o Ministro de Justiça.  Enquanto foi Presidente da Câmara de Madrid a ninguém lhe importou que endividasse a capital até níveis pornográficos, nem que substituísse as árvores das alamedas e da praças pelo granito frio, nem muito menos que fosse um ultra-católico com antepassados membros do regime franquista (às vezes a sonolência não é só questão estival, trata-se só da ausência de consciência civil). Gallardón sentou-se na sua cadeira do seu ministério e de ali começou a sua Cruzada pessoal nesta Espanha endividada, arruinada, entristecida e sem mais futuro que o resgate: modificar a lei do aborto.  Os fetos têm direitos. Direito a não serem abortados, mesmo que venham com graves mal-formações, porque os mal-formados também devem nascer, independentemente que durem 2 horas ou 2 décadas em condições lamentáveis, agarrados a uma máquina ou ao destino de uma mãe que não teve direito a decidir uma vida digna, não para ela, mas para o filho que lhe mal-crescia no ventre. Este senhor diz-se católico e  agora (talvez inspirado pela cabronice congénita de uns gajos que, sem ter sexo, nem filhos nem casa ou mulher que amar, tentam ordenar sobre a vida dos outros) programa legislar sobre o mais íntimo, sagrado e pessoal que poderá nunca ter uma mulher, a maternidade. Em Espanha, se este homem tão pouco cristão conseguir concretizar os seu sonho, a livre vontade da mulher ficará anulada e crianças, e toda a sua família, estarão condenadas a mal viver, porque assim é a lei de Deus, ou do raio que o parta. Nem os critérios dos médicos seriam válidos se esta lei se materializa. Imagino que daqui a pouco tempo saberemos que nem a violação será uma justificação para abortar. Se numa democracia nunca aceitaríamos que um muçulmano  fundamentalista nos impusesse as suas convicções religiosas, porquê deveremos aceitar que um ultra-católico legisle segundo a sua moral? São mais válidas as teorias católicas sobre a sexualidade e a natalidade que a dos muçulmanos só porque estamos mais habituados? E afinal quem tem que se adaptar a quem? O conjunto da sociedade democrática aos parâmetros da Curia Católica ou ao contrário? Que alguém queira ser do clube dos padres é obrigatório? Aliás, é obrigatório abortar? Não. Aborta quem quer. Nem sequer se trata de um assunto religioso. Trata-se de uma decisão íntima, pessoal, livre e, em última instância, da mulher. Assim são as nossas regras, as dos democratas, as dos cidadãos livres. Não será um padreco com aspirações a um lugar no santoral quem decida por mim, pelo futuro da minha família, dos meus filhos. Este é o PP que nos governa em Espanha, um partido que me acha inferior ao homem e portanto incapaz de tomar decisões conscientes e que necessitaria sempre a tutela superior. Acaso estes homens nunca desistirão de tentar controlar o destino das mulheres, a minha vida, o meu direito a decidir quando quero ter um filho e em quais condições? Proibir o aborto é obrigar a ter um filho que não se quer ou não se pode ter. E não me venham com sermões sobre mulheres que abortaram e se arrependeram, casos de deficientes bem sucedidos e histórias de lagriminha fácil para a TVI. Não, minha gente, não. O aborto é um tema demasiado sério para demagogias bacocas e cantorias de grupos de catequistas. Aqui não.



    Por Rititi @ 2012/08/06 | 13 comentários »


    É pra lamber (nova e imprescindível série para o verão de 2012)

    E esta série não trata sobre homens interessantes, feios-bonitos, velhadas com pintas, gajos com estilo, miúdos que um dia até podem ser giros. Não, esta nova série é mesmo para imprimir e pegar à parede e depois ir lá e lamber a foto. Uma série sobre gajos superlativos, bons bons, de verdade, de agarrar e virar, subir a perna e dar cambalhotas. Segundo os meus gostos, claro, que são os que contam.

    Joe Manganiello. Valha-me Deus.

     



    Por Rititi @ 2012/07/02 | 13 comentários »


    8 de Março



    Por Rititi @ 2012/03/08 | Sem comentários »