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Rititi

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INÍCIO

  • Rititi no #MariaCapaz

    Hoje escrevo na Plataforma Maria Capaz. Sobre o que me ensinou um vestido de princesa.

     



    Por Rititi @ 2015/01/12 | 6 comentários »


    Não morri, tenho andado ocupada.

    Com a vida, com o banco onde trabalho há 14 anos e que se fodeu com a vénia dos que tinham a competência e o dever de evitar o seu colapso e a nossa vergonha, com filhos que desenvolvem com a idade uma surdez selectiva (ou então devo ter um problema na boca), com a mudança de empregada (e vão três num ano), com a puta da vida de gente grande. Mas eu ando por aqui, companheiros. Atenta às vossas letras. Às vossas inquietações e ao infindável número de grandes dilemas que cada dia ocupa os vossos blogues, estados de facebook e tuits apaixonados. Tenho lido pouco, ou pelo menos nada de jeito, fui ao concerto dos Extremoduro e vi de enfiada a série Fargo. Orange is New Black vale pelas gajas e por sorte começou a 5ª temporada do Walking Dead. De Homeland nem falamos. Também descobri o Observador, que não se esquece de me citar quando é preciso comentar assuntos sisudos que atormentam o nosso país (caso Jessica Athayde, é óbvio). Leio o Observador e gosto. Tem boas análises, crónicas bem escritas e até textos “must do” que tanto êxito têm entre os leitores apressados. O problema é quando me encontro com um texto sobre “Os 5 livros que tem de ler aos seus filhos” (que EU tenho de ler, atenção). Sinceramente  amigos do Observador, chateia-me o imperativo. Porque, segundo o texto, não basta ler-lhes: tem de ser antes de dormir. Para já, a primeira conclusão a que chego é que os meus filhos estão condenados à estupidez. Não conhecem nenhum dos livros recomendados, os desgraçados. A segunda conclusão, menos prosaica, é que a livreira recomendadora não deve ter filhos. Ou vá lá, deve ter uns filhos que são uns anjinhos, um conjunto de perfeições, umas santas alminhas que à hora de ir dormir estão em estado zen gravitacional e com os chakras todos alinhados. Ou então estão drogados.

    Eu sei que vocês que estão desse lado do iPhone a ler-me no autocarro são uns pais extraordinários e focados no desenvolvimento psico-emocional e intelectual dos vossos filhos; até estou convencida que os que ainda não são pais já sabem que para ser um bom educador é fundamental dedicação, literatura e amor, a ser possível depois do jantar e antes do beijo amoroso de boas noites, mas queridos pais, amadas mães, precisamente a essas horas a última coisa que o meu corpo me pede é sentar-me ao pé do beliche e ler-lhes Onde Vivem os Monstros com voz serena. A partir das sete da tarde há de tudo na minha casa menos momentos “afectivos, tranquilos e únicos”, que eu nem sei como somos capazes de sobreviver sete dias por semana a esse suposto “tempo de qualidade”. A única qualidade real que conheço é a a dos meus berros quando os chamo para a banheira. Sim, amigos, o fim do dia é aproveitado para algo tão pouco gerador de boa onda como “banho-jantar-lavar os dentes-cama”, a um ritmo quase militar e com ordens que se repetem em média dez vezes: toma banho, não entornes a água que isto não é uma piscina, não metas o dedo no nariz do teu irmão, sai da banheira, tu também, seca-te, o rabo também conta, veste o pijama, está ao contrario, senta-te bem à mesa, fecha a boca, come a sopa, tira a mão da cabeça, põe a mão na mesa, o guardanapo não é um chapeu, não grites ao teu irmão, bebe o leite, não cuspas o leite, lava os dentes, os de lá atrás também, faz xixi, dentro da sanita já agora, beijo ao pai, beijo à mãe, deita-te, apaga a luz, o que queres, já bebeste água, mais um beijo, deixa de cantar, dorme, o que queres que eu faça se o teu irmão ressona, porra dorme, não tens  nada medo. VEZES DOIS. Imaginam por tanto a minha especial falta de vontadinha (e de corpo, repito) para todos os dias lhes estar a alimentar “a curiosidade”. Como se fossem ficar com a capacidade intelectual dum concorrente da Casa dos Segredos, incapazes de lerem as instrucções de um champô ou com medo dos livros. Poupem-me.

    Porque não há dia em que um jornal, revista ou blogue publique uma lista de tarefas sobre a educação dos meus filhos: alimentação biológica, música clássica, desportos alternativos, filmes que fomentam a tolerância, roupa ecológica, brinquedos sustentáveis, um sem fim de instrucções, porque eu lógicamente sozinha não atino. O mais certo é que acabem qual bestas, analfabetas, perdidas num mundo idílico onde todas as crianças devem falar várias linguas, nadar como campeões olímpicos ou conhecer um vasto leque de autores da literatura nórdica. No mínimo. Sem esquecer as actividades conjuntas, imprescindíveis para criar os tais laços íntimos e profundos com os meus rebentos, como reclicar caixas de sapatos que só me ocupam espaço e criam pó ou a confecção de bolinhos de arroz em bucólicas tardes de domingo. Não sei como é que ainda não me tiraram a custódia. Porque as crianças não podem apanhar secas sozinhas no quarto não vão sentir um tremendo vazio existencial.  Porque os pais temos de ser estupidamente pro-activos, divertidos, tenhamos resaca, sono ou uma hemorroide assassina. Porque isto cada vez mais parece uma puta de uma competição a ver quem é mãe mais original e o filho mais criativo. Depois a malta admira-se que os putos andam stressados. Estão é fartos de nós.

    (Já agora, o meu filho de 6 anos sabe ler perfeitamente. Em português e em espanhol.  Sozinho.)



    Por Rititi @ 2014/10/21 | 21 comentários »


    Eu também sou uma Mãe Querida

    E até escrevo coisas como esta:

    Sim, definitivamente hoje é um dia em que não me apetece ser mãe de ninguém. E escrevo isto sem nenhum tipo de complexos numa web chamada “Mãe Querida”. Sim, este é um dia em que quero fugir daqui para fora, para um spa, para a pensão ao fundo da rua, para esse sítio onde estão proibidas as crianças, um lugar paradisíaco sem choros nem birras, sem roupa espalhada na casa de banho ou jantares para fazer, sem aulas de judo, sem putos que aturar. Porque por muito que adore os meus filhos e todo esse blablabla que parece obrigatório nos blogues maternais eu preciso estar sozinha. Reformulo: preciso estar sem eles. 

     



    Por Rititi @ 2014/01/19 | 14 comentários »


    Suspiro

    Mãããããe o Francisco não me deixa, Mãããããe o Manel não me dá, Mãããããe quero, Mããããããe dá-me, Mããããããe onde está, Mããããe tenho fome, sede, vontade de fazer xixi, Mããããããããããããããããããããããe…
    PO-RRA-JU-RO-QUE-EU-HO-JE-DOU-OS-CA-BRÕES-DOS-PU-TOS-EM-A-DOP-ÇÃO-FO-DA-SE!



    Por Rititi @ 2013/11/20 | 9 comentários »


    Pobres e ricos

    Cinco semanas depois, cá estou eu sentada ao lado da minha janela. As sardinheiras, deve ser do frio, ficaram sem flores e o único toque de cor é dado pela malagueta que comprei há duas semanas na florista que está ao lado do mercado. Esse dia de excursão infantil para comprar flores, os meus filhos descobriram que há meninos da escola deles que “fazem compras” na igreja do bairro. Os mesmos meninos que quando vêm cá a casa brincar depois da escola lhes dizem que nós somos ricos, sem que os meus filhos possam entender o significado de esta classe de afirmações. Os meus filhos não sabem das angustias dos pais deles e muito menos dos outros, vivem num mundo de dinossauros e princesas, de jogos no parque e lanches quentinhos em casa. Não sabem o que é ser rico e mesmo que ouçam à hora do jantar que há meninos que não têm para comer, isto só lhes soa a uma frase com um grave erro semântico. “Come a sopa, porque há meninos pobres” faz menos sentido para eles que dizer-lhes “não há água porque a Peppa Pig fez xixi na cama”.  Os meninos pobres não existem no mundo deles. Eu sei que o que impera na educação infantil é justamente o contrario: falar às crianças sobre as desigualdades sociais, relembrar-lhes o afortunados que são porque têm brinquedos e educação e um mês de férias e não descansar até os putos terem bem claro que há gente mais desgraçada que eles. Pois. Por agora não tem sido preciso. Eles já sabem que há crianças que não têm férias, aliás, muitas delas são coleguinhas de turma. Eles têm amiguinhos que nunca vão a restaurantes, nem ao cinema, que nunca andaram de comboio, que nunca viram o mar. Eles já sabem que os Reis Magos não trazem o mesmo número de prendas a todos e isto não tem nada a ver como os meninos se portem durante o ano. Um dia saberão que aquela amiga que nunca festejava os anos não o podia fazer porque a mãe solteira não tinha dinheiro. Um dia saberão que o colega não fazia compras na igreja, mas que ia pedir comida. Apontar o amigo como “o pobre” situaria automaticamente os meus filhos no lugar dos “ricos” que não são. Porque eles também têm colegas que passam férias nos Estados Unidos, que cada fim de semana recebem brinquedos novos, que têm uma casa na serra com piscina e três carros na garagem. E eles não. Então os meus filhos seriam o quê? Pobres? Pois, depende. Educar as crianças no “coitadismo”, tão típico deste mundo de valores de reallity show, serve justamente para o contrario, para que os putos comecem a diferenciar-se e sempre segundo os parâmetros dos adultos que precisam desesperadamente de etiquetas para se sentirem bem. Os meus filhos, por enquanto, não sabem o que significa ser rico ou pobre. Mas brincam sem rótulos. E para mim, agora que são pequenos, chega.



    Por Rititi @ 2013/11/19 | 11 comentários »


    Eu sonho com estas coisas….

    - Fazer xixi/cocó, mudar o tampão ou cortar as unhas dos pés sem ter dois marmanjos na casa de banho cada três segundos a pedirem lanche, água, colo ou a paz mundial.
    - Trancar a porta da casa de banho também não resulta: os tais marmanjos continuam a reclamar do outro lado por comida (pelos vistos passam fome), mas com pontapés.
    - Passear pela rua como um ser adulto normal e não como a mãe possuída a gritar “não atravesses a ruaaaaaaa” ou “não faças xixi aiiiiiiiiii”.
    - Experimentar ir às compras com duas crianças que não fazem corridas com os carrinhos de super-mercado.
    - Sentir a doce sensação de viajar de carro em silêncio. Nem que seja durante meia hora. Ou quinze minutos. Ou um. Só peço 1 minuto de silêncio, caralho!
    - Jantar sem concursos de arrotos. Soa ambicioso, mas algum dia lá chegarei.
    - Algum dia deixar de ser o sofá para onde os meus filhos se atiram quando estão cansados. E recuperar o meu sofá também era bonito.
    - Acabar uma conversa com outro adulto quando os putos estão por perto. Que exagero, dizem vocês. Têm razão: acabar uma frase.

    De resto, é óptimo ter filhos.



    Por Rititi @ 2013/09/20 | 15 comentários »


    Querido vizinho do andar de baixo:

    Vá-se foder. Desculpe-me lá a brusquidão logo assim de repente, mas acho que a nossa relação já não está para salamaleques e parece-bem a estas alturas do campeonato. É que, sabe, eu não sou propriamente apreciadora de tocamentos do (meu) grelo e muito menos em minha casa, às seis da tarde e quando já tive que levar com uma quantidade ingente de anormais e gente espancável lá na mina. Deve calcular que ter o senhor todos os dias a bater à minha porta à hora do lanche a queixar-se de que os meus filhos estão a fazer muito barulho não é a coisa que mais prazer me dê na vida. Vou-lhe explicar uma coisa, meu imbecil: os meus filhos têm 2 e 4 anos. Não sei que barulho acha que os meus filhos fazem ou podem fazer, mas com esta idade não superam, os dois juntos, os 40 quilos. Saltam? Correm pela casa? Cantam, berram, choram, gritam? Sim. E depois? Como deve calcular não vou proibir os meus filhos de brincar na sua própria casa só porque o senhor diz querer dormir a sesta. Lamento. Já se mudassem os móveis de sítio, era capaz de me irritar, porque me riscam o chão, não pela privação da sua sesta ÀS SEIS DA TARDE! Já pode subir todos os dias as escadas para se lamentar do insofrível tormento de ter duas crianças a fazer corridas na sala porque estou-me bem cagando. Mais me irrita que o senhor assobie (mal) à janela a-todas-as-horas-do-dia e lá por isso não lhe mando com um balde de merda em cima. E aproveitando este desabafo contra adultos com falta de chapadas não só na infância, também gostaria de mandar para o caralho a fufa-lésbica-homossexual-tanto-me-faz que foi ao concerto de música dos Balcãs para crianças e que achou que o meu filho de 4 anos não podia nem correr nem dançar nem cantar e por isso o agarrou do braço e o mandou para o chão. Eu percebo muita coisa, sabe sua vaca dum cabrão, mas não tenho a culpa que a senhora não tenha educação para se saber comportar em público. Arrependo-me, nem sabe quanto, de ter sido uma cidadã responsável altamente influída pelos valores da cultura do politicamente correcto e só ter lhe chamado a atenção ameaçando-a com telefonar para a polícia por maus tratos a uma criança quando o que devia ter feito era ter espancando a sua cabeça contra o palco uma e outra vez, até ter pedido desculpa ao meu filho. Agora, desde a distância, mando-a foder. Sim, foda-se. E que se fodam todos os queixinhas desta vida que acham que os meus filhos deviam ser uma espécie de bonecos imóveis, umas estátuas muito loirinhas e adoráveis que nem respiram do educadinhas que são só para não incomodar as sestas, os lanches nos cafés, as compras no supermercado. Fodam-se. Este meu grelo maternal já está um bocado farto da vossa intolerância às crianças disfarçada de superioridade moral, dessa vossa brutal estupidez que tentam justificar com princípios educacionais do arco da velha, apropriando-vos de um discurso que nem os vossos pais alguma vez se atreveram a usar porque tinham filhos que se portavam mal como a merda: vocês.



    Por Rititi @ 2013/02/27 | 15 comentários »


    Os meus filhos

    Pelas razões que já todos vocês sabem eu não escrevo aqui sobre os meus filhos. Excesso de zelo, sentido comum, privacidade, cagança, you name it. Aliás, não vejo o interesse de fazer público aqui o quotidiano deles: as gracinhas às que eu acho o máximo são corriqueiras e comuns em qualquer puto da idade deles, todos têm a mesma voz de assobio, todos dizem frases fabulosas e desenquadradas que fazem a qualquer adulto sorrir. Mas já está. Claro que para mim e o meu marido, para a minha família e para aqueles que nos amam os meus filhos são seres incríveis, extraordinários até. Para o resto, só crianças. Aliás, até tenho a certeza que para muitos dos meus amigos os meus filhos são esses cabrõezinhos que não deixam a mãe acabar a conversa nem almoçar sossegada. São meninos como os outros, desses que sempre ficam doentes na noite em que temos um jantar que estava programadíssimo há mais de dois meses com amigos que vivem nos Estados Unidos, que fazem birra histérica em frente a pessoas às quais queremos impressionar (ex-namorados, ex-amigos, a família do marido), putos aos que, obviamente, lhe nascem os dentes na semana em que mudamos de casa ou temos reuniões vitais às oito da manhã, que têm diarreia precisamente no dia que saímos de casa só com duas fraldas porque, lá está, não faz falta é só um par de horas que a gente está fora, que se atiram para cima de nós quando estamos a pintar as unhas dos pés na sala, que vomitam para cima da prateleira da Zara, que dormem sempre a sesta menos quando fazemos uma viagem de 400 quilómetros, que todos os dias nos pedem para ir ao cinema e quando lá estão começam a chorar porque querem ir ao jardim zoológico, que comem de tudo sempre excepto em casa da avó (paterna) e que, este é um clássico, comportam-se sempre muito melhor na escola que em casa. Por isso, queridos e sobretudo queridas que me pedem para contar coisas dos meus filhos, não levem a mal. Pensem nos vossos filhos e perguntem-se se realmente é mesmo importante ler num blogue grandes dissertações cada vez que uns putos cagam, mijam e vomitam. Pois, eu também não.  Aliás, porque não tem graça nenhuma.



    Por Rititi @ 2012/03/26 | 14 comentários »


    Tempo

    A semana passada aconteceram tantas coisas, que até pareceu mal não ter vindo aqui cagar uma posta de pescada. O fim (?) de ETA, a morte de mais um tirano que até antes de ontem era amigo íntimo do coração a quem recebíamos a troco de petrodólores e terroristas islamistas, a entrega dos Prémios Príncipe de Asturias e o discurso do queridíssimo Ricardo Mutti que só consegui ver em diferido e via web. Pois é, não deu. Não tive tempo. Aliás, tive, mas preferi usa-lo para adormecer no sofá depois de ter atirado os putos para a cama, com a baba a escorrer entre algum capítulo repetido do CSI e a digestão da massa com frango. Eu sei que a vossa vida é fabulosa, a minha está a roçar o patético. Se não fosse pelo uísque que anda cá por casa era igual à de qualquer dona de casa de Lavacolhos, mais coisa menos coisa.  Enfim, hoje tive tempo para escrever. Pouquinho porque já sabem que daqui a nada tenho que ir buscar as crias aos respectivos centros educativos, porque o meu mais velho já vai à escola. Uma escola pequena, pública, laica e aqui do bairro, na qual o meu Rititi Boy deve ser muito feliz, porque o gajo não me conta nada. Tudo bem? Sim. E que fizeste? Não me lembro. O meu filho, se alguém tinha dúvidas, é um gajo. Mais informação não recebo, a não ser umas fotocópias metidas no bolso do bibe, num estilo instrução militar, do género paguem as aulas de música ou dedique um tempo da sua vida a fazer uma bruxa para a festa de Halloween que festejaremos esta semana. Alto aí!! Halloween?? Masquestamerda? Estamos a falar do mesmo colégio laico que não comemora o Dia da Mãe porque é uma festa religiosa? E Halloween é o que, exactamente? Ou se calhar além de laicos, os directores deste colégio têm também uma vocação global e espera-me um ano lectivo de comemorações multiculturais e multinacionais desde o Fim de Ano chinês, passando pelo 25 de Abril turco e Dia da Independência do Uganda? Ou acaso são simplesmente ignorantes e ninguém lhes disse que aqui, nesta nossa terra e nesta nossa cultura, nos nossos genes,  Halloween não existe e que aqui celebramos o Dia de Todos os Santos, dos nossos defuntos, que aqui honramos a memória dos nossos seres queridos sem precisar de máscaras e bruxas e pintelhices pirosas? E agora, se me dão licença, vou passar um “tempo de qualidade” com o filho de três anos enquanto EU recorto cartolinas às cores, tento pintar um chapéu com papel de alumínio e faço um vestido para a puta da bruxa com o saco do lixo enquanto gajo caga para mim e vê os desenhos animados. Ainda bem que me falta tempo para ir à escola e meter o pau da vassoura da bruxa por onde eu bem sei.



    Por Rititi @ 2011/10/24 | 13 comentários »


    Adolescência

    Ontem o meu Rititi-boy mais novo fez um ano. Bichinho querido. E enquanto o lambia e beijava e lhe cheirava o pescoço amoroso pensava no pouco tempo que me resta para o mimar, amassar, dar-lhe colinho com fartura, morder-lhe os dedinhos dos pés. Que merda, os gajos crescem, depressa, muito depressa. Daqui a nada já está a pedalar feito uma besta, a perder os dentes, a levar pontos na cabeça e no queixo, a querer jogar na PS2 aquelas merdas horríveis onde simulam mortes e mutilações, até chegar à puta da adolescência, essa fase da vida que não serve para nada, a não ser para criar complexos aos putos e dar cabo da cabeça dos pais. Agradeço desde já que os eventuais psicólogos, pedagogos ou educadores que aqui me visitam me poupem as teses de doutoramento sobre a importância desta fase para o desenvolvimento cognitivo da criança ou a necessidade do enquadramento do indivíduo da sociedade. O caralhinho, é o que é. Eu não sei vocês, mas eu tive uma adolescência de merda. Passei de ser uma criança magricela e com franja a ser um trambolho magricelas e com franja e com um par de mamas que não sabia onde esconder nem para quê serviam. E com pêlos escuros e que teimavam em aparecer em sítios que antes ignorava que existiam. E com este nariz, ai criatura, que tentava simular evitando (!) que o resto da humanidade visse de perfil. Pena de mim. Por não falar da boca que crescia ao ritmo das mamas e que me obrigou a levar até aos 17 anos um aparelho que afundava (ainda mais) a minha pobre auto-estima. Perdão, ninguém tinha nessa altura auto-estima: ou eras como todas as outras miúdas ou então tinhas um complexo de cavalo. E o que eu queria mesmo era ser loira, não ter mamas, medir metro e cinquenta, ter um namorado com mota (já tocaremos o tema dos namorados noutro capítulo) e que alguém me compreendesse. Porque a mim ninguém me percebia. A minha mãe era uma adulta de trinta e tais (velha, portanto), magra e altíssima que se vestia com muitíssima pinta, razões de sobra para me envergonhar, que como é lógico esse era o seu objectivo, fazer-me a vida negra. Os meus irmãos mais novos, esses, viviam no mundo da fantasia e nem de longe estavam à minha altura emocional e intelectual, umas crianças que nem podiam imaginar por tudo o que eu estava a passar, o que sofria em silêncio, as minhas transcendentais dúvidas metafísicas. Quem poderia entender-me? Só as minhas amigas que, lógicamente, eram muito mais bonitas e mais loiras e tinham imeeeeenso êxito com os rapazes, que eram a fonte a minha dor interior. Rapazes que eu achava que nem me olhavam, que não sabiam quem eu era, a que colégio ia. Rapazes que escolhiam sempre outras. Horror de adolescência. Nada saquei de proveito daquela época tremenda, só me deu insegurança, complexos de gaja feia mas muito espertinha (gente do mundo, nunca comparem duas irmãs com essa simpática frase filhadaputa “esta é muito gira, já a outra é muito…. estudiosa”), complexos aliás que só passaram a partir da faculdade, quando reparei que não tinha que provar nada a uma cambada de miúdos imberbes e com mania que eram giros. E agora é imaginar os meus putos daqui a uns anos, a cara feita terra fértil de borbulhas, pelugem no bigode patético, o nariz desproporcionado, a voz que mais parece um rádio estragado, braços simiescos, enfiados num mundo de silêncios, palavras estranhas, medo do outro, sem que nada eu possa fazer, senão esperar a que esta época passe e se transformem em seres humanos mais ou menos normais, mas humanos, ao fim ao cabo.



    Por Rititi @ 2011/10/17 | 8 comentários »