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Rititi

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INÍCIO

  • Grandes Cabras da Ficção: como uma puta cara

    O lógico seria empatizar com esta dona de casa cujo marido faz questão de a trair temporada a temporada com herdeiras judias, senhoras de meia idade, professoras, hospedeiras e artistas várias. Sim, os cornos de Betty Draper (January Jones) são antológicos. Abandonada à pasmaceira do subúrbio nova-iorquino, alguma coisa correu mal para esta mãe de três criaturas ideais, como ideais são os seus vestidos, as aulas de equitação, a criada preta, as redecorações da sala de jantar, os pic-nics e as amigas igualmente enfastiadas, aborrecidas todas elas de uns maridos que nunca estão mas que satisfazem todos os caprichos, necessidades impostas por esta época de prosperidade e new Camelot. Mas não há cá empatia para ninguém: antes nos identificamos com um Don Draper traumatizado por um passado que nega que com esta insatisfeita, fria e infeliz betinha que é incapaz de ser carinhosa com os filhos a quem só dá ordens, amante do marido ou sincera com as amigas.  A gaja está sempre mal, nada a faz sorrir, tudo é uma desculpa para estar de trombas agarrada ao cigarro e ao copo de vinho. O que a safa é ser essa beleza gélida, a inveja do bairro, o desejo secreto dos colegas do marido, dos maridos das vizinhas, dos homens incautos que se babam, ou deveriam babar-se, por ser tão linda tão linda, cristo, tão loira, tão magra, tão perfeita, tão tão que enquanto tem a possibilidade troca o marido pelo primeiro idiota que lhe oferece uma alternativa. Sem escândalos, sem levantar a voz, sem o Don Draper ter percebido nada do que se estava a passar, esta sonsa (lá está, cuidado com as sonsas!), consegue subir na vida sem o mínimo esforço emocional, sem mostrar um afecto, sem lutar pelo gajo dela, sem o mandar à merda, sem chorar pela sorte dos filhos, sem temer pelo prato na mesa. Nada. A essência da cabrice reside nessa frieza brutal, nesses olhos que atravessam mais que olham, nessa pose distante tão comum a essas mulheres que se passeiam pela vida como por se fosse uma passarelle de moda – alheia às dores de dentes dos filhos, indiferente ao cansaço do marido, longe das queixas das vizinhas – como um astro a quem se deve adorar, nem mexer, sem tocar. Como uma puta cara.



    Por Rititi @ 2010/09/28 | 9 comentários »


    Depois de ter engolido as três temporadas de Mad Men

    Posso dizer e digo que Betty Draper é possivelmente uma das maiores cabras da ficção com quem me encontrei nos últimos tempos. Já voltarei ao tema.



    Por Rititi @ 2010/09/20 | 1 Comentário »


    as grandes cabras da ficcao mrs nordley

    AS GRANDES CABRAS DA FICÇAO:
    MRS NORDLEY, A SONSA COM CARÊNCIAS
    (MOGAMBO)

    Mrs. Nordley (Grace Kelly) é uma senhora, bem passada a ferro, inocente, tão loira e recatada, tão fiel ao marido, tão como uma mulher deve ser. O penteado que não se lhe desmancha, as palavras estudadas, ai, o sonho de qualquer Victor Marswell (Clark Gable) que deseja acabar os dias sentado à lareira com a dama perfeita. Não chateia, não fuma, sorri o necessário. A beleza fria da fêmea que não berra na cama nem envergonha os sogros. Ou não. Claro que não. Basta pôr os pés em África para que à querida Mrs. Nordley se lhe caia a máscara e se mostre como a sonsa mal comida que deseja fugir das noites de sociedade, a entediada esposa do antropólogo apaixonado pelos gorilas da selva.
    Coitada de Mrs. Nordley. Que fazer? Confessar ao marido a sua paixão pelo caçador velho? Fugir, gozar o amor que descobriu? Não, claro que não. Porque Mrs. Nordley, de tão pura e educada, prefere mentir a que pensem mal dela, a que a critiquem, a que lhe manchem a honra. Porque a honra numa senhora é muito importante, mesmo que Mr. Nordley seja o cornudo mais famoso da expedição e o tonto de Marswell faça o ridículo esperando que a virgem lhe redima dos pecados de ontem.
    Entretanto Eloise Kelly (Ava Gardner), a badalhoca, a que se embebeda, fuma e diz palavrões, a que aparece em África vinda de todas as histórias de desamor, a putéfia que todos os homens esperam ter na cama mas não na mesa, aguarda. Também chora, confessa-se, indigna-se, vocifera contra a hipocrisia da beta com falta de um bom par de fodas. Mas espera. Só para ver o que acontece, como se o amor que sente por Victor Marswell já não fosse importante. E quando tem a oportunidade para humilhar a cabra loira, a santinha, a que a insultou, a que lhe atirou à cara os amantes e o mau nome, cala-se. À inveja sobrepõe a dignidade de quem nada tem a esconder. Mais, defende a tão importante honra da amorosa e inocente Mrs. Nordley. Porque é isso que as senhoras fazem. E dessas já há poucas.
    Que uma mulher não se enxovalhe pelo passado, que mantenha a cabeça bem alta, que não a abatam as vozes das puras deste mundo tão falto de sexo e amor, é muito perigoso. As invejas rebentam por todo o lado, os olhares reprovadores não perdoam. Puta e mais que puta, é isso o que Mrs. Nordley vê em Eloise Kelly, sem se dar conta que a única que engana, mente e magoa é ela. Mas de nada serve, porque Mrs. Nordley, tão senhora e tão penteada, volta à miséria da vida sem falhas.
    Prefiro mil vezes uma Ava Gardner descalça e com a vida em cima da mesa, sem vergonha ou mais dores que as que lhe causou a história, à virgem ofendida Grace Kelly, mentirosa, ressentida e com a suficiente falta de vergonha para deixar que o marido sofra por ela o que a educação e as noites de sociedade não lhe permitiram gozar.
    O que é uma mulher? Definitivamente, Ava Gardner. Que o mundo prefira as Graces Kellys com ar de sonsas, isso já é outra coisa. E eu não tenho culpa disso.



    Por Rititi @ 2005/06/13 | 5 comentários »


    as grandes cabras da ficcao eve o


    AS GRANDES CABRAS DA FICÇAO:
    EVE, O PERIGO DA BANALIDADE (All About Eve)

    Eve. Eve the Golden Girl, the Cover Girl, the Girl Next Door, the Girl on the Moon.
    A queriducha que sempre está disponível, o ombro amigo, a vítima da vida, a devota discípula. A que guarda a faca debaixo da almofada.
    O que quer Eve? Êxito? Amor? Glória e um homem? Que lhe falta a Eve, que se dá com tanta facilidade? Um apartamento em Manhattan? Uma peça na Broadway? Nem por isso. À inocente e pura da Eve o que lhe dói é ser simplezeca, minúsculas, sem nada a acrescentar que um lambe-botismo irritante.
    Eve precisa o que os outros têm: a vida de Margo, o marido de Karen, a fortuna de Max, a genialidade de Bill. O que lhe sobra a Eve – inveja, mediocridade, banalidade – falta-lhe em escrúpulos e valores. Eve não tem moral a que se agarrar, só raiva por não ser plena e feliz, como os demais, como Margo, a vítima perfeita no seu plano demente.
    Eve, Eve, always Eve. Pois é Margo, sempre Eve, a sombra, a que espera que adormeças para te arrancar os olhos, a que não tem limites na mentira.
    Não há personagem masculina no cinema que chegue aos pérfidos calcanhares de Eve. A filha da putice é algo tão feminino, que vem de dentro, uma víscera estranha que domina o carácter e a mente. Lecter era requintado, um génio do mal. Eve não procura a arte nem a perfeição nas sua obras, só foder, ser cabra, roubar a vida alheia, parasita ela das suas próprias tristezas. Que triste, Eve, ao fim premiada e sozinha. Afinal, Eve, de que serviu tudo?
    Eve não suporta o êxito alheio, a glorificação do próximo, porque nela só reside mesquinhice e uma infelicidade crónica, de quem jamais foi amada. Eve, no final, é comida pela mesma avareza que a levou a criar a tragédia na vida de Margo – porque o género feminino está cheio de pequenas e insignificantes Eves, de sanguessugas das riquezas que nunca poderão ter. O problema da banalidade é que de nada servem os prémios ou as glórias fáceis. É sempre preciso mais, foder mais, roubar mais, mentir mais, invejar mais, que os outros sofram mais.
    Claro que só as mulheres conseguem cheirar a léguas as Eves deste mundo (partilhamos os mesmos genes). Por vezes só damos pelo monstro que temos ao nosso lado quando o terramoto já é inevitável, quando se nos cai a casa na cabeça, como lhe acontece à ciumenta e velha Margo, a quem Eve saca proveito dos pequenos pecados, das fraquezas da diva. Eve não suporta esta estrela egocêntrica e adorada por um mundo que não precisa de heróis perfeitos. Eve, ao apontar o dedo às debilidades de Margo, mais não faz que sacar à luz a sua própria merda. Porque o tempo nada perdoa.
    Nem a Eve, a rapariga dourada, a rapariga da capa, a rapariga da porta do lado, a rapariga na Lua.


    Por Rititi @ 2005/06/09 | 7 comentários »