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Rititi

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INÍCIO

  • PENTHOUSE DE OUTUBRO: VIVA O PRODUTO NACIONAL

    Nesta altura em que os dias se vão encurtando, os céus se escurecem com promessas de frio e de chuva e que todos começamos a tirar os casacos e as botas do armário, a mim entram-me umas saudades doidas do verão. Saudades das férias. Saudades da praia. Dos biquinis. Dos corpos quase nus que correm pela praia e descansam na areia. Dos peitos bronzeados dos homens. Saudades dos rabos das mulheres. E que belos rabos que têm as mulheres portuguesas, senhores! Das praias de Espinho às de Portimão, passando pela Figueira da Foz ou Vila Nova de Milfontes, o areal português é um festival de nádegas lisas e triunfantes, como se de uma competição se tratasse. Durante anos fartei-me de ouvir gabar as espanholas, todas elas produzidas e desembaraçadas, as francesas, as mais desinibidas, as inglesas, doidonas e sempre prontas para a festa, ou as suecas, loiras com todas as suas consequências. E as portuguesas? Porquê esta discriminação em relação ao produto nacional? Nunca percebi. A portuguesa, além de ser a que vos calha mais à mão, tem o melhor rabo do mundo. Um rabo orgulhoso, rijo, um rabo que sem ginásio enxovalha os desenxabidos rabos alemães, que até podem muito ricos e desenvolvidos, mas que não passam de sacos fofos e tristonhos. E não me falem das brasileiras: os portugueses inventámos a bunda, por tanto não conta. A semente é nossa. O rabo primigénio é o nosso. Pronto.

    Agora que andamos todos macambúzios com a crise, os recortes nos subsídios de Natal, o aumento do IVA e a certeza que seremos mais pobres e menos viajados do que fomos há uns anos atrás, se calhar não era nada mal pensado começar a ver as coisas pela positiva. É verdade, estamos fodidos pela Troika, pelos mercados, todos os dias os jornais acordam-nos com uma nova péssima notícia. Teremos que esquecer as férias em Punta Cana, a compra do novo BMW, mudar-nos para um T3 com vistas para o Tejo não passará de um sonho impossível. E depois? Sejam optimistas! Temos um sol fabuloso em Portugal! As nossas mulheres têm corpos lindos! Eu sei que custa ser positivos a estas alturas do campeonato, mas lembrem-se dos rabos. Um rabo é sempre uma boa maneira de encarar a vida. Quando de manhã se cruzarem no elevador com a vizinha gira e solteira do andar de cima imaginem-a dentro dum biquini minúsculo a sair da água na Costa da Caparica. Maravilha. Se forem à pastelaria ao lado do vosso escritório olhem bem para a miúda que vos serve o café. Não vos parece bonita? O que terá debaixo da farda? Sorriam-lhe. Até a podem convidar a dar uma volta, beber um copo lá em casa, quem sabe se não tomarão o pequeno almoço na cama. Atrás da empregada assustadora das Finanças tenho a certeza que há uma mulher atraente, com pica, com graça, porquê não tentar engatá-la? O que podem perder? Nada, garanto-vos. Como muito levam com os pés, mas já dizia o outro: Paris bem vale uma missa.

    O dinheiro não traz a felicidade, mas ajuda. Já o sexo, ai, faz muita gente feliz. E o sexo é grátis, assim como o engate, a sedução genuína, o desejo, essas cócegas que nos surpreendem a meio da tarde. Sexo que não custa nada, que se consegue quando se quer saber o que faz a nova colega quando apaga o computador e vai para casa, como se comportará essa rapariga quando está longe das amigas. Mas, claro, para isso é preciso aprender a olhar para o que temos ao lado. E o que têm ao lado, do outro lado da porta, a mulher portuguesa, não só vos irá surpreender como terá, sem dúvida, o melhor rabo do mundo.



    Por Rititi @ 2012/01/21 | 4 comentários »


    Muito bons são eles

    Ri-me tanto. Obrigada Revista Sábado por me proporcionares grandes gargalhadas a meio de uma manhã chuvosa e triste nesta terra madrilena. Obrigada, a sério. Só um optimista pode acreditar que o Mel Gibson é o presidente da Alemanha, só alguém. Amei. E ao contrário do 95% dos portugueses não fiquei consternada, nem muito menos indignada com a qualidade da “nossa” juventude, não me senti desiludida com os futuros engenheiros, psicólogos e desempregados com mestrado deste país. Do que é que estavam à espera? Acaso vocês que tão chocados estão não sabem com quem trabalham, não ouvem as conversas no metro, não lêem blogs? Esperavam o quê? Dissertações sobre o último livro de Philip Roth à porta da Faculdade? Este meu país não pára de me surpreender, de facto. Estas criaturas são filhas do Portugal dos últimos 20 anos, de uma classe média bêbada de Euros e auto-estradas grátis, idiotizada pela sensação de novo-riquismo à base de subsídios do que antes chamávamos a CEE, que se acreditou europeia e por tanto com direito a ter tudo novo. E teve. Os últimos carros, os últimos telemóveis, as últimas férias nos resorts, os últimos restaurantes da moda, a última mala da Carolina Herrera. Uma classe média que associou o ter para ser alguma coisa de jeito. Conheço malta cheia de MBA, bmw e iphones que passa férias de barco em Ibiza e bebe o melhor e mais caro vinho e que não diz nada de jeito, que não vai a um concerto se não é convidado por algum banco ou associação de advogados, gente que não pisa museus, só galerias de arte. Conheço directores gerais que não sabem o que significa a palavra “antologia”. Conheço professores que não têm livros nas estantes de casa, médicos que só viajam em cruzeiros, advogados que não sabem que foi D. João II. Estou a falar de uma classe média que não se importa de pagar balúrdios absurdos pela educação dos filhos, pagando-lhes aulas extra de piano, inglês, ténis e chinês mandarim mas que não têm a menor curiosidade em saber o que aprendem. Os pais, já sabemos, são muito bons no que fazem, são maravilhosos gestores/advogados/técnicos/jornalistas/doutores em sociologia germânica, mas o resto, religião, cultura geral, literatura, filosofia, política, pois é, não é com eles. Muito bons são os putos. Ao menos não acabaram na Casa dos Segredos, que mau aspecto, que aquilo é só grunhos de classe baixa.



    Por Rititi @ 2011/11/23 | 15 comentários »


    Afinal Portugal ainda é o meu país

    Estou longe, eu sei, de Portugal e dos seus problemas com a Troika. Eu sei que não me afecta a sua necessidade de recortes, de ajustes de déficite, não tenho quase nada a ver com as mais que previsíveis greves gerais que se adivinham. Este ano ainda não fui a Lisboa, acho que só visitei remotamente o Alentejo uma vez, não comi sardinhas, não celebrei o Santo António. Nem sequer votei. Mas não deixo de olhar para Portugal todos os dias. Leio os blogues e os jornais, sigo no twitter jornalistas lusitanos, a maioria dos meus “amigos” do facebook são portugueses. Acho-me relativamente informada, apesar de não ser afectada pelo quotidiano nacional. Fernando Nobre não me diz nada, muito menos Assunção Cristas, por não falar de Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Mas isso não quer dizer que não me comova quando ouço falar deste novo governo, ou pior, que não me inquiete saber que o meu país está a entregue a gestores (altamente qualificados, sobrados de MBAs, doutoramentos, mestrados, artigos publicados em revistas de renome internacional) treinados nos meandros da empresa privada e nas suas intrigas, promoções, despedimentos, curvas de resultados, objectivos semestrais, prémios chorudos. Portugal, toda a gente sabe, precisa de uma volta, do que se chama uma restruturação fundamental, de uma limpeza no sistema, e estes super-gestores que foram chamados a liderar esta derradeira baixada de calcinhas, ou como quem diz dar literalmente o cuzinho, para pôr as contas em dia e satisfazer as necessidades da nossa infinidade de credores, não terão a mínima consideração com o “país real” quando olharem para os números, que afinal é o que Portugal é: números vermelhos, números arrasados por décadas de ineficiência, números derrapados, números afinal. Quando estes gestores (brilhantes, com certeza) arregaçarem as mangas não terão em consideração nada mais que números, porque para isso foram contratados em base à sua comprovadíssima e aplaudida experiência como técnicos em gestão ou economia privada. E olharão para Portugal como essa empresa que precisa urgentemente de ser limpa de todos os vícios milenares, da sua ineficácia congénita herdada dos séculos em que vivemos dos réditos brasileiros, do Estado Novo, dos subsídios europeus, da boa vida, sem ter em conta nada mais que a urgência de aparecer bem na foto para o FMI, o Banco Central Europeu, os mercados, os investidores. Acontece que nesta empresa que é Portugal não só há chupistas e sugadores, funcionários incapazes, uma classe política que se vem mutando desde a ditadura sem vergonha ou consideração pelos que lhes votam, sindicatos dedicados ao enriquecimento das suas elites, assessores, chefes e subchefes de secção, gabinete ou comissão, uma cambada, aliás, obviamente mais que preparada para se adaptar a tudo o que é corte e recorte graças ao conhecimento das minúsculas letrinhas que compõem as leis e os seus decretos e que os fazem absolutamente imunes a qualquer tipo de limpeza, por muito que esta seja encabeçada pela troika, o FMI ou o mesmíssimo Deus. Portugal, essa empresa, está composto de reformados que cobram cento e cinquenta euros ao mês, mães solteiras que trabalham em centros comerciais pelo ordenado mínimo até às dez da noite, desempregados, agricultores com pedaços minúsculos de terra da que comem eles e o seu triste gado, gente sem recursos nem um futuro e que desgraçadamente dependem do Estado Social, dos centros de saúde, das receitas que lhes passam os médicos, das creches públicas, do abono de família. E esta gente não será tida em conta quando os números precisarem de ser limpos e expostos numa comissão qualquer em Bruxelas. Desgraçadamente, quando se tiver que cortar no Sistema Nacional de Saúde se não cortará nos gestorzecos que andam há décadas a ganhar quarenta mil euros para emitir informes sobre o estado da coisa, mas sim no centro de saúde lá de Pedrogão Grande que não cumpre com os objectivos de produtividade marcados numa reunião num comité qualquer em Lisboa. Como sempre, quem se fode é o desgraçado do mexilhão. E o mexilhão não é de certeza essa classe de merda que está há décadas sentadinha nos meandros do poder a ver como vão passando os governos, o FMI, as troikas, os passos coelhos do momento. Eu estou longe, eu sei, mas não estou cega. E ainda tenho a família e demasiados amigos desse lado como para me deixar de preocupar com o que afinal de contas ainda é o meu país.



    Por Rititi @ 2011/06/21 | 7 comentários »


    Era mesmo isso

    “Portugal é um país de egoístas, de preguiçosos, de pessoas que até queriam ter mais filhos mas não dá é a crise temos de ser responsáveis mas que fico com pena fico porque o meu santiago merecia um irmão ele que merece tudo não lhe dou o suficiente, que ficam em casa dos pais e precisam de comprar o último modelo do tdi que já tem gps dá imenso jeito também fico só a pagar mais 46 euros por mês, um país de filhos únicos, filhos simultaneamente mimados e ignorados, príncipes do vazio, ligados a todas as tecnologias, a todas as redes, ele merece tudo, é o meu anjo, esperei 39 anos por ele, que não tem culpa, eu vi o que aconteceu à carreira das que engravidaram antes dos 30, onde estão elas agora?, não se chega a sub-directora ficando em casa a mudar fraldas, se não fosse o divórcio se calhar tinha ido ao segundo, mas era irreconciliável, já só gritávamos, agora que olho para a nossa lua-de-mel tudo me parece há anos sem fim, foi só há quatro, o Vietname é lindo naquela altura do ano, o governo não apoia a natalidade, a culpa é da licença de maternidade e dos benefícios fiscais, ter filhos é um sacrifício muito grande, abdica-se de muito, a qualidade de vida baixa e agora uma pessoa já estava habituada, é a crise, é a crise, estou atrasado para o concerto de logo à noite.”

    Lourenço, no grande Complexidade e Contradição.



    Por Rititi @ 2011/04/27 | 11 comentários »


    Portugal

    Portugal e o Euro 2004. Portugal e as Scuts. Portugal e o Magalhães. Portugal e os ordenados dos gestores. Portugal vendida como uma puta de praias paradisíacas e campos de golf. Portugal e as “novas oportunidades”. Portugal e os ídolos, as Lyonces Viiktoryas, a idolatria dos cristianos e do novo-riquismo analfabeto e com interminável tempo de antena. Portugal e os seus pequenos líderes corruptos que se rastejam nos parlamentos, autarquias, campos de futebol, platôs de televisão sem limites, sem consequências, sem castigo. Portugal e o espólio da nossa identidade, com bandeiras patrocinadas por bancos, o hino como reclame publicitário, a História como passatempo de governantes ignorantes. Portugal e os ares de superioridade, esbanjando fortunas emprestadas, desperdiçando fundos que se nos confiaram para crescer, ser melhores, estar na linha da frente. Portugal e os tratados e as cimeiras e as passadeiras vermelhas para ditadores, déspotas regionais, vilõezecos com barris de petróleo. Portugal e o envelhecimento de um interior que vai da fronteira com Espanha até às portagens da ponte 25 de Abril. Portugal e os recibos verdes e o salário mínimo e a precariedade e um carro para cada membro da família e as férias de três semanas no Algarve e os maiores centros comerciais da Europa e cartões gold e bilhetes esgotados para qualquer concerto no Pavilhão Atlântico. Portugal e os sonhos de grandeza. Portugal e o resgate.



    Por Rititi @ 2011/04/06 | 13 comentários »


    Os deolindos

    Coitados dos deolindos, esses putos de 25 anos que apesar de terem uma licenciatura em gestão de artes cénicas não encontram trabalho na sua área e que como muito são contratados para um estágio onde não recebem mais de quinhentos euros e que não têm dinheiro para comprar uma casa com três quartos no Chiado e por isso vivem com os pais em vez de partilhar um apartamento com mais três deolindos e que são obrigados a andar de transportes porque não há banco que lhes dê um crédito para comprar um Golf. É fodido ter 25 anos e confirmar que a vida lá fora não respeita as mordomias a que estávamos habituados em casa dos pais. É fodido não receber 2.000 Euros porque “fartei-me de estudar”, é fodida a incerteza de um contrato de trabalho merdoso, é fodido. Eu acho bem que os deolindos se queixem à porta da Bicaense, que bramem contra as injustiças do liberalismo, que cantem hinos no festival da Zambujeira. Pois. O que eu já acho mesmo fodido é que os Deolinda, esse grupo de intervenção estilo Lux, não cantem a essa geração de trabalhadores das fábricas de São João da Madeira que se matam a trabalhar de sol a sol e pelo salário mínimo, se é que recebem, porque muitas das vezes os patrões declaram-se em falência para abrir outra fábrica mesmo ao lado. Fodido mesmo é que o Bloco de Esquerda, os líderes da esquerda betinha e fracturante, nunca se tenha lembrado dos salários miseráveis das educadoras de infância, das empregadas de supermercado, das cabeleireiras, das senhoras da limpeza, porque esta gente não canta hinos, não é gira, não tem um curso superior em Cultura Visual, não lê Paul Auster, não tem tempo para se queixar porque passa a vida a trabalhar. Básicamente, estes defensores da suposta geração perdida são incapazes de sentir empatia pelo povão, pela que sempre se chamou classe trabalhadora e que é realmente a geração desperdiçada, gente cuja força bruta e capacidade de sacrifício e de trabalho ninguém aproveitou mais que para encher centros comerciais e estádios de futebol. Gente que acorda de madrugada para dar de comer aos filhos e a uns pais cuja reforma não passa dos cem euros, que paga empréstimos, crédito habitação, impostos, segurança social, tem os putos em escolas e ATL, mas que chega ao fim do mês sem capacidade de poupança porque não lhes dá o ordenado para mais e que não sai da cepa torta, incapaz de pertencer à classe média, que é a que levanta o país e que realmente deveria interessar ao Bloco, aos deolindas e a todos estes indignados. Mas esta gente que não interessa a ninguém porque não vai a concertos no Coliseu ouvir os Deolinda porque não têm dinheiro nem pais a quem continuar a chular as entradas enquanto se queixam que são escravizados.



    Por Rititi @ 2011/02/21 | 40 comentários »


    CAMBADA DE GENTE DOIDA, MESMO

    Eu sei que me repito, mas não me conformo, a sério que não. Portugal merece mais e melhor. Portugal não pode ser só a pátria do Carlos Castro e do menino do saca-rolhas que é gay mas não é mais aquelas taradas que mandam as cinzas do morto para os respiradouros do metro de NY. É que não temos famosos normais em Portugal? Ou é tudo uma cambada de gentinha ordinária, pindérica, mal-formada, egocêntrica, vaidosa e atacada dos cornos, palavra de honra? Como é possível que seres como Luciana Abreu e (deixa-me lá fazer copy/paste) Yannick Djaló tenham direito de antena? Quem é esta gente? E que porra de nome é Lyonce Viiktórya? E mais, quanto pagaram ao funcionário do Registo para registar essa anormalidade? E o comunicado, credo? Eis algumas das pérolas:

    - Viiktórya pelo nosso amor ter triunfado e ter vencido todos os obstáculos e má lingua (…) de tanta gente, principalmente daqueles que até hoje só apareceram na nossa sombra, graças à nossa luz e por sermos fuguras públicas tão mediáticas.

    - “Somos 3 em 1″

    - “A titi Luisa (…)  não sabia se pegava nela se tirava fotos primeiro”

    - “A filha (…) será para sempre o meu reflexo”.

    Bela merdinha de qualidade de famosos, é o que é. Assim o país não sai da cepa torta, ai foda-se!



    Por Rititi @ 2011/01/20 | 11 comentários »


    entrego o meu bi e fico na mesma

    ENTREGO O MEU BI E FICO NA MESMA

    Portugal cada vez está-me mais longe, a uma distância de anos luz, se me apuram. Da Mora Guedes à Ferreira Leite, passando pelo TGV, Sócrates e o Benfica, as telenovelas da TVI, os cornos do Manel Pinho, os manifestos dos blogues de direita, os caroços da Patrocínio, as novas celebridades-gremlins que aterrorizam as discotecas pátrias no verão, a eterna campanha eleitoral em que se encontra mergulhado o país e as polémicas, as comissões de estudos e as análises de impactos, as crónicas de opinião que não há quem as leia de putos sem barba ou cama mas com muito doutoramento na prateleira, a histeria com a gripe A, o décimo quinto debate público sobre as uniões de facto, a snobeira já mais que insuportável da intelectualidade nacional a tudo o que não esteja escrito em sânscrito, as lamentações de todos esses escritores brilhantes mas ocultos no azar do anonimato ou da mediocridade cada vez que uma gaja publica os textos do blogue e, sobretudo, essa nova portugalidade que compra porches a prestações fazem-me sentir cada dia menos portuguesa, mais distante dessa terra que uma vez foi minha casa, mais orfã de país, de raízes, de Portugal. Sou uma estrangeira que transmite ao filho uma língua de um país que não me diz nada.


    Por Rititi @ 2009/09/03 | 21 comentários »


    quinze dias no alentejo dao nisto babem

    QUINZE DIAS NO ALENTEJO DÃO NISTO:

    – Babem-se o que quiserem com os espanhóis: que eles adoram estar na rua, que eles é que sabem viver a vida, que o Rei deles é um bacano. O caralhinho. O nível de um país também se pode medir pelo comportamento das suas crianças à mesa. E amigos, a nossas crianças sabem estar num restaurante sem causarem uma hecatombe de proporções mundiais, a correrem feitas umas possessas entre as mesas, empurrando empregados, clientes e transeuntes, mamaaaaaaaaaa mira este, mamaaaaaaaa tengo hambre, berrando por pão, água ou gelados, ou tudo junto, mamaaaaaaaaaaaa me aburrooooooooo, enquanto os pais ficam momentâneamente surdos e solteiros e sem filhos até que se acaba o café e com um bocado de sorte os dois cubatas e meio maço de Fortuna. Comparados com os putos espanhóis os nossos futuros isaltinos são uns anjos. Pensando bem, o nível de um país não se mede pela educação das crianças mas sim pela capacidade de cagança dos pais. E disso os espanhóis sabem muito.
    - Portugal é um país fascinante, amigos. Desde quando é que a Maya dá tusa?
    - Os Deolinda são uma seca.
    - Aliás, supera-me toda esta febre pelo novo fado, muito dele de pouca qualidade, mais parecido à canção ligeira e mesmo assim carregadinho de demasiados ares de pedantismo. Mais Tereza Tarouca e menos deslumbre, por favor!
    - Só acreditarei no aquecimento global quando as águas das praias portuguesas chegarem aos 20 graus. Não peço muito, bolas.
    - Telenovelas, Conta-me como foi, o Marco Horácio, o Carlos Malato, telenovelas, telenovelas. Não sei é como é que os portugueses não se embebedam todos os dias.
    - Viva o 31 da Armada e os seus digníssimos representantes Rodrigo Moita de Deus, Henrique Burnay e Nuno Miguel Guedes. Proponho aos kamaradas do 31 da Armada o sequestro da águia do Benfica (a vitorinha), do molho especial de francesinha da Cufra e, porque hay que tenerlos, da colecção de disco de ouro do Marco Paulo.
    - Gosto tanto dos meus amigos. Pena que vivam tão longe.


    Por Rititi @ 2009/08/17 | 6 comentários »


    hosptital curry cabral lisboa 17 de

    HOSPTITAL CURRY CABRAL, LISBOA, 17 DE JUNHO DE 2009

    Coisas fascinantes tem Lisboa: para poder pagar o arranjo do meu carro na Peugout tive que levantar dinheiro num hospital. Assim que lá foi o fabuloso casal Pinheiro ao Curry Cabral, direitos ao multibanco para despejar a conta, quando nos encontrámos com esta fascinante cena: à porta desta reputada instituição hospitalar um fornido segurança vociferava ao telemóvel os seus assuntos também fascinantes e pelos vistos cruciais para os destinos da humanidade enquanto uma senhora velha, daquelas que de tão velhas já só podem ser tratadas por velhinhas, se mantinha imóvel na entrada rodeada de ambulâncias e gente que passava, dobrada sobre si mesma. E sozinha. A senhora está bem? Ó segurança, já viu se a senhora está bem? ah, ela (uuuuf), quer ir às urgências, e o segurança, não faz nada? eu? ela que dê a volta ao hospital que a porta das urgências é do outro lado, mas já reparou que a senhora não pode andar? Silêncio. Costas voltadas. Num hospital. E lá fui eu, armada em nada, só em pessoa, para dentro do hospital pedir que uma enfermeira pegasse numa cadeira de rodas para levar a senhora velhinha às putas das urgências. Quer o quê? alguém que trate da velhinha, a senhora funcionária não poderia pedir a esse outro segurança tão bem aposentado na sua cadeira de importante para dar um jeito? eu? era o que mais me faltava, não estou aqui para isso, então dê-me a cadeira a mim, ah mas senhora não faz parte do pessoal habilitado para retirar material hospitalar, aliás, quem é a senhora, um familiar? Eu? Eu só vim levantar dinheiro! A funcionária, ante tal absurdo, durante uma caganéssima de segundo viu a luz, vá-se embora descansada que eu peço a uma auxiliar para ir ver da senhora. E lá fomos nós pouquíssimos descansados à nossa vida, pagar o arranjo do carro à oficina que não aceita cartões estrangeiros. Mas voltámos, ai se voltámos ao hospital, de nome Curry Cabral, e lá estava a velha, à entrada do hospital, a entrar toda dobrada num táxi que caritativo se ofereceu para a levar grátis às urgências, enquanto sua excelência o besta do segurança, do alto da sua farda e dos vinte e inúteis anos, continuava ao telemóvel, grunhindo a estupidez da sua existência. Então, ó senhora funcionária mas que raio, aaah pois, então é assim, de facto foi lá fora a auxiliar e até lhe levou um copo de agua, está a ver, mas senhora (velha, velhinha), estava confusa, sabe como são os velhos, queria ir às urgências, enganou-se na porta, mas as urgências não são aqui, aqui é só para consultas externas e eu até a levava, mas estou aqui cheia de trabalho, e a auxiliar também tinha mais que fazer. E se fosse a sua mãe, a sua avó, também a deixava lá fora, às quatro da tarde, a trinta e muitos graus, sozinha? E para que servem vocês? Para que serve um hospital em Portugal? Grunhidos ante a desesperação de um casal indignado por culpa de uma velha anónima.
    Isto é o Curry Cabral, um hospital português. De todos aqueles funcionários com quem tivemos contacto não houve uma alminha que tivesse o mínimo, já não digo de profissionalismo, mas pelo menos de decência, humanidade, compaixão, amor ao próximo, dignidade. Uma velha que mal podia andar, curvada, sozinha, desorientada, só lhes mereceu a estes seres apáticos atrás do seu guiché uma infinita indiferença, um encolher de ombros assombroso. E isto em Lisboa, nem quero imaginar o resto do país, onde a terceira idade é a única idade que habita as vilas, as ruas, os centros de saúde, os hospitais. Ser velho em Portugal é sinónimo de abandono, toda a gente sabe disto, mas que num hospital, de nome Curry Cabral, se profissionalize este desamparo, que se maltrate assim os velhos, já nem é mau: é pecado. É o resumo do país de merda onde envelhecer é o pior dos pesadelos se o dinheiro falta e os filhos acham que são órfãos.
    Porque os velhos são uns chatos, estão sempre doentes, cheiram mal, repetem sempre os mesmos doeres, entopem as salas de espera com os mesmos queixumes de sempre, oxalá morressem todos e fôssemos todos saudáveis, e bonitos e altos e não chateássemos os funcionários de nenhum hospital, que tanto têm que fazer, atrás do seu guiché de gente ocupada e importante, em vez de tratar de doentes que é para isso que são pagos.


    Por Rititi @ 2009/06/23 | 26 comentários »