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A passada quinta feira, dia 9 mais concretamente, fiz 37 anos. Ninguém diria, é verdade, pareço muuuuita mais nova, obrigada. E para comemorar esta idade já tão próxima dos 40, valhamedeus, o cada vez menos jovem casal Pinheiro agarrou em si, atirou os putos para casa da avó mais querida e fugiu para Lisboa. Sim, estive aí desse vosso lado na fronteira a celebrar o meu aniversário, que também, mas sobretudo a cidade que mais feliz me faz, e os amigos que tantas saudades deixam, e as iscas com batatas fritas, e as imperiais, e esse rio e essa luz sobre o mar do Guincho. E nós. Fomos a Lisboa comemorar-nos, dar-nos beijinhos e lembrar-nos que apesar da mecânica dos dias com filhos, das manhãs a tropeçar um no outro e das noites em que deixamos que o sono nos vença no sofá, estamos juntos há quinze anos por uma única razão. Porque eu gosto muito dele. E ele de mim (espero, senão esta prosa toda não serve para nada). Estamos juntos porque é assim que faz sentido a nossa vida. A minha vida tem sentido ao pé dele. É o único que não acha disparatados os meus disparates, que me percebe quando o resto ainda está a processar, que me ralha porque sabe que estou a ser parva, ou preguiçosa ou porque sim. Temos uma aliança anterior, sagrada, que nos ajuda a sobreviver ao quotidiano. E não, nós não comemoramos o dia dos namorados (sem maiúsculas porque não merece), nós namoramos todos os dias, não fazemos de conta que há um dia especial, porque especiais já somos nós sem rosas e jantares com menús afrodisíacos. Eu avisei que este era um post lamechas, mas dêem-me um desconto, tenho 37 anos e a idade faz-nos mais parvos.
Comecei 2010 como comecei todos os meus últimos 10 anos, ressacada, com um comboio de mercadorias dentro da minha cabeça e a mamar o Mamma Mia, O Diabo que se veste de Prada e uma infinidade insultuosa de horas de séries de gaja com a sua dose justa de lagriminha, amor sem vergonhas de casa de banho e lições de vida a golpe de pares de sapato caros. Foi tal a ração de hormonas, Cristo, que quase me sai uma terceira mama. E isso que eu adoro deixar-me lavar o cérebro com historietas simpáticas sobre relações descafeinadas, mas ao cabo de cinco horas de observação do homem apaixonado pela histérica compradora compulsiva, estive ao ponto de deixar de acreditar de uma vez por todas no sexo masculino. Porque, caros leitores (os que me restam, vista a queda brutal da audiência rosa-cueca), a qualidade do tomatame nestas séries e filmes é tão fraquinha, são todos tão pichas moles, tão menstruados, tão sensíveis às novas temporadas da Zara que eu, pás das tantas, dei por mim a achar que tinha casado com último macho à face da terra. Se este ser ultra-compreensivo, anoréctico e metro-sexual é o Novo Homem a Humanidade está condenada à extinção. E é disto que as gajas gostam? De verdade queremos as gajas passar o resto dos nossos dias com espécimenes adulterados da masculinidade que nos dizem que sim a tudo, que acham naturalíssimas as nossas neuras, que não têm problemas em nos comprarem os pensos higiénicos, que sabem de cor as canções da Beyonce, que não têm ressaca, que não ressonam, que cheiram sempre bem, que não se cagam na mãe de ninguém, que não andam ao murro, que conduzem cuidadosamente, que sao gajas? E se nós, as gajas, não precisamos de uma gaja como companheira, precisamente porque para gajas já nos bastamos e nos fartamos o suficiente, então quem nos está a vender este novo homem? Uma conspiração gay para acabar de vez com a raça humana? Gajas ressabiadas e com um historial de fracassos amorosos digno de um filme francês? Os franceses? Ressacada e desanimada com o futuro do ser humano, eis como comecei o 2010. Por sorte a minha irmã, que partilhava comigo o sofá, a ressaca e as aspirinas, passou-me a derradeira lição de masculinidade, testosterona em estado puro, a esperança do macho universal, a sétima temporada do 24. Pronto, os dois últimos machos à face da terra são o meu marido e o Jack Bauer. O meu homem é que não é gajo de passar o dia a torturar suspeitos de terrorismo, desactivar bombas nucleares e salvar os Estados Unidos, mas de resto, é mais ou menos a mesma coisa. O mesmo género. O mesmo gajo. Um gajo. Uma rareza nos dias que correm, um dos poucos que quando tem nas mãos uma revista de moda só vê gajas boas e nunca tendências, que define os meus vestidos como bonitos ou feios, um homem que tem incapacidade genética para entender a existência da Sienna Miller ou as irmãs Olsen e para quem um itbag é um conceito tão abstracto como a ideia de Deus. Um macho com todas as letras, que me ignora quando me dominam as hormonas idiotas, que acha absolutamente inútil as horas que dedico à Hola, que me dá espaço para os meus momentos de gajedo sem fingir que está minimamente interessado pelas minhas malas, que me faz sentir mais mulher todos os dias. E é meu.
Hoje, que não há razões no calendário, lembrou-me a telefonia que há doze anos atrás esta deveria ter sido a minha canção de resposta a aquele primeiro beijo teu.
Mr. Pinheiro agarra-me na coxa e diz-me, com ar muito satisfeito, que estou frondosa. Acagaçada dei um salto ao dicionário, não estivesse o meu homem a chamar-me gorda y yo tan tranquila. Que tem muitas folhas; frondente; copado; abundante em ramos. Agora, peço-lhe que o repita uma e outra vez porque frondosa soa-me a fértil, a mulher fundamental. Arranjem um marido que vos diga coisas destas e depois venham falar comigo.